Fluxo escolar

Ajustar distorção idade-série é desafio para a educação

70% dos alunos do ensino médio de Pernambuco apresentavam defasagem entre a idade e a série que cursavam, segundo o Censo 2006

A defasagem entre a idade e a série que o aluno deveria estar cursando é um dos principais desafios do ensino básico brasileiro e, particularmente, pernambucano. O problema é agravado pela repetência e pelo abandono escolar, situações que os programas Se Liga, Acelera Brasil e Travessia buscam sanar.

Implementados desde 2003 na rede estadual e neste ano na rede municipal do Recife, os programas Se Liga e Acelera Brasil são voltados para os anos iniciais do ensino fundamental. O primeiro busca, em um ano, alfabetizar crianças de 9 a 14 anos que estão com defasagem escolar de dois ou mais anos, enquanto o segundo faz a aceleração dos estudos de crianças e jovens já alfabetizados. Ambos têm metodologia desenvolvida pelo Instituto Ayrton Senna.

Professora da rede municipal há 27 anos, Ana Márcia Medeiros é supervisora do Programa Se Liga em quatro salas de escolas das comunidades pobres do Coque, Alto do Pascoal e Alto Jardim Progresso, no Recife. Entusiasmada, ela defende a ação inclusiva do programa. "Imagine um menino de 4ª série sem saber ler! Ele fica excluído porque não consegue acompanhar a turma. Agora imagine o que é tirar esse menino da sala e levar para uma outra onde ele vai aprender a ler. E depois ele voltar para o ensino regular com leitura!".

As crianças são encaminhadas para essas salas especiais após um diagnóstico realizado pela direção da escola e aquelas com dois ou mais anos de distorção e que não sabem ler são deslocadas para o Se Liga. "O ideal é que a criança saia do Se Liga e vá para o Acelera Brasil", afirma a gerente-geral de correção de fluxo da Secretaria de Educação do Estado (Seduc), Ana Selva.

No final dos programas, o aluno é avaliado para saber até qual série ele conseguiu consolidar os conhecimentos. Entretanto nem todas as escolas possuem os dois programas, já que são necessárias salas de aula adequadas e professores capacitados. Nesse caso, o aluno do Se Liga retorna ao ensino regular. "Já alfabetizados, deram um grande passo no processo de aprendizagem", garante Ana Selva.


        Karina Nascimento é professora do Se Liga no Recife


Para Karina Nascimento, o desafio é ensinar alunos com níveis de ciclos diferentes. Nesses programas, o atendimento é diferenciado, conta Karina Nascimento, professora Se Liga da Escola Municipal Renato Accioly, no Alto Jardim Progresso. "Os alunos fazem a atividade e depois têm que ler para não serem apenas copistas", revela. Para ela, o maior desafio é ensinar, numa mesma sala, a várias faixas etárias de alunos e com níveis de ciclos diferentes.

A escola Renato Accioly começou com o programa este ano, mas já colhe alguns frutos. "Existem alunos que chegaram sem reconhecer as letras e já estão começando a soletrar as palavras", conta Karina. A estudante Ianca da Silva Feliciano, 11 anos, é um exemplo dessa evolução. A garota, que estava na 3ª série e não sabia ler, hoje, no Se Liga, já arrisca a ler frases curtas de livros infantis. Para ela, saber ler é o primeiro passo para a realização do seu sonho: ser médica pediatra.

TRAVESSIA - Com mais da metade dos quase 400 mil alunos apresentando distorção idade-série, Pernambuco precisou atuar mais fortemente na correção do fluxo do ensino médio. E, para isso, implantou o programa Travessia em 2007. Com duração de 18 meses e organização curricular diferenciada, o programa trabalha por módulos e certifica o aluno com o ensino médio.

O programa registra 90% de aprovação dos alunos, garante a gerente-geral de correção de fluxo da Secretaria de Educação do Estado (Seduc), Ana Selva.

"Queremos que pernambucanos ocupem lugar de destaque em todas essas empresas que estão se instalando em Pernambuco", afirma a gerente em alusão ao Complexo Industrial de Suape, que hoje contabiliza 96 empresas.

Uma novidade para este ano é a implementação do Travessia nos anos finais do ensino fundamental. Participarão alunos a partir de 15 anos com distorção idade-série de dois anos ou mais e que não conluíram da 5ª à 8ª série.

As aulas terão duração de 19 meses e metodologia de tele-salas, desenvolvida pela Fundação Roberto Marinho, os recursos para o programa - aproximadamente R$ 156 milhões para quatro anos - são provenientes do Banco Mundial.

Números em 2009

Programas Alunos Professores Escolas Duração Distorção

Se Liga

18.500 2.768 805 1 ano Alunos de 9 a 14 anos com dois ou mais anos de distorção e que não sabem ler

Acelera

9.500 2.768 458 1 ano Alunos de 9 a 14 anos com dois ou mais anos de distorção e que já saibam ler

Travessia

35.000 1.900 Mais de 600 18 meses Alunos do ensino médio com dois ou mais anos de distorção.