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Pobreza empurra crianças para o trabalho

Selma* começou a trabalhar como doméstica aos 11 anos em troca de um prato de comida. Marinete* resolveu ajudar a mãe nas faxinas que fazia na casa de outras pessoas depois que o pai as abandonou quando tinha 12. Aos 14, Roberta* seguiu o mesmo caminho para comprar tudo aquilo que sua família não tinha condições de lhe dar, como roupa, sapato, perfume etc. Apesar de terem histórias de vidas diferentes, Selma, Marinete e Roberta, assim como milhares de crianças e adolescentes espalhados pelo mundo, ingressaram no trabalho infantil doméstico por necessidades diversas impostas pela pobreza, que atinge cerca de 54 milhões de brasileiros, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE).

Alexandro Auler/ JC Imagem
Cláudia e Carla começaram a trabalhar como doméstica para ajudar os pais

Para a coordenadora da ONG Save The Children - Reino Unido no Recife, Márcia Pregnolatto, a oferta da mão-de-obra infantil demonstra uma das maneiras que a família empobrecida encontrou para sobreviver. "Quando falta trabalho para os adultos, há uma inversão perversa de papéis, na qual os jovens acabam assumindo, muitas vezes, a função de provedores da família, se sujeitando a baixos salários ou em troca de agrados". Com os pais desempregados e mais cinco irmãos menores em casa, as irmãs Carla* e Cláudia*, 14 e 16 anos, respectivamente, aceitaram convites de vizinhos, no bairro de Campo Grande, Recife, para trabalhar como doméstica e babá de recém-nascidos. "A gente tinha que ajudar nossa família de alguma forma", diz Cláudia conformada. Cada uma recebia em média R$ 60 por mês e, praticamente, todo o dinheiro era entregue aos pais para comprar alimento. "Nem sempre a minha patroa pagava o combinado. Às vezes, eu só recebia R$ 40", revela Carla, que, assim como Cláudia, se atrasou na escola para dar conta do trabalho. Atualmente, elas fazem parte do programa Passagem para a Vida, da ONG Casa de Passagem, pararam de trabalhar e estão cursando a 5ª e 6ª séries. "Sei que é errado. Mas se for necessário trabalhar como doméstica novamente, eu trabalho", revela Carla.

Márcia Mendes/ JC Imagem
Janaína conta que famílias pobres pagam menos às domésticas infantis

O depoimento das irmãs confirma uma mudança recente de perfil do trabalho infantil doméstico em Pernambuco. "Antes era comum a vinda de meninas do interior do Estado para trabalhar na casa de famílias da Capital. Essa migração ainda acontece, mas o que tem se destacado nos últimos anos é a contratação da mão-de-obra infantil por famílias da periferia da Região Metropolitana, que pagam salários ainda mais baixos", diz a coordenadora do projeto "Do Trabalho Infantil à Participação" do Centro Dom Hélder Câmara de Estudos e Ação Social (Cendhec), Janaína Pedrosa. Segundo a publicação "Onde está Kelly? - O trabalho oculto de crianças e adolescentes exploradas nos serviços domésticos na cidade do Recife", lançada pela ONG em 2002, esse tipo de trabalho infantil se prolifera impulsionado, "por um lado, pelas difíceis condições de sobrevivência das famílias das classes mais pobres e, por outro, pelo crescimento da demanda do mercado de trabalho que é alimentado por uma classe média também empobrecida."

Carla e Cláudia também engrossam as estatísticas de rendimento e evasão escolar. Para o coordenador do escritório do Fundo das Nações Unidas para a Infância e a Juventude (Unicef) no Recife, Fábio Morais, trabalhar durante essa fase tira de meninos e meninas a oportunidade de receber uma formação de qualidade e melhorar de vida. "Assim, é perpetuado o ciclo de pobreza", analisa Fábio. Segundo a pesquisa do Pnad 2003, quanto mais cedo uma pessoa começa a trabalhar, menor será, em média, sua renda por toda a vida.

Chico Porto/ JC Imagem
Para Fábio Morais, o trabalho tira da criança a escola e a chance de melhorar de vida

PARADIGMAS - "É melhor a criança trabalhar do que ficar na rua ou roubar". Frases desta natureza, ditas e repetidas por vários membros da sociedade, impõem aos pobres o trabalho como a única forma possível de superação da exclusão social e são responsáveis pela "naturalização" e aceitação do trabalho infantil. No caso do serviço doméstico, existe um agravante. O trabalho é mascarado como um benefício. "Quando chamei Selma para trabalhar na minha casa, queria alguém que me ajudasse e que eu pudesse ajudar também. Ela passava fome antes e agora aumentou quase 10 quilos", destaca uma costureira que preferiu não se identificar. De acordo com a secretária executiva do Fórum Nacional de Erradicação do Trabalho Infantil, Isa Maria de Oliveira, não são apenas os empregadores que possuem essa visão. "Na própria casa da criança, o trabalho doméstico não é visto como trabalho, mas como uma ajuda, uma oportunidade de viver em um lar mais confortável; dificultando ainda mais o seu combate."

Bem antes de conhecer seus direitos e virar presidente do Sindicato das Trabalhadoras Domésticas da Área Metropolitana do Recife, Eunice do Monte também chegou a pensar, durante a adolescência, que era melhor viver na casa da patroa do que na da sua família, no bairro do Brejo, Zona Norte do Recife. "Quando ia visitar minha mãe nas férias, estranhava a cama, o banheiro, a comida. Tudo parecia melhor onde eu trabalhava, era onde me sentia em casa. Um engano, pois nada lá era meu", conta. A pesquisadora e educadora do SOS Corpo Gênero e Cidadania Verônica Ferreira ressalta que as relações de trabalho no âmbito privado do lar se confundem com relações pessoais de "apadrinhamento". "Por trás do discurso de ajudar, existe uma realidade de exploração velada. Não podemos nos esquecer de que alguém está se beneficiando do trabalho realizado por aquela criança. É necessário desconstruir de uma vez por todas essa idéia de que os direitos são favores prestados."

* Os nomes foram trocados para preservar o anonimato das crianças e adolescentes citados na matéria

 

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