Especial A Viagem de Joanda
Especial A Viagem de Joanda

Diário de Bordo

A difícil missão de traduzir a dor e o desamparo

Inês Calado

Inês Calado e Gustavo Belarmino, autores desta reportagem, com Joanda (centro)

Todos os dias, quando saio da redação, no caminho de volta para casa, passo por vários ônibus estacionados próximo ao Hospital Oswaldo Cruz. Confesso que nunca reparei em seus destinos. Hoje, depois de vivenciar o drama das pessoas que vêm todos os dias para o Recife em busca da saúde, é inevitável não olhar e imaginar quem estará ali. A dor de crianças de colo, velhos, homens e mulheres, que deixam o aconchego de suas casas e vêm para um ambiente completamente adverso. Quando Gustavo, companheiro de muitas outras viagens, apresentou a ideia de fazer um especial contando a sina dessas pessoas, não tinha noção do que iria encontrar. Não imaginava também que seria tão difícil "arrancar" dados do governo. Fiquei estarrecida com a informação de que a Secretaria Estadual de Saúde não sabe, por exemplo, quantos pacientes são mandados, anualmente, para o Recife.

Como não sentir o mau cheiro da casa apertada, pouco iluminada, com camas mal forradas? Como não chorar diante de uma criança de apenas dez anos, mutilada por um câncer de pele, escondida em um quarto da casa? Como não virar o rosto para não ver o sofrimento de um homem de apenas 39 anos que definha por causa de um câncer? Essas foram as sensações que tive quando visitei a casa de dona Helena, curiosamente, bem pertinho do jornal. Também já passei por aquela rua tantas vezes... Lá, acompanhamos o drama de José Erinaldo. Chorei sua morte como se o conhecesse há mais tempo. Na verdade, depois que entramos em sua vida, conhecemos de perto sua dor e foi impossível não sentir sua morte tão precoce.

Não foi difícil eleger a viagem de Joanda como a principal. Uma mulher que, ainda menina, precisou enfrentar idas e vindas para o Recife para tratar de uma doença típica do "pobre do interior", a doença de Chagas. Joanda abriu sua vida sem desconfiança, nos convidou a entrar em sua casa, sem reservas. Uma mulher que não vacilou diante dos problemas que enfrenta. Que enxerga adiante, que ajuda os que estão à sua volta. Simplesmente, Joanda não reclama suas dores; agradece a Deus por tudo o que tem, do jeito que é.

Como todo jornalista, buscamos respostas para um problema que parece não ter solução. Em muitos momentos, os doentes questionaram por que o "neto de Arraes" não olhava para eles. Sim, eles usaram exatamente essa expressão. E como não têm acesso ao governador do Estado, gostaria de tê-los representado, gostaria de ouvir de Eduardo Campos o que poderia ser feito para amenizar tanto sofrimento. Mas ouvi de um assessor que "quem respondia sobre saúde era a Secretaria de Saúde e não o governador". Por buscar informações, ainda fui acusada - levianamente - de fazer campanha para um partido adversário.

Em certo momento, Gustavo falou: É difícil fazer matéria de saúde... E se corrigiu: Na verdade, é difícil fazer matérias de doentes. Completo: matérias de pessoas que, na maioria das vezes, não sabem expressar o que estão sentindo e que, nós, jornalistas, temos a missão de traduzir. Agradeço a cada um por ter confiado a mim e a Gustavo o privilégio de descortinar, aqui, suas histórias.

Todos juntos nesta mesma viagem

Gustavo Belarmino

Quando começamos a fase de apuração deste especial, observando a rotina de quem vem do interior para se tratar na capital, um ditado não saiu da minha cabeça: Deus ajuda a quem cedo madruga. A maior parte das histórias colhidas aqui começa quando ainda está escuro, incerto, inseguro. Em quase dez anos de JC Online, posso dizer, sem sombra de dúvidas, que este foi um dos trabalhos mais áridos e delicados que eu e Inês já fizemos. Tratar dessas viagens é, de certa forma, fazer parte delas. Não dava para conversar com essas pessoas sem se envolver o mínimo possível. Por isso, o acaso nos apresentou a Joanda, escolhida como a veia condutora desta narrativa, aqui representando os dramas de milhares de pacientes que viajam quilômetros em busca do mínimo de atenção.

Seguimos até o município de Canhotinho para conhecê-la de perto. Na bagagem, levamos uma pequena câmera digital - menos invasiva que uma câmera de vídeo -, um gravador, um caderninho de anotações e uma lanterna. Ao chegar lá, toda a rua já estava esperando. "Me perguntaram se eu tinha coragem de trazer vocês até minha casa. Respondi que era neste tapete velhinho que os repórteres da capital iriam pisar", disse Joanda.

Joanda almoçou com a gente, mostrou a cidade, a casa onde mora sozinha. Apresentou as bonecas, a coleção de marcapassos, o sofá onde se abriga do frio. Visitamos com Joanda o centro onde ela pega a sopa, doação que a alimenta quando não está no hospital. Acordamos de madrugada, fomos buscá-la em casa e fizemos o percurso a pé, até a van que nos traria de volta ao Recife, cenário de todas as outras entrevistas, com pacientes, voluntários, governo.

Para nós, jornalistas, cada empreitada como essa é uma lição que vamos levar pro resto da vida. Nunca mais vou passar pelo Centro do Recife sem perceber as casas de apoio, as dezenas de ônibus estacionados ali, embaixo do viaduto do Tacaruna, e os leitos dos hospitais lotados sem lembrar das vidas que vão e vêm. Também não vou esquecer do desagradável cheiro da enfermidade, do olhar envergonhado de crianças desfiguradas, do câncer que mata sem perdão.

Já na redação, era hora de relembrar tudo que apuramos em pouco mais de duas semanas: baixar todo o material, decupar, delimitar as seções, estudar junto com o designer Rodrigo Paixão a melhor forma de contar visualmente esta história. E depois traduzir em textos, fotos e vídeos um pouco desta jornada, que para muitos estará começando agora, enquanto você navega neste especial.

                 
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Sistema Jornal do Commercio de Comunicação - Publicado em 15 de Julho de 2009