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Alianças impensáveis, posturas renovadas: o PT amadurece e a onda vermelha conquista o País

Apesar de liderar os operários nas lutas sindicais, Luiz Inácio Lula da Silva andava no caminho contrário ao da política. Defendia os interesses da classe com unhas e dentes, mas não relacionava suas atitudes a nenhum partido de esquerda. Pelo menos até o dia em que o seu irmão sindicalista, Frei Chico, foi preso e torturado. A revolta pela violência sofrida, aliada à falta de políticos engajados na causa operária, fez nascer o Partido dos Trabalhadores (PT).

As bases da legenda surgiram com a criação de um movimento batizado de 113. O grupo era formado por líderes classistas, como Lula (metalúrgicos), Jacó Bittar (petroleiros) e Olívio Dutra (bancários), além de religiosos, como Frei Betto e Leonardo Boff, e ainda intelectuais e socialistas livres que divergiam da linha dos PCs, como Apolônio de Carvalho e Perseu Abramo.

Dois anos após a fundação do 113, O PT é oficialmente criado no dia 10 de fevereiro de 1980, num encontro com pouco mais de mil pessoas. A idéia era fundar um partido que reunisse elementos do movimento sindical, da chamada esquerda crítica - desvinculada do pensamento ortodoxo dos partidos comunistas - e da nova igreja.

Sua primeira missão partidária aconteceu em 82, no mesmo ano em que incorporou o apelido Lula ao nome. Foi candidato ao Governo de São Paulo para aumentar a votação do partido e viabilizar o registro do PT. Terminou a eleição em quarto lugar, mas não desanimou. Em 83, fundou a Central Única dos Trabalhadores (CUT) e em 86, conseguiu se eleger como o deputado federal mais votado do País para a Assembléia Nacional Constituinte, com 650.134 votos.

Três anos depois, Lula deu início a aspiração maior da sua vida: eleger-se presidente do Brasil. Muitos consideraram a candidatura uma ousadia. A elite ficou em polvorosa quando Lula conseguiu superar Brizola nos votos e disputar o segundo turno com Fernando Collor (PRN). Foi a primeira das três derrotas consecutivas em eleições presidenciais.

Durante os próximos 13 anos, Lula não concorreu a nenhum outro cargo eletivo. Assumiu o posto de presidenciável permanente do PT e partiu, uma vez mais, para luta. Em 94 e 98, teve que encarar outras duas derrotas nas urnas para Fernando Henrique Cardoso (PSDB). Ao contrário do bom desempenho obtido em 89, Lula não conseguiu chegar nem ao segundo turno. Tinha contra ele o fantasma do preconceito, o estigma da falta de instrução e o sucesso do Plano Real. Afinal de contas, argumentavam, FHC era doutor em sociologia e Lula não havia passado da 5ª série.

ÚLTIMA CHANCE - Quando o PT anunciou a candidatura de Luiz Inácio Lula da Silva para disputar a vaga com o candidato do Governo, José Serra (PSDB), nas eleições de 2002, era sabido que esta seria a última oportunidade de Lula chegar ao Poder. Até mesmo dentro do partido que ajudou a fundar, a palavra desgaste já começava a ser pronunciada. Foi aí que aconteceu uma mudança profunda.

Para driblar a imagem de desacreditado, Lula e o PT adotaram posturas que em pouco, ou quase nada, lembravam a linha radical da década de 80. Cada vez mais institucional, buscando parcerias com empresários e opositores emblemáticos, Lula foi atrás de voto. E conseguiu o inacreditável recorde: 52.792.865 votos, a maior votação da história.

Os números da campanha mostram o desempenho de Lula e sua comitiva em três meses de intensa mobilização pelo Brasil a fora. Ao todo, 93 cidades foram visitadas, 103 comícios e 63 carreatas foram realizados. Lula percorreu 61.127 quilômetros pelo País e permaneceu 147 horas dentro de aviões. Mas não foi só tempo e disposição que os petistas gastaram. A campanha também consumiu R$ 35 milhões.

O dinheiro foi gasto na infra-estrutura de apoio - que teve direito a carro blindado, guarda-costas e jatinho - e também na contratação de profissionais de peso, a exemplo do marqueteiro Duda Mendonça, do jornalista Ricardo Kotscho, do cineasta Paulo Caldas, do cientista político André Singer e outras 200 pessoas.

Desta vez, o diploma de economista do ex-ministro de FHC não foi o suficiente para deter a onda vermelha que contagiou o País. Lula virou mania, ditou moda e caiu nas graças até daqueles que o olhavam com desconfiança nas eleições passadas. Serra ainda conseguiu levar a disputa para o segundo turno, mas a vitória já estava anunciada nas pesquisas de voto, nas ruas e na cara dos eleitores.

O presidente de honra do PT foi eleito no dia do seu aniversário, presenteando os brasileiros com a esperança de firmar um pacto social com toda a sociedade e retirar da miséria 54 milhões de pessoas que estão abaixo da linha da pobreza. Sonho, podem ter dito muitos. Mas Lula merece crédito e respeito, pois, já provou que é capaz de transformar sonho em realidade.

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