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O
Brasil e o Mundo: desafios para a esquerda
Marcelo
Medeiros *
A
política externa brasileira vem se adequando, ao longo de
sua história, às metamorfoses ocorridas no cenário
internacional, não raro protagonizadas por atores políticos
de peso geo-estratégico relativo de monta: Reino-Unido, Estados-Unidos
ou União Soviética. Isso não significa, contudo,
que a concepção de tal política não
tenha viés endógeno, que ela não reflita, também,
a busca dos interesses do Estado brasileiro. Seja: a eqüidistância
pragmática adotada por Oswaldo Aranha no final dos anos 30
do século passado; o alinhamento automático com os
Estados-Unidos no pós-Segunda Guerra Mundial; a postura independentista
de Kubitschek, Quadros ou Goulart de meados dos anos 50 até
meados dos 60 - ainda do século passado; o pragmatismo responsável
praticado por Gibson Barbosa, Azeredo da Silveira ou Saraiva Guerreiro
durante a parte final do regime militar; tudo reflete, com roupagem
ideológica diferenciada, a cristalização de
interesses específicos, conjunturais e/ou estruturais, do
Estado brasileiro. Há ainda que se assinalar - fato relevante
- que a discussão e implementação da política
externa brasileira, desde a fundação do Instituto
Rio Branco, deriva, em grande parte, de um corpo diplomático
altamente profissionalizado que, através de uma ação
eminentemente técnica e racional, imprime coerência
e estabelece filtragens aos modismos ideológicos.
Com
a Glasnost e a Perestroika desconstruindo a URSS e, também,
com a queda do muro de Berlim, o cenário de bipolaridade
se atenua, enquanto, no Brasil, a democracia retoma seu rumo com
a ascensão de Sarney à presidência da República.
Desde então - passando por Collor, Franco e Cardoso - a racionalidade
que tem comandado as ações dos atores internacionais,
inclusive o Brasil, tem se arrimado numa base fundamentalmente econômica.
Galvaniza-se, quase sem contestação, o consenso em
torno do binômio democracia vs. mercado. A busca pela primeira
passando por tentativas de aumentar o poder local; a procura pelo
segundo trilhando a senda do liberalismo e almejando, por vezes,
o fortalecimento do poder supranacional.
Nesse
contexto, a política externa brasileira do último
quartel do século XX e início do século XXI
fundamenta-se num tripé: integração regional
no Cone Sul, negociações multilaterais em fora internacionais
e relações bilaterais com os potentados Estados-Unidos,
União Européia e Japão. O objetivo-mor é
de condicionar a ação exógena aos interesses
endógenos, os quais encontram-se, hoje, sobretudo pautados
por um esforço de consolidação democrática,
de transferência tecnológica e de diminuição
de disparidades sociais abissais. Assim, o Mercosul surge como bastião
diplomático, indutor pedagógico de inserção
mercantil e projeto político de sociedade de longo prazo;
as negociações no seio da constelação
institucional onusiana (OMC, FMI, BIRD, entre outros) emergem como
instrumentos de gerenciamento tanto de ordem comercial e financeira
quanto de projeção macropolítica do poder nacional;
e, finalmente, as relações com os EUA no quadro da
ALCA, contrabalanceadas pelo diálogo interinstitucional do
Mercosul com a UE, e acrescidas do relacionamento com Tokyo, mas
também com Pequim e a vertente asiática dos Tigres,
agem como esforços visando a favorecer a participação
nacional na lógica minilateralista que perpassa o fenômeno
de globalização.
Os
grandes rochedos da realidade internacional limitam, pois, de forma
contundente, a margem de manobra dos governantes, quaisquer que
sejam suas bandeiras ideológicas. A interdependência
entre os atores estatais, agentes econômicos e organizações
não-governamentais tornam a governança responsável
limitada, restrita, refém de movimentos aleatórios
de terceiros. Os desafios para as novas políticas públicas
que emanarão da administração do presidente
Luiz Inácio Lula da Silva residem em concebê-las: (i)
de maneira a reformar o Estado-nação, tornando-o mais
coerente do ponto de vista da eficiência e do bem estar social;
(ii) de modo que a refundação desse Estado-nação
se faça inserida numa concepção de mundo que
aponta a integração regional como catalisadora de
maior sobrevivência, mesmo que para isso seja necessário
migrar-se de um conceito territorial de soberania até uma
definição de caráter funcional; (iii) atentando
para a irreversibilidade do fluxo globalizante da economia no qual
encontra-se inserido o Brasil e, conseqüentemente, para o imperativo
de nele preservar sua credibilidade, sem a qual qualquer país
se encontraria condenado a um ostracismo suicida.
Donde
alguns elementos de reflexão. As expectativas quanto ao exercício
do poder pela esquerda (?) são positivas. Elas não
devem contudo ser exageradas. O perfil do ministério, ora
anunciado, indica, na verdade, prenúncio de atitudes não
muito distanciadas daquelas que marcaram a atuação
social-democrata liderada pelo presidente Fernando Henrique Cardoso,
ou seja, atitudes buscando governabilidade interna e respeitabilidade
internacional. O salvacionismo demagogo parece ser mais discurso
de uma oposição irresponsável do que de um
partido de governo. A metamorfose policrômica pela qual passou
o Partido dos Trabalhadores, cujo pavilhão migra de um encarnado
para um branco estampando horizontais auriverdes, reflete, de fato,
uma migração ideológica em direção
ao centro, no sentido de se adequar ao diapasão das demandas
internacionais. Sem essa afinação, recai-se num isolacionismo
nefasto que só pode deteriorar, ainda mais, as condições
sociais internas do país. Sob a batuta de Celso Amorim, diplomata
de carreira experimentado, aguarda-se uma postura mais incisiva
do Itamaraty, procurando potencializar a pequena margem de manobra
que é facultada aos países em desenvolvimento, de
modo geral, e ao Brasil, em particular.
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Marcelo Medeiros é coordenador do Programa de Pós-Graduação
em Ciência Política da UFPE.
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