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Lula:
Reforma tributária, crescimento e distribuição
Ivo
Pedrosa *
Os
enormes desafios de nossa sociedade, neste primeiro de janeiro de
2003, vêm acompanhados de inusitada alegria e uma grande esperança
de imensa maioria de nosso povo. Na área das relações
entre o governo e a sociedade, o tema das contas públicas
é marcado por inúmeros conflitos: entre contribuintes
e governos; entre devedores e credores públicos; entre esferas
de governo; e entre contribuintes e não-contribuintes (isentos
ou sonegadores).
A expectativa
é enorme em torno da retomada do crescimento num novo tempo,
para reduzir o desemprego e elevar a renda. Com isso, seria minimizada
a crise fiscal, seja pelo fato de as receitas crescerem em ritmo
mais elevado do que o PIB, numa situação de ausência
de fortes mudanças na tributação, seja porque
as demandas de recursos para programas de atenção
social são em parte reduzidas com a diminuição
do desemprego.
A reforma
tributária se relaciona, evidentemente, com todas as questões
citadas. Do ponto de vista do crescimento, tem sido ressaltado no
debate, pré e pós-eleitoral, a importância de
desonerar a produção. Esse processo compreende,
de um lado, o estímulo ao investimento, retirando das decisões
relativas a ele o peso de impostos, ou seja, reduzindo ou mesmo
eliminando, o valor de impostos no preço dos equipamentos,
máquinas, aparelhos, construção de instalações,
etc. A justificativa óbvia é que essas decisões
criam emprego, mesmo que em pequena escala, em muitos casos, em
razão dos avanços tecnológicos. De outro lado,
a desoneração tributária da produção
deve alcançar as alterações nos processos de
tributação que permitam excluir integralmente, dos
preços dos bens e serviços vendidos ao exterior, o
valor dos impostos pagos na cadeia produtiva.
Assim,
dois componentes da demanda agregada correspondente ao PIB do País
- o investimento e as exportações - são considerados
merecedores de tratamento tributário privilegiado, que leva
a transferir para o terceiro componente - o consumo - a necessidade
de incidência de impostos e contribuições.
Mas
o consumo - categoria econômica de inserção
social a partir da disponibilidade de renda - é realizado
por grande parte dos brasileiros, após excetuada uma grande
massa de excluídos do mercado capitalista. Mesmo os que se
limitam a comprar poucos alimentos, um mínimo de roupas e
uma habitação que nem mereça este nome, pagam
impostos sobre o consumo, o que exige grande preocupação
sobre como retirar os tributos desse consumo ou conceder subsídios
compensatórios a partir da arrecadação decorrente
do consumo das camadas de renda elevada. A opção pura
e simples pela isenção ou redução da
alíquota desses produtos essenciais esbarra na incapacidade
dos governos de garantir que o mercado transfira aos
consumidores a redução do ônus tributário,
podendo tal procedimento vir a engordar as estatísticas da
desigualdade com a elevação dos lucros dos oligopólios
cada vez mais concentrados. O consumo das famílias de renda
mais alta pode ser alcançado pela tributação
da renda, por meio da subdivisão das faixas de renda do imposto
e criação de alíquotas mais altas para as rendas
superiores.
A desoneração
da produção e das exportações exige
mudanças profundas nos tributos incidentes sobre mercadorias
e serviços e grande parte do debate sobre a reforma nessa
área, nos anos noventa, apontou para essas mudanças.
Ficou claro, por exemplo, que o maior imposto do país, o
ICMS, que representa 7-8% do PIB, precisa ter legislação
nacional única e ser corrigido quanto a defeitos significativos,
que provocam danos à justiça fiscal e à competitividade
de regiões mais pobres, discriminando contra estas, como
é o caso das alíquotas reduzidas nas operações
interestaduais.
Todos
os requisitos de mudanças apontados acima estão contemplados
nos documentos programáticos do Partido dos Trabalhadores
e de outros partidos que estão compondo a aliança
de forças de centro-esquerda engajados em mudar o País,
o que deve constituir mais um fator de esperança para os
brasileiros. Pode-se, sem que represente dose exagerada de otimismo,
esperar um novo tempo para as questões abrangidas pelas contas
públicas.
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Ivo Pedrosa é professor de Economia da Universidade de Pernambuco
(UPE).
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