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Tarefas deixam marcas no corpo e na mente

O que resta de disposição para uma menina entre 13 e 15 anos depois de um dia de trabalho doméstico? Essa pergunta foi feita ao fisiologista Cláudio Barnabé, que analisou os gastos calóricos das tarefas cotidianas, como varrer, cozinhar, lavar e passar roupa, entre outras atividades. O resultado retrata a dura realidade de milhares de crianças e adolescentes pelo mundo e explica, em parte, os altos índices de atraso na escola e de evasão escolar, tão comuns a esta parcela da população. Os valores são aproximados, mas mostram que, dificilmente, uma jovem nesta faixa etária conseguirá ter um bom desempenho cognitivo após uma média de 12 horas de trabalho. "É constatada uma condição de fadiga, que gera uma incapacidade funcional de manter a mesma produção de potência ao final do dia ainda que a criança tente estudar à noite. O corpo cansado seguramente assimilará menos conhecimento. Sem falar nos danos físicos", destaca.

Para se ter uma idéia, uma garota como a caruaruense Fernanda*, 14, gasta mais de 1.700 calorias durante a jornada diária de trabalho que realiza na residência dos seus empregadores, no Recife. Ela pega no batente às 6h, quando toda a família ainda está dormindo. Faz o café da manhã; leva as duas crianças para a escola, localizada a 500 metros de distância; varre e passa pano nos cinco cômodos da casa, faz compras, cozinha, e, pelo menos duas vezes por semana, lava e passa as roupas dos quatro moradores. "É como se ela tivesse feito cinco horas ininterruptas de atividades físicas variadas, como surfe, vôlei, patinação, skate e tênis", compara Barnabé. Vale destacar a diferença cruel da ausência de prazer e ludicidade que as tarefas domésticas impõem aos pequenos. "Quando termino tudo, já de noite, não tenho vontade de fazer mais nada. Nem de estudar, nem de brincar, nem mesmo conversar. Só quero saber de dormir", desabafa Fernanda, que mora no local de trabalho há dois anos, desde que deixou o Agreste pernambucano em busca de melhores condições de vida para ela e parentes.

O fisiologista ressalta ainda que as tarefas domésticas podem provocar alguns problemas de saúde, como a Lesão por Esforço Repetitivo (LER) e Distúrbios Osteo-articulares Relacionados ao Trabalho (DORT). As condições inadequadas de trabalho, como ausência de pausas durante o tempo de serviço e falta de equipamentos equiparáveis ao tipo físico de quem os utiliza, são responsáveis por lesões, muitas vezes, irreversíveis. "As crianças e adolescentes que vivem a fase de maturação biológica poderão ter todo o seu sistema músculo-esquelético estimulado de forma errada, contribuindo, assim, para um desarranjo do arcabouço ósseo." Em outras palavras, graves problemas de postura. O manuseio de produtos químicos, como materiais de limpeza, e objetos elétricos e cortantes é outro fator de perigo para as garotas, uma vez que pode ocasionar ferimentos, queimaduras e choques.

Beto Figueirôa/ JC Imagem
Paula acha que vai ser doméstica para sempre e chora quando fala em futuro

As conseqüências para o desenvolvimento psicológico, emocional e social das trabalhadoras infantis domésticas também podem ser traumáticas. Longe dos livros e dos brinquedos, as meninas são submetidas a longas jornadas de trabalho, sem repouso e, muitas vezes, privadas do contato e proteção da família e de amigos. Segundo o pisicólogo do programa "Passagem para a Vida", da ONG Casa de Passagem, Kleuder Costa, o trabalho doméstico realizado por crianças e adolescentes representa uma queima de etapas importantes. "Ao assumir precocemente responsabilidades incompatíveis a sua idade, essas pessoas desenvolvem baixa auto-estima, se isolam da sociedade e tendem a se tornar mais submissas e conformadas. Muitas não têm sequer perspectivas de futuro." Questionada sobre o que gostaria de ser se não fosse doméstica, Paula*, 16, por exemplo, não conseguiu vislumbrar nenhuma outra profissão. "Não sei. Acho que vou ser doméstica para sempre."

Alexandro Auler/ JC Imagem
Para Márcia, domésticas infantis estão mais vulneráveis à violência física e sexual

VIOLÊNCIA - De acordo com a coordenadora da ONG Save The Children - Reino Unido no Recife, Márcia Pregnolatto, as meninas domésticas estão vulneráveis a vários tipos de exploração, mais até do que outros grupos de trabalhadores infantis. "No espaço privado da residência de terceiros, longe dos olhos das autoridades e da sociedade, elas podem ser vítimas de todo tipo de humilhação e violência, inclusive sexual." Márcia, que é assistente social, explica que as pesquisas não conseguiram até agora reunir dados concretos sobre a exploração sexual no trabalho infantil doméstico. "Sabemos que existe através de relatos isolados de algumas meninas, mas a maioria não fala sobre isso para o pesquisador; é muito íntimo."

Casos como o da paraense de 11 anos que trabalhava como babá em Belém e foi espancada e morta pelos seus patrões em novembro de 2005 chamaram a atenção da mídia para a gravidade do assunto . Muitos outros fatos, no entanto, ficam ainda guardados entre quatro paredes, protegidos pela legislação brasileira que garante a inviolabilidade do lar. Algumas meninas entrevistadas pela reportagem quebraram essa barreira e falaram um pouco da rotina de quem trocou a infância pelo trabalho doméstico. Ouça aqui .

* Os nomes foram trocados para preservar o anonimato das crianças e adolescentes citados na matéria

 

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