O nome já diz tudo: América. E a alcunha O Primeiro Vingador completa o recado no filme que estreia nesta sexta (22), com Chris Evans (Quarteto Fantástico) no papel principal e direção de Joe Johnston (Jurassic Park III e O Lobisomen) . O Capitão América não surgiu com outro motivo que não fosse reforçar a supremacia do bloco ocidental sobre o Eixo, aliança da Alemanha Nazista, Itália Fascista e o Japão. O ano era 1941, cujos últimos dias testemunhariam a entrada dos Estados Unidos, até então meros espectadores, na II Guerra Mundial. Ao chegar às bancas em março daquele mesmo ano, portanto nove meses antes do ataque a Pearl Harbor - marco inicial dos americanos no conflito -, o novo super-herói da Marvel Comics já conclamava seus compatriotas à batalha. A capa da revista em quadrinhos trazia o personagem dando um soco na cara do ditador alemão, Adolf Hitler.
A roupa era uma adaptação da bandeira norte-americana, cujas cores também estavam presentes no escudo. Este, arma de defesa e ataque ao mesmo tempo. O super vilão, como todo super-herói que se preze ele também precisava de um, era um agente nazista. Chamaram-no de Caveira Vermelha.
Nas páginas, quando não o citado Caveira e seus comparsas sob a isígnia da suástica, os antagonistas eram sempre de olhos puxados, dentes da frente proeminentes e de baixa estatura (japoneses). Numa época em que a maioria da população americana ainda defendia a neutralidade não havia melhor alegoria para criar um clima de eles-querem-nos-destruir-precisamos-reagir.
O Capitão América apenas previu o clima que pairava no ar. Quando os EUA partiram para os campos de batalha, as histórias do mascarado azul ganharam enorme popularidade. Na esteira dele, outros personagens também ganharam espaço, sempre lutando contra os mesmos "inimigos": Namor, O Príncipe Submarino e o Tocha Humana, futuro integrante do Quarteto Fantástico. Quem tinha inimigo chinês, como o Flash Gordon, foi trocado por japonês.
Até aí, tudo normal se procurarmos entender o contexto do surgimento do Capitão América e os demais heróis como mecanismo de defesa. Criar ícones para propagar um sistema de governo, um plano econômico sempre esteve no cardápio de quem detém o poder. Basta ver o que o próprio Hitler fizera nos Jogos Olímpicos de 1936, em Berlim, quando usou o esporte para defender a supremacia da raça ariana. Mesmo artifício do qual Mussolini lançou mão dois anos antes, na Copa do Mundo de Futebol.
No caso do Capitão América há questões mais profundas. Jack Kirby, co-fundador do personagem (junto com Joe Simon), era um judeu que fugira para os EUA por conta das perseguições na Europa. Seu nome de batismo era Jacob Kurtzberg. Portanto, havia mais de um (bom) motivo para uma figura tão flagrantemente anti-nazismo e seus asseclas.
GÊNESE - A ironia mora na figura do herói e seu nascimento. Sem a máscara, ele se chama Steve Rogers, um pós-adolescente de físico mirrado e uma obstinação inversamente proporcional ao seu corpo em se tornar soldado e defender sua nação na Segunda Guerra. Depois de diversas tentativas de alistamento, todas um retumbante fracasso, o Exército Americano o convoca para participar de um experimento: o Projeto Supersoldado.
Ele consistia numa espécie de soro, que daria ao voluntário força, agilidade, velocidade e reflexos descomunais. A intenção era criar um verdadeiro exército de gigantes. Rogers aceitou e a experiência deu certo. Porém, como a substância foi roubada e seu criador assassinado antes de registrá-la ele ficou como único representante da "categoria". Para lutar, foi-lhe dado um escudo de Vibranium, um metal capaz de suportar qualquer tipo de impacto. Também ganhou um parceiro, Bucky Barnes, algo como um Robin - fiel escudeiro do Batman.
Intencional ou não, a metamorfose do Rogers magricelo numa montanha de músculos pode ser interpretada como uma espécie de eugenia - transformações genéticas para criar espécies mais saudáveis - prática amplamente utilizada pelo regime nazista e que, curiosamente, foi aprendida com cientistas norte-americanos. Ao lançar mão de uma substância para aumentar a força, também encontramos eco no que faziam os partidários no nacional-socialismo alemão quando aumentavam sinteticamente os níveis de testosterona de seus soldados para aumentar-lhes não apenas a força, mas torná-los mais irascíveis.
A própria figura do Rogers/Capitão América encaixa-se perfeitamente no ideal cunhado pelos inimigos que ele enfrentaria nos quadrinhos: alto, forte, cabelos loiros e olhos azuis, o típico ariano.
Ao contrário, o inimigo número um do Sentinela da Liberdade, não apresentava traços típicos dos nazistas da época. A ligação era apenas afetiva. Johann Schmidt, era um órfão delinquente que trabalhava num hotel onde Hitler se hospedou. Travaram amizade e o Führer ofereceu-lhe treinamento. Ao final, deu-lhe uma máscara vermelha em formato de crânio. Porém, os partidários do regime não tinham por hábito esconder o rosto. Procuravam sempre apresentá-lo, de preferência em expressões de felicidade.
DECLÍNIO - Após o fim do conflito mundial, o interesse pelo Capitão América decresceu. Ele só voltaria aos holofotes na década de 1960 como líder dos Vingadores. Foram acrescentadas diversas identidades ao herói, inclusive uma anterior a Steve Rogers: o soldado negros Isaiah Bradley.
Ainda antes de terminar a II Guerra, Rogers desapareceu. Permaneceria preso a uma geleira em estado de animação suspensa até ser libertado - sem querer - por Namor. Enquanto Steve estava fora, o agente William Naslund assumiu o uniforme. Porém, morreu ao salvar um político ainda desconhecido, chamado John Fitzgerald Kennedy.
Jeff Mace passou a envergar as cores do Mascarado até se aposentar. Depois, um professor descobriu por acaso a fórmula do soro, injetou em si mesmo e assumiu o personagem. No todo foram quatro homens que deram vida ao herói, quando a história As Quatro Encarnações do Capitão América pôs ordem na casa.
Ainda surgiriam mais dois. John Walker - nada a ver com o famoso uísque - e Rogers, com uma roupa preta, duplicaram a identidade. Em 2007, Steve Rogers pereceu a caminho de seu julgamento após os eventos da saga Guerra Civil. A história opôs o herói contra o seu então aliado, Homem de Ferro contra o registro de super-humanos. Daí surgiu a mini-série Capitão América: Morre Uma Lenda. A história é contada por várias figuras do universo Marvel, como Wolverine, Homem Aranha, Tony Stark (alter-ego do Homem de Ferro), Demolidor e outros.
No mesmo ano, o Supersoldado voltaria à ativa com o velho parceiro Bucky Barnes vestindo o manto azul, branco e vermelho. Como mortes e ressurreições são um prato cheio para vender quadrinhos, o velho Rogers retorna na série Reborn (Capitão América: Renascimento, no Brasil).
