Um tipo de violência silenciosa faz crianças e adolescentes vítimas em todo o mundo, independentemente da faixa etária, sexo, cor, raça, religião ou classe social no qual estão inseridos. O perigo pode estar nas ruas, na escola ou na igreja, mas, na maioria dos casos, está bem pertinho das crianças, dentro de casa. O abuso sexual infantil, ao contrário do que muitos pensam, não é praticado exclusivamente por estranhos. Na verdade, cerca de 75% dos agressores é alguém da família ou um conhecido da vítima.
O tema veio à tona recentemente quando a nadadora pernambucana Joanna Maranhão declarou à imprensa que havia sido vítima de abuso sexual por parte do seu ex-treinador quando tinha nove anos (Saiba mais). A notícia gerou grande impacto na mídia nacional e internacional e fez ressurgir o debate do problema, que impressiona não só pela freqüência que ocorre, mas pelas conseqüências físicas e psicológicas que causa. "Minha filha de cinco anos teve DST e não confia mais em ninguém desde que o tio a estuprou há dois anos", relata a comerciante Maria do Socorro*, 29, residente em Olinda, Grande Recife.
A perda da confiança nas pessoas é apenas um dos danos. Mesmo quando não deixa marcas no corpo, o abuso sexual pode desenvolver na criança baixa auto-estima, isolamento social, depressão e até desejo de cometer suicídio. Não é à toa que Organização das Nações Unidas (ONU) considera o abuso e a exploração sexual infantil como uma das piores formas de violação dos direitos da criança e do adolescente. Estima-se que uma em cada seis meninas e um em cada nove meninos no mundo sofre algum tipo de abuso sexual antes de completar 18 anos, de acordo com a publicação "Quem sou eu? - Manual de desenvolvimento de condutas de auto-proteção", elaborada pela Save the Children Reino Unido.
Atualmente, não existem estudos oficiais que retratem a real dimensão do problema no País. Segundo o Disque Denúncia Nacional de Abuso e Exploração Sexual Contra Crianças e Adolescente, cerca de 41.530 registros foram contabilizados desde 2003 até novembro de 2007. Destes, 18,81% são abuso sexual; 13,56%, exploração sexual comercial; 0,31%, trafico de pessoas; e 0,60%, pornografia. Os dados registrados são apenas uma pequena parcela do que efetivamente ocorre. "A maioria dos casos não é conhecida porque as crianças sofrem ameaças, têm medo ou vergonha de dizer o que se passou com elas", diz a oficial de programas da ONG Save the Children Reino Unido, Nara Menezes. (Áudio)
TABU - Se discutir o assunto, que ainda é considerado tabu por parte da sociedade, provoca polêmica, admitir que a violência sexual está acontecendo dentro de casa é muito mais complicado. Em geral, a primeira reação da família é desconfiar das queixas da criança ou achar que ela está mentindo. Segundo a coordenadora do Projeto do Atendimento a Vítimas de Violência Doméstica e Sexual do Centro Dom Hélder Câmara de Estudos e Ação Social (Cendhec), Karla Ribeiro, é necessário reconhecer a criança e o adolescente como sujeitos de direito. "A nossa sociedade ainda trata a criança como objeto de submissão e, muitas vezes, não presta atenção nos pedidos de socorro que ela vem fazendo", avalia. (Áúdio)
Para que casos como o da família de Maria do Socorro e de tantas outras não sejam esquecidos, é realizado em todo 18 de maio o Dia Nacional de Combate ao Abuso e Exploração Sexual Infantil. A data é marcada por atividades em todo o País. "É o momento também de conscientizar a população sobre a importância da denúncia. A omissão não só permite a continuidade da violência como sua impunidade", completa a presidente do Conselho Estadual de Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente de Pernambuco (Cedca/PE), Eleonora Pereira. (Áudio) Caso conheça algum caso de abuso sexual infantil, faça a denúncia aqui.
* O nome foi trocado para preservar o anonimato
Copyright © 1997- 2008 , JC OnLine - Recife - PE - Brasil - Publicado em 14.05.08 -
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