Cultura

Povos indígenas ganham novo atlas em 2007


A terra é essencial para os povos indígenas. É sinônimo de continuidade. O meio pelo qual se relacionam com a sociedade nacional. A representatividade da cidadania. Mas esses valores só passam a ser respeitados quando a terra onde habitam é conhecida e demarcada. Nesse sentido, o primeiro levantamento dessas informações na Região Nordeste, foi realizado em 1993, ano da publicação do primeiro Atlas das Terras Indígenas do Nordeste, resultado de dois anos de pesquisa coordenado pelo antropólogo João Pacheco. Mais de dez anos depois, a diretoria de Pesquisas Sociais da Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj), em parceria com o Laboratório de Pesquisa em Etnicidade, Cultura e Desenvolvimento (Laced) do Museu Nacional do Rio de Janeiro, vai lançar uma edição atualizada do Atlas, previsto para sair no segundo semestre deste ano. Na primeira publicação foram identificados 23 povos indígenas na região. A nova pesquisa cataloga mais de 60.

João Pacheco lembra que na época da Constituinte (1988) não havia nenhuma documentação relativa às terras habitadas pelos indígenas. "Por mais paradoxal que seja, a Funai (Fundação Nacional do Índio) não tinha nenhum material habilitado para dar conta das terras indígenas. Não havia uma documentação contundente, nem disponibilizada. Foi quando nós constituímos no Museu Nacional, junto com outras instituições, um projeto para reunir esses dados", afirma o antropólogo. O Atlas das Terras Indígenas do Nordeste foi divulgado durante encontro da Sociedade Brasileira de Pesquisa e Ciência, realizado na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), no Recife. "Participaram do ato de lançamento algumas lideranças indígenas importantes, como o cacique xucuru Chicão (assassinado em 1998)", lembra João Pacheco.

O antropólogo da Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj) Marcondes Secundino, que também coordena o projeto, acredita que o Atlas de 94 abriu os olhos da antropologia para o movimento indígena no Nordeste. "Definiu uma nova agenda de pesquisa, que passou a contemplar essas populações, percebendo-as como legítimas, como mobilização de cultura e identidade dentro da sociedade brasileira, em conexão com seus direito coletivos", destaca. Em 2003, a Fundaj, através de um convênio de colaboração científica com o Laced/Museu Nacional, convidou o antropólogo João Pacheco para coordenar junto com Marcondes Secundino o projeto de atualização do Atlas.

Uma nova versão é extremamente importante para a consolidação dos movimentos indígenas na região, já que o levantamento da década de 90 foi marcado pela centralidade das informações repassadas pela Fundação Nacional da Saúde (Funai). "Nós queremos manter a estrutura original do Atlas, mapeando grupos e terras indígenas, além de trabalhar com outras políticas públicas como educação e saúde, informações que dêem mais subsídios a pesquisadores, estudantes e ao Estado. Essa atualização é, sobretudo, importante para os indígenas na busca de seus direitos coletivos e constitucionais", avalia Marcondes. João Pacheco reforça: "O Atlas de 2007 terá uma outra dimensão, porque hoje a política indigenista não pode ser de maneira nenhuma restrita à questão da terra."

Inicialmente, o Atlas 2007 será enviado para instituições públicas, universidades e lideranças indígenas. Mas o pesquisador Marcondes Secundino adianta que o material poderá ser transformado em um banco de dados ainda mais amplo, que estará disponível nos sites da Fundaj e Laced.

DADOS - Como nunca foi realizado no País um censo indígena, o levantamento desses dados tem sido feito por órgãos do governo – IBGE (Instituto Brasileiro de Levantamento e Estatística), Funai e Funasa (Fundação Nacional da Saúde) – pela Igreja Católica através do Conselho Indigenista Missionário (Cimi) ou pelo Instituto Sócio Ambiental, com base em diversas informações heterogêneas, que apontam para estimativas diferenciadas. Em Pernambuco, por exemplo, estima-se que existam, atualmente, 40 mil índios espalhados em mais de 200 aldeias, porém esses números não são oficiais. I.C.

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