O desenho ao lado, produzido por uma criança de cinco anos que, provavelmente, viu sua irmã mais velha sendo abusada sexualmente pelo próprio pai no sofá de casa, revela em seus detalhes as marcas da violência que permaneceram presentes em sua lembrança, mesmo passados alguns anos do ocorrido. Medo, ansiedade e agressividade são apenas alguns dos sentimentos expressos em tinta colorida no papel, mas que já fazem parte do cotidiano desta família há muito tempo.
Os irmãos fazem parte do Projeto do Atendimento a Vítimas de Violência Doméstica e Sexual do Centro Dom Hélder Câmara de Estudos e Ação Social (Cendhec), localizado no bairro da Madalena, no Recife, onde 420 famílias recebem apoio psicossocial e jurídico. De acordo com a psicóloga Isabel Ribeiro, técnicas de ludoterapia são usadas para minimizar os efeitos do trauma nas crianças atendidas. "A utilização de recursos como brinquedos, pintura e desenho é feita de uma forma que a criança possa se expressar da maneira dela e isso nem sempre é com palavras", explica.
Especialistas na área garantem que as brincadeiras revelam muitos elementos da violência sexual, principalmente quando as vítimas são muito pequenas e a expressão verbal ainda não é tão desenvolvida. Bonecos sexualizados, que têm genitais, seios e roupas íntimas, como calcinha, sutiã e cueca, além de objetos que reconstituem o ambiente familiar, com os membros da família (menino, menina, pai, mãe, avô, etc) e as partes de uma casa, auxiliam os profissionais a obter informações das vítimas de abuso. "A criança tem necessidade de dizer o que aconteceu, mas não sabe como fazer, então ela joga tudo ali na brincadeira. Depois, o psicólogo monta o quebra-cabeça", diz Isabel.
Ela lembra de um caso recente que mexeu com toda a equipe técnica da ONG. Duas irmãs, uma de dois anos e outra de três, tiveram rompimento do hímen provocado pelo próprio genitor. "A de dois anos chegava no atendimento psicológico e não verbalizava nada; simplesmente ia na estante pegava o bonequinho de cor mais escura, tirava a calcinha de outra boneca e começava a machucar a boneca tanto na frente como atrás. E, a de três anos, muito inteligente, perguntava: eu posso fazer isso que meu pai fez com minha irmã? Porque eu tô fazendo...", relata. A possibilidade de repetição do ato de violência é outra conseqüência grave do abuso sexual. (Áudio)
* O nome foi trocado para preservar o anonimato
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2008 , JC OnLine - Recife - PE - Brasil - Publicado em 14.05.08 - EXPEDIENTE