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Pobreza empurra crianças para o trabalho Selma* começou a trabalhar como doméstica aos 11 anos em troca de um prato de comida. Marinete* resolveu ajudar a mãe nas faxinas que fazia na casa de outras pessoas depois que o pai as abandonou quando tinha 12. Aos 14, Roberta* seguiu o mesmo caminho para comprar tudo aquilo que sua família não tinha condições de lhe dar, como roupa, sapato, perfume etc. Apesar de terem histórias de vidas diferentes, Selma, Marinete e Roberta, assim como milhares de crianças e adolescentes espalhados pelo mundo, ingressaram no trabalho infantil doméstico por necessidades diversas impostas pela pobreza, que atinge cerca de 54 milhões de brasileiros, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE).
Para a coordenadora
da ONG Save The Children - Reino Unido no Recife, Márcia
Pregnolatto, a oferta da mão-de-obra infantil demonstra uma das
maneiras que a família empobrecida encontrou para sobreviver. "Quando
falta trabalho para os adultos, há uma inversão perversa
de papéis, na qual os jovens acabam assumindo, muitas vezes, a
função de provedores da família, se sujeitando a
baixos salários ou em troca de agrados".
O depoimento
das irmãs confirma uma mudança recente de perfil do trabalho
infantil doméstico em Pernambuco. "Antes era comum a vinda
de meninas do interior do Estado para trabalhar na casa de famílias
da Capital. Essa migração ainda acontece, mas o que tem
se destacado nos últimos anos é a contratação
da mão-de-obra infantil por famílias da periferia da Região
Metropolitana, que pagam salários ainda mais baixos", diz
a coordenadora do projeto "Do Trabalho Infantil à Participação"
do Centro Dom Hélder Câmara de Estudos e Ação
Social (Cendhec), Janaína Pedrosa. Carla e Cláudia
também engrossam as estatísticas de rendimento e evasão
escolar. Para o coordenador do escritório do Fundo das Nações
Unidas para a Infância e a Juventude (Unicef) no Recife, Fábio
Morais, trabalhar durante essa fase tira de meninos e meninas a oportunidade
de receber uma formação de qualidade e melhorar de vida.
"Assim, é perpetuado o ciclo de pobreza", analisa Fábio.
Segundo a pesquisa do Pnad 2003, quanto mais cedo uma pessoa começa
a trabalhar, menor será, em média, sua renda por toda a
vida.
PARADIGMAS - "É melhor a criança trabalhar do que ficar na rua ou roubar". Frases desta natureza, ditas e repetidas por vários membros da sociedade, impõem aos pobres o trabalho como a única forma possível de superação da exclusão social e são responsáveis pela "naturalização" e aceitação do trabalho infantil. No caso do serviço doméstico, existe um agravante. O trabalho é mascarado como um benefício. "Quando chamei Selma para trabalhar na minha casa, queria alguém que me ajudasse e que eu pudesse ajudar também. Ela passava fome antes e agora aumentou quase 10 quilos", destaca uma costureira que preferiu não se identificar. De acordo com a secretária executiva do Fórum Nacional de Erradicação do Trabalho Infantil, Isa Maria de Oliveira, não são apenas os empregadores que possuem essa visão. "Na própria casa da criança, o trabalho doméstico não é visto como trabalho, mas como uma ajuda, uma oportunidade de viver em um lar mais confortável; dificultando ainda mais o seu combate." Bem antes
de conhecer seus direitos e virar presidente do Sindicato das Trabalhadoras
Domésticas da Área Metropolitana do Recife, Eunice do Monte
também chegou a pensar, durante a adolescência, que era melhor
viver na casa da patroa do que na da sua família, no bairro do
Brejo, Zona Norte do Recife. "Quando
ia visitar minha mãe nas férias, estranhava a cama, o banheiro,
a comida. Tudo parecia melhor onde eu trabalhava, era onde me sentia em
casa. Um engano, pois nada lá era meu", conta. * Os nomes foram trocados para preservar o anonimato das crianças e adolescentes citados na matéria
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