Isabel na sala de atendimento
Psicóloga Vicentina Barbosa atende crianças vítimas de abuso no Imip

DANOS

Abuso sexual deixa também seqüelas psicológicas

Tudo pode começar com palavras gentis e presentes. Da sedução sutil, o abuso sexual passa lentamente para a troca de "carinhos" que, muitas vezes, devido ao fato da criança ser muito nova, ela ainda não possui capacidade cognitiva suficientemente desenvolvida para consentir, negar ou julgar o que está acontecendo. Como nem sempre deixa lesões físicas, uma das conseqüências mais comuns em quem sofre esse tipo de violência é desenvolver problemas de ordem emocional e psicológica, ainda mais se o agressor for alguém que a vítima confia e, muitas vezes, ama.

Segundo a psicóloga clínica do ambulatório de apoio do Instituto Materno Infantil Professor Fernando Figueira (Imip) Vicentina Barbosa, o abuso sexual intra-familiar é algo muito difícil da criança superar. "Ela não compreende como é que um pai, primo ou tio faz isso. É uma experiência extremamente traumática que ocasiona vários danos. São lembranças que vão ficar para sempre, não tem como apagar", ressalta. (Áudio) Comportamentos depressivos, isolamento e falta de desejo de brincar e interagir, ansiedade, fobias, agressividade, dificuldade de aprendizagem, transtorno do sono e representação anormal da sexualidade, são apenas algumas das seqüelas.

A dona de casa Flávia Silva*, 35 anos, moradora do Recife, percebeu que a filha dela de 12, que possui deficiência mental, ficou com um interesse exagerado nos assuntos ligados ao sexo depois que foi abusada por um vizinho. De acordo com a mãe da vítima, a violência ocasionou hematomas e abscessos na área genital da criança, mas não houve penetração profunda. "Apesar de tudo que sofreu, ela só quer saber de brincar de agarrar os meninos", diz. Com a filha da doméstica Raquel Oliveira, 41, residente na mesma cidade, foi exatamente o contrário. A menina de dois anos foi molestada pelo próprio pai. O crime acontecia nos fins de semana na casa da avó, onde ele passou a morar após a separação. "Ela criou uma aversão a homem. Chora e grita quando fica perto demais de um", conta. (Áudio)

Efeitos e sequelas
  • Auto-estima
  • As crianças aprendem que as necessidades e sentimentos não têm valor
  • Aprendem a sentir-se culpadas e responsáveis pelo que acontece à sua volta.
  • Não sabem defender-se, nem dizer não.
  • Emocional
  • Sentem insegurança e medo. Desenvolvem uma ansiedade crônica, medo, sentimento de culpa, raiva, depressão e tristeza.
  • Relações com outras pessoas
  • São incapazes de confiar nos adultos, o agressor as ensinou a manterem-se isoladas.
  • Também aprenderam e aceitaram a não serem tratadas com respeito e carinho, o que faz com que fiquem vulneráveis para sofrerem novo abuso.
  • Sexualidade
  • Não conhecem o conceito de espaço pessoal, que deve ser respeitado, tanto pelas outras crianças, como pelos adultos. Apesar de que lhes desagrada a atividade sexual, a utilizam para ter carinho ou preencher outros vazios emocionais.
Fonte: "Quem sou eu? - Manual de desenvolvimento de condutas de auto-proteção"/Save the Children Reino Unido.

Embora as meninas apareçam mais como vítimas em crimes de natureza sexual, os meninos também sofrem abuso. No Projeto do Atendimento a Vítimas de Violência Doméstica e Sexual do Centro Dom Hélder Câmara de Estudos e Ação Social (Cendhec), cerca de 80% das crianças e adolescentes atendidos correspondem ao sexo feminino e apenas 20% ao sexo masculino. "Temos percebido o aumento da quantidade de casos envolvendo meninos. Isso não quer dizer que já não acontecia. As famílias é que estão denunciando mais", ressalta a advogada do Cendhec Gabriela Amazonas. Em geral, os garotos demoram a contar sobre o abuso devido ao medo e à vergonha de serem rotulados de homossexuais. "Os pais também demonstram essa preocupação", revela a psicóloga da ONG Isabel Ribeiro.

Também existe o receio de que o abuso sexual pode levar a criança ou o adolescente a se inclinar para a prostituição. Segundo relatório da ONG sueca Save The Children, algumas jovens encontradas em situação de exploração sexual foram vítimas de abuso por familiares. "Há casos em que os problemas intra-familiares são determinantes", admite o documento. Especialistas alertam, no entanto, que isso não é uma regra. "A comunidade tende a olhar a criança abusada com outros olhos. Ela condena a agressão mas, ao mesmo tempo, estigmatiza a vítima, excluindo-a do seu convívio. A criança é vitimizada duplamente", completa Isabel.

MARCAS - A família, de uma forma geral, ainda não tem entendimento dos danos que a violência sexual provoca nas crianças. Ela só acredita que houve abuso quando ocorre o estupro e sangramento genital. Esse tipo de agressão pode ocasionar lesões graves, como vaginas rasgadas e úteros perfurados, e também disseminar infecções sexuais e doenças sexualmente transmissíveis (DSTs), entre outras seqüelas físicas. "Muitos casos de doenças venéreas e Aids têm relação estreita com o abuso sexual, como também a questão da gravidez por estupro", salienta a oficial de projetos na área de Sobrevivência e Desenvolvimento Infantil e Controle de HIV da Unicef, Jane Santos. (Áudio)

* O nome foi trocado para preservar o anonimato

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