| Gerindo Competências
As constantes e profundas transformações ocorridas em mercados
de todo o mundo ao longo das últimas décadas têm desencadeado,
nos mais diversos setores da economia, uma busca cada vez maior por uma
nova forma de organização e operação. Nesse
sentido, a gestão das pessoas que compõem o capital humano
das empresas ganha importância fundamental quanto ao aprimoramento
de seus resultados, especialmente num universo de competitividade crescente.
Para fazer frente aos desafios trazidos pela globalização
e atingir os níveis desejados para cada função da
estrutura empresarial, a gestão por competências se torna
um instrumento imprescindível para produzir benefícios concretos
aos negócios, à medida que permite a identificação
e disseminação das mais diferentes competências.
Esse novo modo de encarar o funcionamento das empresas leva os administradores
a repensarem o papel das pessoas no processo de trabalho, colocando-as
como ativos realmente valiosos. Tal visão contraria a maneira convencional
de gestão dos sistemas de recursos humanos, que considerava cada
indivíduo da empresa como um fator perecível e, de certa
forma, substituível com facilidade. São as pessoas que geram
efetivamente o diferencial competitivo que toda empresa busca em suas
estratégias, sobrepondo-se aos recursos financeiros e tecnológicos
disponíveis.
Por esse conceito de capital humano que as organizações
passam a utilizar, as estratégias gerais das empresas e das áreas
de administração de pessoas devem convergir sempre. Os conhecimentos
e perfis desejados no corpo de profissionais têm que ser identificados
claramente para que as metas de negócios sejam mais facilmente
obtidas. A partir desse ponto, todos os sistemas e diretrizes de administração
de pessoas seguem uma lógica única, que visa a formação
dos profissionais e sua preparação para atender às
demandas de negócios e gerar valor à empresa e aos acionistas.
Esse procedimento de identificar e disseminar competências entre
os profissionais permitirá a criação de uma dinâmica
inserida num círculo virtuoso, que leva, na etapa seguinte, à
retenção de talentos - justamente um dos objetivos que não
vinham sendo plenamente atingidos pelo sistema tradicional de gestão
de recursos humanos - e a uma organização de alta performance.
Entre as características que marcam a forma de administração
do capital humano baseada na gestão de competências, estão:
alta flexibilidade, agilidade, ampla comunicação, eficácia
e eficiência nas operações, equilíbrio entre
resultados e inovação e visão completa do sistema.
Na relação entre as pessoas, o trabalho em equipe suplanta
a rigidez hierárquica.
Os resultados da implantação desse sistema são inúmeros:
desde facilitar o entendimento, a organização e disseminação
dos conhecimentos até incentivar a integração entre
os setores da estrutura, possibilitando a quebra de antigos "feudos",
que atravancam a fluidez operacional das equipes. Além disso, a
gestão de competências se torna um meio de comunicação
das mensagens-chave de atitudes, conhecimentos e habilidades esperadas
de cada membro da equipe, promovendo também total transparência
em relação aos critérios para o desenvolvimento profissional.
A gestão de pessoas por competências integra todos os sistemas
da área de recursos humanos, desde a seleção de profissionais
até os mecanismos de viabilização do capital humano,
passando por fatores como espaços ocupacionais, avaliação
de desempenho, remuneração, treinamento e desenvolvimento.
No processo de recrutamento e seleção, por exemplo, os procedimentos
devem ser norteados a partir das demandas da empresa por novas competências,
as quais definirão o perfil dos profissionais contratados. A partir
de um planejamento estratégico de pessoal é que se determinam
o quadro de funcionários - quantitativa e qualitativamente -, as
ações relativas à gestão de pessoas, as prioridades
dessas ações e o orçamento para a área.
Já na questão dos espaços ocupacionais - termo que
define o cargo ou grupos de cargos numa organização -, a
gestão por competências pressupõe estruturas mais
complexas de relações funcionais, como matrizes, times de
trabalho, processos, estruturas virtuais e outras. No âmbito da
avaliação de desempenho, a gestão por competências
envolve o acompanhamento da performance de cada profissional para gerar,
num segundo momento, elementos importantes para a administração
do capital humano como um todo. É pela avaliação
de desempenho que se definem os investimentos, os bancos de dados de potenciais
talentos e de futuros gestores, as carreiras, os aumentos salariais, as
promoções e os desligamentos.
Na gestão por competências, a base dos salários está
evidentemente na remuneração por competências. Assim,
o salário é determinado pela formação e capacitação
dos profissionais, refletido em competências previamente estabelecidas
pela empresa. Esse sistema é influenciado pela estrutura predominante
na organização: se ela for flexível, a remuneração
deverá definir valores específicos para cada competência
ou conjunto de competências; se ela estiver em transformação,
o sistema será aplicado por meio de faixas amplas de salários,
chamadas de broadbands.
No quesito treinamento e desenvolvimento, a gestão por competências
prevê ações de capacitação que ofereçam
meios de obtenção de proficiência nas diversas tarefas
e na progressão da carreira. Os procedimentos empregados para aumentar
esse nível de proficiência envolvem: experiências práticas,
auto-estudo, treinamentos conceituais e práticos, e-learning, cursos
de mercado, estágios programados e disseminação do
conhecimento de uma forma geral. Embora sigam praticamente todos os meios
conhecidos da gestão de recursos humanos, a principal diferença
do treinamento e desenvolvimento pela gestão de competências
está no fato de terem os seguintes elementos fundamentais: planejamento,
execução, avaliação e gerenciamento.
O último dos sistemas de recursos humanos integrados pela gestão
por competências é justamente o conjunto de ações
e sistemas que apóiam a sua implementação, chamados
de viabilizadores de capital humano. Entre eles, estão aspectos
como infra-estrutura, organização, segurança do trabalho,
saúde ocupacional, relações trabalhistas, ações
de monitoramento e de transformação da cultura e sistemas
de informações. Este último representa o elemento
que mais influencia a gestão por competências, especialmente
graças às soluções de tecnologia da informação
para recursos humanos, que vêm contribuindo sobremaneira para a
sistematização, otimização e agilidade dos
processos.
No conjunto, as ações que propõem uma gestão
por competências revolucionam os tradicionais sistemas de recursos
humanos vigentes no mercado de trabalho, propondo às organizações
de todo o mundo uma nova forma de operar e buscar seus objetivos. Nesse
processo, o ser humano constitui o elemento-chave das corporações,
capaz de integrar e operar, com progressiva proficiência, as competências
mais desafiadoras do ambiente empresarial.
Vicente Picarelli Filho
Sócio da Deloitte
vpicarelli@deloitte.com
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