
Aprovada em um concurso de perita judicial, estudante de artes gráficas em uma universidade de Barcelona, fluente em espanhol, catalão, português, inglês, francês e italiano. Esther Tapia Llorente, 36 anos, tinha todas as ferramentas para ter uma carreira brilhante e sem atropelos. Um detalhe, porém, não estava no script de sua caminhada e mudou o rumo de uma vida fadada ao sucesso. Em 2009, a Espanha foi sacudida pela crise econômica internacional. O Produto Interno Bruto (PIB) da oitava economia do mundo caiu 3,6%, provocando impactos sobre o mercado de trabalho e atingindo cerca de 4,6 milhões de pessoas. Esther estava entre elas. Trabalhando como contato publicitário junto a imobiliárias, viu as empresas cortarem gastos com propaganda. Dos € 10 mil que conseguia tirar por mês, passou a ganhar apenas € 600. Com três filhos e compromissos para honrar, precisou se virar com bicos esporádicos. Vendeu livros, trabalhou como garçonete. O desespero batendo à porta, fez o impensável
Hoje, a espanhola integra uma triste estatística. Trabalhadoras, mães de famílias, donas de casa. Mulheres recrutadas para o tráfico internacional de entorpecentes que acabaram presas no Brasil. Em todo o País, são 587 que se encontram na cadeia, segundo aponta o Sistema Integrado de Informações Penitenciárias (InfoPen), do Departamento Penitenciário Nacional, órgão vinculado ao Ministério da Justiça (MJ). Em Pernambuco são 94. Nove delas estrangeiras.
No Estado, as forasteiras estão encarceradas nas Colônias Penais Femininas do Recife e de Abreu e Lima, na Região Metropolitana. Em suas fichas, um fato comum. Todas foram detidas tentando embarcar para a Europa com cocaína. Se entre os homens estrangeiros presos em Pernambuco, o índice de narcotraficantes alcança apenas 56,7%, chega aos 100% das mulheres. A catalã foi mais uma, detida em 5 de agosto de 2009 no Aeroporto Internacional do Recife, com 6,3 quilos do pó, que seriam distribuídos em Barcelona. Seu país natal é o maior mercado consumidor de cocaína da Europa, segundo o Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC). De acordo com o último relatório da organização, a Espanha é também a primeira nação europeia e oitava do mundo em quantidade de cocaína apreendida – cerca de 28 toneladas.
Quase um ano e meio depois, a ibérica de olhos verdes, cabelos longos, louros e riso fácil, ainda tenta se acostumar com a vida atrás das grades. Ao olhar para o passado, diz que cometeu a maior estupidez de sua vida. “Iria assumir meu cargo como perita em janeiro de 2010, mas a situação ficou crítica. Não tinha mais de onde tirar dinheiro. Conheci algumas pessoas pela internet, que me propuseram buscar uma mala com documentos no Brasil para trazer até Barcelona. Disseram que não podia abri-la, pois eram papéis de contabilidade confidenciais. Fui ingênua, mas aceitei porque quis. O erro foi meu”, reconhece ela, detida em Abreu e Lima.
De Calafell, pequeno município da província de Tarragona, nas proximidades de Barcelona, a irmã, Ana Tapia Llorente, 28, diz acreditar na inocência de Esther. “Ela era uma pessoa que tinha trabalho, filhos e um futuro brilhante. Era uma irmã exemplar e ótima companheira. Acredito quando fala que foi enganada”, pondera, por telefone. Ana conta que o filho menor de Esther, de apenas 6 anos, sempre pergunta por ela. “Ele chora muito, pois não sabe por onde anda a mãe”, conta. Além do pequeno Izhan, a presidiária é mãe de Alejandro, 17, e Aldana, 14. “É muito triste ver minha sobrinha nesta situação. Ela está em uma idade em que precisa dos conselhos de mãe”, acrescenta Ana.
O mais velho não fala com Esther. Quando soube, através da internet, que a mãe havia se tornado traficante internacional de droga, Alejandro resolveu silenciar. Desde então, não se comunicou. “É uma dor terrível que preciso carregar comigo. No fundo, acredito que irei recuperar o amor do meu filho, mas isso é algo que só o tempo irá dizer”, pondera Esther. Alejandro e Aldana são filhos do mesmo pai, enquanto Izhan foi concebido em outro relacionamento. Os três vivem com os pais, dois argentinos que residem na Espanha.
TRANSFERÊNCIA
A única solução para aplacar a dor da família, segundo Ana Tapia, seria trazer a irmã de volta à Catalunha. “Gostaria que, pelo menos, ela pudesse cumprir a pena em Barcelona. Assim poderíamos saber como ela está, o que come, o que veste, o que faz. Seria bom para ela, para os filhos e para todos que a querem bem”, enfatiza. Para que o trâmite seja efetuado, é necessário que exista um acordo firmado entre duas nações. Embora o Brasil possua tratado com a Espanha e outros 16 países, o processo não funciona na prática.
A Organização das Nações Unidas (ONU) tem insistido para que a transferência de prisioneiros estrangeiros para seus países de origem seja regra pelo mundo. A iniciativa tem cunho humanitário e visa aproximar o condenado de sua família e de seu ambiente social. No Brasil, contudo, o processo esbarra na burocracia e na ineficiência.
O próprio Ministério da Justiça reconhece não poder realizar a quantidade ideal de traslados. “O instituto responsável pela expulsão não se mostra suficientemente equipado para satisfazer a consciência dos direitos humanos, mesmo nos casos onde existe tratado”, admite a diretora do Departamento de Estrangeiros do Ministério da Justiça, Izaura Maria Soares Miranda.
Condenada a cinco anos de reclusão, Esther recorreu e conseguiu reduzir a pena para quatro anos e três meses. Com mais de metade do tempo por cumprir, a catalã tenta esquecer o tempo e vencer as barreiras culturais que encontrou na cadeia. “É muito difícil conversar sobre qualquer tema. Além de elas não entenderem bem o que eu falo, são pessoas que tiveram pouco estudo e oportunidades na vida. Se tento falar sobre qualquer coisa diferente, ficam sem saber do que se trata. Algumas dizem que sou louca. A doida espanhola”, se diverte Esther.
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