Cultura

Índios recuperam a cidadania


por Inês Calado e Julliana de Melo

Longe da idéia de povo selvagem e primitivo, os índios brasileiros da atualidade podem dar exemplos para a sociedade nacional de como exercer a cidadania. Eles somam mais de 734 mil indivíduos que conhecem seus direitos e os reivindicam com a mesma força e persistência que os mantiveram vivos e atuantes ao longo de 507 anos de opressão. O significado de coletividade para eles vai além da experiência de aldeamento. Cada vez mais organizados, os povos indígenas estão, aos poucos, retomando a terra que originariamente foi deles um dia. A retomada extrapola a conquista de territórios e perpassa questões como cultura, educação, saúde, trabalho e até mesmo inclusão digital. Por mais que sejam diferentes - e eles têm orgulho disso -, os índios lutam, acima de tudo, por respeito e um espaço que é garantido por lei na sociedade brasileira.

Para entender como vivem os índios pernambucanos - ao todo são 11 etnias e cerca de 40 mil pessoas - , a reportagem, acompanhada do antropólogo da Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj) Marcondes Secundino, percorreu mais de dois mil quilômetros durante sete dias de viagem. O grupo visitou aldeias localizadas nos municípios de Águas Belas e Pesqueira, no Agreste, e de Ibimirim, Tacaratu e Cabrobó, no Sertão do Estado. Diferente do que ainda hoje é relatado nos livros de história e absolvido como realidade pelo senso comum, a sociedade indígena de Pernambuco, bem como a do Nordeste (com exceção do Maranhão), foge do estereótipo amazônico - cabelo liso, franja e olho puxado - e hábitos coloniais quase intactos, como andar nu na mata e não ter acesso à tecnologia.

CURIOSIDADE

Foram os índios quem deram ao Estado o nome de Pernambuco que, segundo o dicionário Houaiss, é oriundo do tupi para'nã (rio caudaloso) e pu'ka (rebentar, estourar, furar-se, ser furado, arrombado).
Por esse motivo, muitos desconhecem o fato de que existem índios no Estado ou acabam caracterizando-os como “índios misturados” ou “índios de mentira”, não levando em conta a miscigenação natural ocorrida no País. "Aqui não existe índio, está muito escasso. Talvez em outros lugares, como a Amazônia... No Nordeste nunca ouvi falar. Já vi na televisão eles se vestindo com roupa normal... índios que nem parecem índios, morando em casas com telefone e tudo mais", relata a estudante Manuela Sales, 15 anos. A visão deturpada não é restrita aos jovens. A doméstica Evanoska da Silva, 44, também desconhece a existência da população indígena pernambucana e acredita que todos os índios do País ainda vivem como no período da colonização. "Eles moram numa cabana na floresta e usam um negócio na cabeça. As mulheres cobrem a parte da frente e, às vezes, não usam nada."

PRÊMIO CULTURAS INDÍGENAS

Idealizado com o intuito de dar visibilidade à produção cultural dos índios brasileiros, a 2ª edição do Prêmio Culturas Indígenas vai entregar um prêmio de 24 mil reais a cada um dos cem selecionados, entre iniciativas e projetos de todo País. Cerca de 52 oficinas divulgarão o prêmio - número três vezes maior do que o da edição passada. Essas oficinas funcionam como um veículo de orientação e estímulo aos índios para inscrever seus trabalhos. Mais informações pelo telefone (81) 3424.7611 ou www.cultura.gov.br.
Para o antropólogo João Pacheco, um dos maiores especialistas sobre a questão indígena do País, a expressão “índios misturados”, utilizada muitas vezes por parte da sociedade brasileira, reflete preconceito e falta de conhecimento histórico. “Eles não se sentem misturados. É uma avaliação que é feita de forma preconceituosa para espoliar a população da terra que tem direito e minimizar sua cultura. Porque se eles vivem trabalhando com cinco séculos de imersão e de relação com a sociedade brasileira, é claro que eles não podem ignorar o catolicismo, as culturas afro, o capitalismo, as práticas agrícolas. Querer isso é de uma ingenuidade sociológica absoluta.”

Segundo Roberto Saraiva, integrante do Conselho Indigenista Missionário (Cimi), entidade ligada à Conferência Nacional dos Bispos no Brasil (CNBB), o preconceito da sociedade começa quando o assunto é a retomada do território. “Quando o índio vai se apresentar na escolinha, todo mundo acha bonitinho, mas quando vai para a rua e diz que quer sua terra de volta aí todo mundo o chama de bandido, vagabundo e marginal”. O cacique truká Aurivan dos Santos, 34 anos, relata situações de discriminação que passou no tempo que estudava fora da aldeia, localizada no município de Cabrobó. “Na sala de aula, as pessoas só atribuíam ao nosso povo as piores coisas possíveis, como roubo e tráfico de drogas. Elas não viam a nossa identidade, a nossa cultura e a nossa forma de ser”, conta.

POPULAÇÃO DO DESCOBRIMENTO

Estima-se que, no começo do século 16, período do “descobrimento”, a população que habitava o território onde posteriormente se fixaram as fronteiras do Brasil chegava a 4 milhões de indivíduos e cerca de mil povos. Ao longo de séculos de contato com a civilização ocidental, aquele contingente foi reduzido a 350 mil. Hoje a população indígena é de 734 mil, distribuídos em  227 etnias, que fala 180 línguas. As terras indígenas cobrem uma extensão de 958.303 km2 ou 11,21% do território nacional.
O cacique compreende que o problema não é direcionado exclusivamente aos índios e critica os “brancos” ao agirem com discriminação entre pessoas de sua própria raça, como os sem-teto e homossexuais. “As pessoas falam de paz, mas na maioria das vezes fica no papel e no slogan. Com a gente não, isso é nosso dia-a-dia. Dentro das aldeias não existe egoísmo, nem rico ou pobre. Tanto as lideranças como o cacicado e os conselhos não trabalham em benefício deles e sim em nome de todos”, garante.

Marcos de Araújo, cacique do povo xucuru, localizado em Pesqueira, acredita que a sociedade brasileira ainda não compreende a questão indígena porque não recebe informações sobre a realidade dos povos. “A educação brasileira também tem que estar voltada para as questões indígenas do presente. É preciso que, a partir das escolas, a juventude perceba que somos um País pluriétnico e que também fazemos parte da sociedade. É preciso compreender a dimensão do que são os povos indígenas, quais são suas principais lutas e desmistificar a imagem negativa de que somos um entrave para o desenvolvimento do Brasil”. Ele destaca a atuação dos movimentos indígenas na garantia dos direitos previstos nos artigos 231 e 232 da Constituição Brasileira e manda um recado para os não índios: “Quero dizer para a sociedade brasileira e para a sociedade pernambucana, em particular, que todos nós temos direitos. Cabe à sociedade se organizar, como estamos fazendo, e cobrar dos governos esses direitos.”

Em homenagem ao Dia do Índio, comemorado em todo o País neste dia 19 de abril, o JC OnLine resolveu abrir espaço para os povos indígenas de Pernambuco contarem a sua versão da história. O especial, contudo, não se limita à visão dos grupos visitados e, com o depoimento de profissionais de diversas áreas de atuação, traça um panorama sobre a realidade indígena no Estado. Realidade esta que também é marcada por desigualdades sociais, conflitos internos e contradições de discursos, mas, indubitavelmente, serve como instrumento de reflexão para toda a sociedade, seja índia ou não.

ÍNDIOS PELO MUNDO

Para se ter idéia de assuntos indígenas no mundo, o Instituto Sócio-ambiental (ISA) recomenda em sua página na web a consulta a outros sites:

IWGIA
(International Work Group for Indigenous Affairs)
Em inglês e espanhol, divulga informações e publicações da instituição, na defesa dos interesses indígenas em todo o mundo.
http://www.iwgia.org/

Cultural Survival
Site em inglês. Informa sobre as atividades e publicações da entidade, em defesa de povos indígenas de diversas regiões.
http://www.cs.org/

Abya Yala Net
NativeWeb Informações, em inglês, acerca de povos vivendo em países da América Latina. Links sobre diferentes partes do planeta.
http://abyayala.nativeweb.org/

Página do Melatti
O antropólogo Julio Cezar Melatti (UnB) disponibiliza, em português, parte de seus estudos e um curso completo sobre povos da América do Sul.
http://www.geocities.com/RainForest/Jungle/6885

Native Americans
Ponto de partida para busca de informações a respeito de povos da América do Norte. Muitos links.
http://www.americanwest.com/pages/

AIATSIS
(Australian Institute of Aboriginal and Torres Strait Islander Studies) Site em inglês, com informações e links referentes aos povos indígenas na Austrália.
http://www.aiatsis.gov.au/

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