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Índios utilizam internet para divulgar cultura


Tom Cabral/JC Imagem
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Alexandre Pankararu tenta desmistificar a imagem dos indígenas da atualidade no projeto Índios Online

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Uma vitrine infinita, para todo o mundo ver que sim, existem índios em Pernambuco. Assim é a internet para os povos nativos do Estado, que vêm explorando a rede e usando todas as suas ferramentas para mostrar ao mundo a realidade das aldeias indígenas. Um dos principais instrumentos na conquista do espaço virtual é o projeto Índios Online do Governo Eletrônico – Serviço de Atendimento ao Cidadão, do Ministério das Comunicações. De acordo com o coordenador nacional, Alexandre Pankararu, o projeto nasceu com o intuito de divulgar a cultura indígena a partir das próprias aldeias.

“Os livros de história têm uma visão deturpada do índio, com o Índios Online, nós podemos mostrar o que é o índio de verdade”, conta Alexandre. Ele diz que o projeto consiste em um ponto de presença de internet com cinco computadores instalados nas aldeias e geridos pelos próprios índios. Ainda segundo Alexandre, em Pernambuco somente os pankararu foram contemplados com um telecentro. Mas, até o final do ano, as aldeias fulni-ô e truká devem receber os pontos de internet. No fim do ano passado, uma outra etnia, os Atikun, em Carnaubeira da Penha, foram selecionados para o programa.

“Só falta a verba ser liberada. Já estão destinados R$ 150 mil para as sete etnias e mais quatro que devem entrar este ano, incluindo os fulni-ô e os truká. Só não houve a liberação ainda por causa da reforma ministerial. Mas não deve demorar muito mais”, comenta Alexandre, que comemora o resgate da medicina tradional do povo graças ao blog do Índios Online. “Na página do projeto, há uma ferramenta de blog coletivo, para onde os índios enviam notícias e comentários. Postamos uma matéria falando do vício que os índios de hoje em dia têm em medicamentos de laboratório, esquecendo o conhecimento das nossas plantas. Funcionários da Funasa (Fundação Nacional de Saúde) leram a matéria, entraram em contato e agora estamos terminando de catalogar as ervas nativas da região para voltar a usá-las com fins medicinais”, revela.

Além dos desafios de manter um centro de informática, os índios ainda enfrentam o preconceito dos não-índios. “Nossa internet é o único ponto da região. Isso gera uma certa inveja dos moradores da cidade. Eles ficam até chateados quando descobrem que eu tenho internet", diz a estudante Tânia Silva, 26 anos. Em seguida, conta uma história: "Já aconteceu de eu pedir o e-mail de um amigo e ele ficar se perguntando como eu tenho internet em casa e ele não. O pior é que eles ficam chateados porque eu sou índia e tenho internet. Mas, se eu fosse branca, eles não se irritariam”, relata ela, conhecida na aldeia como Lian.

PARA QUE SERVE A TECNOLOGIA

Tom Cabral/JC ImagemCelular
“Uso muito celular. É muito bom. Às vezes, a gente tem que se comunicar quando alguém está doente. É muito mais fácil. Só que aqui na aldeia só pega esses celulares mais antigos. Os novos, esses que são cheios de coisas, não pegam. Nem adianta tentar. Para dar as três barrinhas do sinal, tem que ser daqueles velhos mesmo.” - Pajé pipipã Expedito dos Santos, 52.

Tom Cabral/JC ImagemComputador
“Com os computadores e a internet, mudei muito. A Lian de hoje é totalmente diferente daquela de antes da informática. Me abriu portas e, além de tudo, fui aceita por pessoas que achava que não iriam me aceitar. Com a internet, viajei o mundo. Fui até Portugal e à África. Eu nem sabia que lá a realidade era tão forte. Perto deles, estamos até muito bem.” - Tânia “Lian” Silva, 26, índia pankararu.

Tom Cabral/JC ImagemTV
“Eu gosto muito de televisão. Assisto às novelas, me divirto muito. Mas, ao mesmo tempo, sei que aquilo tudo que passa lá não é verdade. É tudo uma ilusão” - Valentina Maria Vieira dos Santos, 89, índia fulni-ô da aldeia Xixi a cla.

Tom Cabral/JC ImagemMP3 Player
“Cuido do meu tocador de MP3 como se fosse um tesouro. É um pen drive simples, mas é muito especial para mim. Nele ouço músicas indígenas e bandas da própria aldeia. Ele vive emprestado porque acaba sendo a diversão da aldeia inteira. Uso até para exibir uns vídeos que baixo da internet. Basta colocar no aparelho de DVD com entrada USB que tenho” - Jailton Pankararu, 23, índio pankararu.
“O maior problema que os índios enfrentam na inclusão digital é o preconceito social. Muitos não-índios querem que o índio se mantenha desinformado e longe da tecnologia. Justamente porque coisas como a internet fortalecem o cotidiano da aldeia”, afirma o presidente da associação de rizicultores dos índios truká, em Cabrobó, Moseni Araújo Sá. Pai de três filhos adolescentes, Moseni diz que vai fazer o possível para que os filhos tenham o acesso às tecnolgias. “Uma das coisas que quero muito é que eles tenham internet”, diz.

Na aldeia fulni-ô, recursos básicos da informática estão ajudando a preservar a única língua indígena do nordeste, o yaathê. O estudante Siato, de apenas 14 anos, é o responsável pela criação do primeiro dicionário da língua. Ele conta que, apesar de simples, o uso do computador facilitou muito o registro das palavras, que antes precisavam ser mimiografadas. “Terminei precisando fazer uma adaptação com o Paint. No yaathê, alguns sons são escritos com vogais duplicadas e um til por cima. Nenhuma fonte faz isso, então improvisei”, diz o curumim.

Enquanto pankararu e Fulni-ô têm a sorte do acesso à tecnologia, graças a programas governamentais e à proximidade com centros urbanos, a sombra da exclusão digital paira sobre as aldeias localizadas em zonais rurais e de difícil acesso. É o caso dos pipipã e dos kambiwá, etnias cujo parentesco não é só na tradição e no sangue, mas também no isolamento tecnológico. “Internet para nós é um sonho”, suspira o cacique Pipipã, Valdenir Amaro Lisboa áudio, dono do único computador da aldeia, que, mesmo sem acesso à internet, é bastante solicitado pelos índios locais. “Às vezes fico sobrecarregado de pedidos para usar o computador, para bater ou imprimir algum documento. Mas não tem problema. A porta está sempre aberta”, brinca.

“Aqui é um dos maiores exemplos de aldeia sem computador”, brinca o agente de saúde indígena Severino Dionísio, da etnia kambiwá, informando que há apenas uma máquina na aldeia principal, trancada no depósito da Funai e desmontada. “A gente aqui não tem comunicação. Estamos isolados”, desabafa, já que as duas antenas de telefonia - sendo uma via satélite com capacidade para 40 linhas - está desativada. “Só fizeram instalar e mais nada. Nossa única forma de comunicação são dois telefones públicos que, a cada 15 dias, param de funcionar”, afirma. Procurada pela reportagem, a Oi, responsável pela rede telefônica, não indicou ninguém para comentar o assunto.

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