Cultura

Rituais mantêm identidade dos povos


“O toré é a força maior da nossa cultura, é sagrado como um pai para a gente.” A frase, dita com simplicidade pelo mestre de linha pipipã do terreiro (pessoa que conduz a dança), Edelson Lima, 49 anos, resume bem o sentimento dos indígenas em relação ao ritual presente em praticamente todos os povos do Nordeste. Em Pernambuco, outras manifestações fazem ainda parte da tradição de algumas etnias como o praiá, o ouricuri e a jurema. As formas de realização dos rituais sofrem variações. Músicas, instrumentos e indumentárias não são os mesmos para todos os grupos. Muitas vezes, é no detalhe da pisada no chão ou na toada da voz que se constroem as particularidades de cada povo e enriquecem a cultura indígena do Estado.

Nem todos os rituais, porém, estão acessíveis à sociedade não índia. “São coisas íntimas, tipo um dever, uma oração entre você e sua família, que não se revela a todo mundo. As coisas de Deus que têm valor têm também segredos”, ressalta a artesã fulni-ô Josefa Jositânia, 47. Seu povo, localizado em Águas Belas, guarda a sete chaves qualquer informação mais detalhada sobre a realização do ouricuri. O fato, inclusive, já criou na população local não índia superstições. “Dizem que quem revelar o segredo morre e quem escutar também”, diz a vendedora Patrícia Lima. O pesquisador da Fundaj Marcondes Secundino explica que parte desse mistério é reflexo do passado dos povos que, ao longo da história, foram obrigados pelos brancos a esconder suas práticas e costumes. “Para recuperar e manter vivas essas tradições, eles tiveram que criar mecanismos de defesa. Um deles é manter uma fronteira, separando quem são índios e quem não são índios e, a partir disso, ter valores e práticas que são rememoradas entre eles e que só fazem parte do universo deles.”

Toante kambiwá

"Urubu de Serra Negra; De velho não cai a pena; De comer mangaba verde, cunhã; Beber água na Jurema; Sou índio de Serra Negra; Eu sou Caboclo-de-Pena; Eu venho fazer penitência; Tomando o vinho da jurema"
Por outro lado, os rituais também são considerados a fonte das novas identidades indígenas. Cada vez mais, os índios têm aberto espaço para a população em geral assistir e, às vezes, até participar das manifestações, como uma forma de se afirmarem publicamente como indígenas. “É exatamente no ritual que eles conseguem revigorar suas identidades tanto como resgate de sua memória ancestral, da crença nos antepassados, da crença no destino comum e da referência ao território social”, explica Marcondes. “Nossos trabalhos e nossos terreiros não são escondidos mas, quando a gente vai fazer a ciência, a gente se separa”, conta José João dos Santos, 60, que é sobrinho e se denomina sucessor do atual pajé pankararu, Miguel Monteiro dos Santos, o Seu Pinga, que está muito doente.

Um pouco desse mistério foi presenciado com exclusividade pela reportagem do JC OnLine na aldeia do povo pipipã, em Floresta. O ritual sagrado da jurema pela primeira vez, segundo o pajé Espedito Rosendo, pôde ser visto por não índios na sua comunidade. Algumas condições foram estabelecidas pelas lideranças, como a proibição de filmar, fotografar ou gravar qualquer detalhe da prática. A descrição da experiência, no entanto, pode ser conferida aqui, no relato realizado pela equipe. Conheça, abaixo, os principais rituais dos índios pernambucanos. J.M.

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VÍDEOS

Toré fulni-ô Vídeo
Toré pipipã Vídeo
Toré pankararu Vídeo
TORÉ
O ritual é considerado o símbolo maior de resistência dos povos indígenas do Nordeste. Ele é realizado geralmente de 15 em 15 dias, tanto com o objetivo religioso quanto festivo, de comemoração. À primeira vista, pode ser percebido como uma dança, que varia de ritmos e linhas (toadas) em cada povo. O maracá dá o tom das pisadas e os índios dançam, em geral, em círculo. O toré também tem sentidos diferentes e podem ser celebrados para homenagear autoridades ou visitas; como instrumento político, em exibições públicas nas cidades onde as aldeias estão localizadas para reafirmar a coletividade perante a sociedade; e também com função religiosa, de penitência, resgate dos antepassados e relação com a natureza. No povo pipipã, quando alguém da aldeia morre, a comunidade se resguarda e passa o período de um mês sem realizar o toré no terreiro, como uma forma de homenagear aqueles que se foram.
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VÍDEO

Zelador dos praiás kambiwá fala sobre ritual Vídeo
PRAIÁ
Os pankararu e kambiwá acreditam na força encantada presente nos escolhidos para vestir os fardamentos (feitos da cabeça aos pés da fibra do caroá), que escondem a identidade e fazem aumentar o mistério da prática. Quando realizam promessas, os índios têm que pagá-las, promovendo uma festa com oferendas. No povo kambiwá, o ritual é realizado uma vez por mês, no período da lua cheia. O povo pankararu (foto) realiza eventos ao longo do ano que contam com a participação dos praiás, a exemplo da corrida do umbu, que ocorre no mês de março quando eles encontram o primeiro umbu maduro, simbolizando o início da safra; e do menino do rancho, uma espécie de rito de iniciação.  É também no período da corrida do umbu que os índios fazem, paralelamente, a queimação da cansanção, um tipo de urtiga braba que é utilizada como autoflagelo. Quando não são realizados os rituais, os fardamentos são guardados em um lugar sagrado chamado de póro.

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RELATO

Repórteres participam de ritual sagrado Texto

 

JUREMA
Cerimônia religiosa na qual os índios costumam ingerir uma bebida extraída da juremeira – a jurema ou vinho do anjucá. Ela é considerada alucinógena e atuaria como elemento de comunicação com os ancestrais. Praticamente todos os povos do Nordeste possuem essa tradição. O trabalho da "mesa da jurema" é denominado pelas etnias como "ciência de índio". O ritual tem o objetivo de curar doentes, afastar mau olhado ou receber conselhos dos antepassados. A maioria dos povos guarda os detalhes da prática em segredo. A receita da jurema, por exemplo, dificilmente é revelada. Sabe-se, no entanto, que existem vários tipos da planta, mas geralmente a preta ou a "braba", como eles se referem, é utilizada para a cerimônia. Os índios ficam sentados ao redor do altar no chão, onde também é colocada uma cumbuca com fumo de várias ervas. Em seguida, as entidades são invocadas através dos toantes, que, falam sobre o tempo em que os antepassados habitavam os territórios.
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VÍDEO

Saiba onde acontece o ouricuri fulni-ô Vídeo
OURICURI
Presente em alguns povos, como os fulni-ô, kambiwá e pipipã, o ritual representa um retiro religioso para os índios. A prática é realizada secretamente e, diferentemente de outros rituais, não permite a participação do não índio. No caso dos fulni-ô, de Águas Belas, o ouricuri acontece todos os anos entre os meses de setembro, outubro e novembro. Até quem mora longe comparece ao evento. Durante 90 dias, todos os índios se mudam para a aldeia Ouricuri, lugar considerado sagrado por eles. Poucas informações são divulgadas sobre o que acontece no local durante o evento. Sabe-se, por exemplo, que as relações sexuais e a ingestão de bebidas alcóolicas são proibidas. Existe um juazeiro sagrado (foto), utilizado para fazer promessas. Muitos atribuem ao ritual a força de união do povo. Os kambiwá e pipipã realizam o ouricuri na Serra Negra, em Floresta. Devido a conflitos entre os povos, os kambiwá passaram dois anos sem ir no local para evitar confronto com os pipipã.
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VÍDEOS

Buzo pankararu Vídeo
DANÇA DO BUZO
A tradição foi resgatada pelos jovens do povo pankararu, em Tacaratu, através de relatos dos membros mais velhos da aldeia. Eles formaram o Grupo de Dança Indígena Pankararu e passaram a divulgar o costume. Os passos são diferentes do toré e os integrantes não dançam em círculo. O grupu misturou a dança do buzo com a dança da lança e utilizou a gaita e o rabo de tatu como instrumentos musicais. O resultado é muito vibrante. Segundo as lideranças do povo, a dança é de origem pankararu.

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