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Meninas negras são as mais exploradas As crianças e adolescentes que trabalham no serviço
doméstico têm, em sua grande maioria, o mesmo sexo e cor
da pele. E isso não é coincidência. É herança
da cultura escravagista e patriarcal brasileira, que relegou às
mulheres negras e mestiças as tarefas realizadas no ambiente privado
do lar como a principal - e, em muitos casos, a única - forma de
inserção no mercado de trabalho. Basta fazer um resgate
de filmes, novelas e livros que retratam a época colonial ou até
mesmo os tempos atuais para verificar onde estão e o que fazem
as mulheres negras no Brasil. O longa-metragem Domésticas -
O Filme
O IBGE também confirma essa realidade. Dos 470 mil trabalhadores domésticos infantis que existem no País, 93% são do sexo feminino e 61% são afro-descendentes. Em algumas cidades, como Salvador, quase 94% das meninas domésticas são negras. A pesquisadora e educadora do SOS Corpo Gênero e Cidadania Verônica Ferreira explica que a formação das relações de trabalho no Brasil têm origens seculares. "Foi na exploração da mão-de-obra escrava que as mulheres negras assumiram o papel de doméstica nos casarões e, até hoje, ainda não conseguiram superar esse déficit de exclusão social e pobreza". Até mesmo depois da promulgação da Lei Áurea, foram as ocupações domésticas que garantiram aos negros libertos a integração na sociedade. Excluídos da escola e do mercado de trabalho, eles eram considerados mão-de-obra barata na prestação de serviços que não exigiam qualificação. A divisão da organização familiar
também deve ser levada em consideração quando se
fala em trabalho infantil doméstico, uma vez que existem barreiras
sociais estabelecidas entre o público e o privado, atribuídas
ao sexo masculino e feminino, respectivamente. "Na sociedade brasileira,
cabe ao homem prover a família e à mulher cuidar da casa
e dos filhos. As meninas, ao contrário dos meninos, ajudam desde
cedo a mãe nos afazeres domésticos e, quando são
mais velhas, cuidam dos irmãos mais novos", ressalta a assessora
de Programas da ONG Instituto Papai, Luciana Souza Leão. Para muitas
garotas de origem pobre, a iniciação nos trabalhos domésticos
dentro do seu lar é um pontapé para o serviço na
casa de terceiros. Valdete*, 13 anos, já ajudava a mãe a
arrumar a casa e cuidar dos três irmãos quando foi chamada
por um tio para dar uma "forcinha" à esposa que tinha
acabado de ter um filho. "Além de cuidar do bebê, eu
fazia tudo por lá: lavava, passava...", conta. No caso de Francisco*, 14, foi diferente. Ele foi chamado
pela patroa da mãe, que também é doméstica,
para trabalhar na sua residência, em Casa Forte, bairro nobre do
Recife, fazendo serviços gerais ou "quebra-galho", como
ele mesmo define as atividades que realizava. "Eu cuidava do jardim,
lavava o carro, dava banho nos cachorros, pagava contas e, quando necessário,
virava eletricista e encanador", enumera. Francisco representa a
participação do sexo masculino, que é minoria, dentro
do universo do trabalho doméstico. "Há uma divisão
nítida de papéis. Enquanto que as meninas trabalham dentro
das casas, os meninos fazem tarefas externas", analisa a coordenadora
do projeto "Do Trabalho Infantil à Participação" do Cendhec, Janaína
Pedrosa.
TAL MÃE, TAL FILHA - Sem condições de conciliar o trabalho doméstico com a escola, muitas meninas acabam por repetir a história de vida das mães, formando um círculo vicioso. "Os anos passam e as filhas de domésticas, pela situação de pobreza que não se altera, enfrentam as mesmas dificuldades da mãe de conseguir um emprego e encontram no trabalho doméstico a possibilidade mais viável de ter algum tipo de renda, com menos exigência de escolaridade. É um processo muito cruel", lamenta a pesquisadora Verônica Ferreira. As desigualdades de gênero e raça se refletem
até mesmo na legislação trabalhista brasileira, na
qual as empregadas domésticas não aparecem com os mesmos
direitos assegurados ao conjunto dos trabalhadores assalariados do País.
De acordo com o Movimento Nacional de Empregadas Domésticas, a
categoria possui 27 direitos a menos e apenas 32% das empregadas têm
carteira assinada. * Os nomes foram trocados para preservar o anonimato das crianças e adolescentes citados na matéria
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