
Livros, lápis de cor, cadernos, atitudes. Entre o bê-a-bá e contas de matemática, o tema adoção chega a salas de aula do Grande Recife. Pioneiro no Brasil, o projeto Adoção na Escola começou no final do ano passado em sete instituições de ensino, visando trazer o assunto para discussão entre professores, alunos e famílias. "Desde muito cedo a criança tem que aprender que ela também é responsável e tem compromisso com aquela que não tem família", observa Susana Schettini, presidente do Grupo de Estudo e Apoio à Adoção (Gead-Recife), organização não-governamental responsável pelo programa.
O projeto pretende ser abrangente, com a ideia ampliada da adoção. "Trabalhamos no sentido de adotar causas sociais, causas ambientais, adotar o outro, adotar um amigo, para desenvolver valores humanos como respeito, solidariedade e amor", afirma a psicóloga Eneri Albuquerque, vice-presidente do Gead-Recife. Para ela, que também é mãe adotiva, quanto mais cedo for debatido o conceito integral de adoção mais garantias haverá, a médio e longo prazos, de uma sociedade mais justa. "As pessoas vão ser menos preconceituosas", acredita.
Essa ampliação conceitual, na verdade, é mais um caminho para chegar ao sentido mais simples da palavra, acredita Susana Schettini. "A família adotiva, cujos filhos estão inseridos numa escola que trabalha desde muito cedo esse novo conceito, irá ter mais facilidade de lidar com questões em relação à criação adotiva". Eneri Albuquerque espera que o projeto diminua a quantidade de crianças em abrigos. "Quando se trabalha com as famílias, principalmente as pretendentes à adoção, elas vão estar mais abertas para adotarem essas crianças e adolescentes".
O programa começa com a sensibilização dos gestores das escolas para a inclusão do tema no Projeto Político Pedagógico (PPP) da unidade de ensino. Em seguida, uma equipe do Gead realiza a capacitação dos professores e coordenadores da escola para esse novo conceito de adoção. Em seguida, a escola deverá organizar ciclo de palestras com os responsáveis pelos estudantes para tratar dos vários matizes da adoção. Junto aos alunos, devem ser realizados concurso de redação, visitas a abrigos e Juizados, análise do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), leitura de livros paradidáticos, realização da Semana da Adoção, com exposição de filmes e poesias.
O Colégio Apoio, em Casa Amarela, Zona Norte do Recife, é uma das instituições que abraçou a causa. De acordo com Rejane Maia, uma das diretoras pedagógicas do colégio, as escolas precisam trabalhar atitudes adotivas junto ao ser humano diferente, às minorias, às questões ambientais e sociais. A diretora pedagógica do Colégio Visão, na Estância, na Zona Oeste, pensa igual: "Se cada um adota uma causa, se envolve com a sociedade como um todo". Também receberam a capacitação do Gead, os colégios Construindo (Tamarineira), Desenvolver (Espinheiro) e Carochinhas (Casa Forte), no Recife; Santa Gertrudes (Cidade Alta), em Olinda; e Paulo de Paiva (Candeias), em Jaboatão dos Guararapes.
A estudante Maria Eduarda Vidal, de 12 anos, é a prova de que essa mudança de atitude disseminada desde a infância surte efeito positivo. "Adoção é adicionar algo ou alguém na sua vida, é incluir. Adotar ideias... A sociedade antigamente discriminava muito as pessoas diferentes, mas elas devem ser tratadas igualmente às pessoas normais", diz a aluna da 6ª série do Apoio. A coordenadora da garota, Sandra Dias, no entanto, afirma que o desconhecimento sobre a extensão do tema ainda é grande. "Muitos alunos não querem chamar os pais para as palestras sobre adoção porque pensam que a gente está querendo que os pais deles adotem um filho", observou.