sinais

Atenção às mudanças
de comportamento

Surpresa, culpa e impotência diante da descoberta de que a criança foi abusada. Esses foram sentimentos comuns em praticamente todos os relatos de familiares que viveram o drama da violência sexual em seus lares entrevistados neste especial. A maioria se sentiu despreparada para lidar com o problema e, o que é pior, demorou anos para identificar os sinais da agressão. "Minha filha de 3 anos não dormia direito e chorava por qualquer motivo, principalmente quando ficava perto de um amigo do meu filho mais velho", relembra a bancária Márcia Lemos*, moradora do Recife. Apesar de todos os indícios, Márcia custou a aceitar a verdade. "Quando penso que poderia ter agido há mais tempo e livrado a minha filha desse trauma, não me perdôo."

Mudanças bruscas de comportamento, de apetite ou no sono podem servir de indicadores de que alguma coisa está acontecendo de errado. Ainda mais se a criança demonstrar inquietação quando é deixada só ou quando fica perto de alguém em específico. Outros indícios como queda do rendimento escolar, dificuldade de urinar ou andar e dores abdominais também devem ser levados em consideração. "Isso não significa dizer que, se a criança apresentar um desses sinais, esteja sendo vítima de abuso sexual, mas eles servem como alerta para os pais investigarem o que está acontecendo", explica a psicóloga do Centro Dom Hélder Câmara de Estudos e Ação Social (Cendhec) Isabel Ribeiro.

como identificar
  • Inquietação, tristeza profunda, isolamento;
  • Sexualidade precoce nas crianças menores e exacerbada nas maiores;
  • Resistência para realizar exames médicos;
  • Fugas constantes e resistências para voltar para casa;
  • Rebeldia/agressividade;
  • Mudanças repentinas de comportamento;
  • Choro freqüente;
  • Hábito de urinar na cama;
  • Problema de sono (pesadelos, insônia);
  • Sentimento profundo de insegurança, medo, culpa etc.
Fonte: Cartilha A Família Esperta/ Instituto WCF Brasil e Cendhec
COMO E QUANDO FALAR COM AS CRIANÇAS
  • Entre 18 meses e 3 anos, ensine a ele ou ela o nome das partes do corpo.
  • Entre 3 e 5 anos, converse sobre as partes privadas do corpo. Diferencie o que é "o bom toque e o mal toque".
  • Após os 5 anos, a criança deve ser orientada sobre sua segurança pessoal e as principais situações de risco.
  • Após os 8 anos, fale sobre as regras de conduta sexual que são aceitas pela família e fatos da reprodução humana.
Fonte: Child Sexual Abuse / American Academy of Pediatrics
O QUE FAZER EM CASOS DE ABUSO
  • Incentive a criança a falar livremente o que se passou, sem externar comentários de juízo;
  • Demonstre que está compreendendo a angústia da criança e levando muito a sério o que esta dizendo
  • Assegure à criança que ela fez bem em contar o ocorrido pois, ela pode se sentir culpada por revelar o segredo;
  • Diga enfaticamente à criança que ela não tem culpa pelo abuso sexual;
  • Finalmente, ofereça proteção à criança, e prometa que fará de imediato tudo para que o abuso termine.
Fonte: American Academy of Child and Adolescent Psychiatry

Isabel cita o caso de uma menina de nove anos que, quando voltava das visitas na casa do pai, dizia sempre à família que estava com dor na região genital e muito sonolenta. A mãe tinha suspeitas, mas demorou a perceber a violência, que só foi revelada no atendimento psicológico. "Ela desenhou uma casa vermelha e disse que nela tinha uma pessoa que é muito boa e que, às vezes, é muito ruim; disse que tomava um copo de água e depois ia dormir e, quando acordava, estava com dor aqui embaixo". Só depois foi descoberto que o pai usava medicações controladas para dopar a garota e cometer o abuso. (Áudio)

Estudiosos no tema afirmam que há muita reticência da família em acreditar na reclamação da criança e aceitar que o abuso sexual esteja realmente ocorrendo. "Se a criança está dizendo que foi vítima de abuso, ela geralmente não tem nenhum motivo para estar inventando algo tão grave assim", ressalta a psicóloga Vanessa Verçosa. Ela faz um alerta para os pais das classes médias e alta que acham que esse tipo de violência só acontece com as famílias pobres. "As crianças e adolescentes dos bairros nobres também passam por situações de abuso, mas as famílias tendem a esconder mais", observa.

EDUCAÇÃO SEXUAL - Embora ainda seja difícil e constrangedor para muitos pais, conversar sobre sexualidade com as crianças e adolescentes é uma atitude preventiva fundamental para evitar ou, pelo menos, dificultar a ocorrência de abusos. Especialistas dizem que o segredo é repassar as informações de forma tão natural quanto outras regras de conduta, como não falar palavrão ou negar presentes de estranhos. "O importante é que essas orientações sejam passadas durante as conversas do dia-a-dia, ensinando a criança a gostar de seu corpo e aprender a respeitá-lo", ensina a sexóloga Marina Holmes. Segundo ela, medidas para prevenir a violência sexual e proteger a criança devem ser aplicadas precocemente, uma vez que o abuso sexual poder ocorrer desde os primeiros anos. "E, antes que alguém questione, falar sobre sexo não implica em estimular a sexualidade", garante.

Holmes dá algumas dicas aos pais. As crianças, de acordo com ela, devem ser orientadas a perceber más intenções mesmo em relação a pessoas. As partes íntimas do corpo devem ser valorizadas. Vale colocar apelidos carinhosos. "Diga ao seu filho para se afastar de qualquer um que tente tocar seu corpo em segredo. E, caso isso ocorra, incentive-o a dizer para algum adulto o que aconteceu", explica. A Associação Brasileira Multiprofissional de Proteção à Infância e à Adolescência (Abrapia) também lembra algumas regras básicas de cuidados, como saber onde e com quem a criança está brincando e conhecer os amigos dela, inclusive os da internet. O diálogo e o carinho também não podem faltar.

* O nome foi trocado para preservar o anonimato

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