Estudo com giz, terra e cantos nativos


A educação escolar indígena é um direito conquistado por lei, portanto, inquestionável. Os dados do último censo realizado pelo Ministério da Educação (2006) mostram que a oferta cresceu 48,7% nos últimos quatro anos. São mais de 174 mil estudantes matriculados em todo o País. Em menor proporção, os números também aumentaram em Pernambuco. De 7.840 alunos e 81 escolas no ano 2000, o Estado conta hoje com 9.189 estudantes e 119 unidades. As lideranças indígenas reconhecem o avanço quantitativo, mas continuam lutando pela qualidade na sala de aula. Faltam mais escolas nas aldeias, estrutura física e equipamentos adequados, material didático e formação diferenciada para os professores.

"É claro que houve um avanço com relação ao quadro que existia em 1991 (quando a educação escolar indígena era de responsabilidade da Funai), mas o número de matrículas ainda é insuficiente. Nós queremos que os nossos jovens estudem nas nossas aldeias, perto do nosso povo. Quando a criança é obrigada a ir para um mundo diferente, com outros valores, acaba apagando aquilo que foi formado nos outros anos", afirma Agnaldo Xucuru, da Comissão de Professores Indígenas de Pernambuco (Copipe).        

A educação escolar indígena passou a ser responsabilidade da Secretaria de Educação de Pernambuco em 2002. Antes, era conduzida pelos governos municipais. A resolução Nº 03/99 do Conselho Nacional de Educação fixou as diretrizes para o funcionamento das escolas indígenas no Brasil, garantindo aos povos a oferta de escolas nas aldeias, respeitando as estruturas sociais das etnias e práticas sócio-culturais e religiosas.
Apesar de já viverem inseridos na sociedade não indígena, a ruptura não é fácil. “Muitas vezes, quando eles saem das aldeias, perdem completamente a perspectiva do coletivo. As lideranças querem que seus jovens tenham formação, mas desde que ela contribua para o projeto de sociedade dos seus povos", ressalta Caroline Leal, antropóloga do Centro Cultural Luiz Freire. audio“O povo indígena vive inserido na sociedade não índia, mas tem uma formação societária diferenciada, que pensa na coletividade. Existem regras estabelecidas pelos povos baseadas, inclusive, na própria Constituição Federal. E isso passa necessariamente pela escola”, ressalta Agnaldo. Segundo a Secretaria Estadual de Educação de Pernambuco (Seduc), existem atualmente 119 escolas espalhadas nas aldeias. Apenas duas etnias - a pankararu e a xucuru - ofertam até o ensino médio, beneficiando 118 alunos. Portanto, aqueles que pretendem dar continuidade aos estudos, são obrigados a estudar fora das aldeias.

As escolas pipipã só oferecem até a 4ª série. A coordenadora pedagógica das aldeias, Paula da Silva, lamenta a ida das crianças para o município de Floresta. “É uma preocupação porque, até a 4ª série, elas têm um calendário específico e depois muda tudo. São muitas as diferenças, a começar pelo fardamento. Muitos pais não têm dinheiro para comprar a farda e os filhos acabam desistindo. Aqui, nas aldeias, eles podem ir descalços ou sem camisa e são recebidos da mesma forma”. A aluna kambiwá Heloísa Vera da Silva, 9 anos, que cursa a 3ª série do ensino fundamental concorda com a opinião das lideranças. “Gosto de ir para escola e aprender sobre a história do meu povo. Tem aulas que a gente dança o toré. No recreio, gosto de brincar de corrida, toba (amarelinha) e cordão (pula-corda)”, diz.

Tom Cabral /JC Imagem

“Gosto de ir para a escola, aprender sobre a história do meu povo e dançar o toré ”

Estudante kambiwá Heloísa Vera
Tom Cabral /JC Imagem

“Quando os jovens vão para a cidade se misturam com uma cultura que não é nossa”

Professora kambiwá Denise Elaine
Tom Cabral /JC Imagem

“É claro que houve um avanço, mas o número de matrículas ainda é insuficiente”


Professor AgnaldoXucuru
A Seduc vai destinar este ano um pouco mais de R$ 5 milhões para a manutenção da educação escolar indígena no Estado. Os recursos são voltados para capacitação dos professores, aquisição de kits pedagógicos e novos equipamentos, além de transporte. Mais da metade dessa verba é direcionada para o transporte: R$ 2,782 milhões. Segundo a secretária executiva de desenvolvimento da educação no Estado, Aida Monteiro, mais de quatro mil alunos dependem de condução para ir às escolas. Ela reconhece a necessidade de construir mais unidades, mas defende a interação dos alunos indígenas com a sociedade nacional.  “A interlocução com a sociedade de um modo geral é importante, senão os alunos ficam por dentro de uma cultura exclusivamente indígena. Se pensarmos sobre o aspecto da interculturalidade, é muito interessante também esta troca, até para quebrar os preconceitos que existem do outro lado. A Secretaria também tem a preocupação de não sectarizar”, destaca. Os índios, no entanto, pensam diferente. “Nosso projeto didático é baseado no resgate da memória dos nossos antepassados. Quando os jovens vão estudar na cidade acabam se misturando com uma cultura que não é nossa”, diz a professora kambiwá Denise Elaine da Silva.

Oferta da educação indígena no Brasil em 2006
Níveis/ Modalidades Alunos %
Educação Infantil 18.918 10,9%
Ensino Fundamental I - 1ª a 4ª 105.453 60,5%
Ensino Fundamental II - 5ª a 8ª 28.767 16,5%
Ensino Médio 7.900 4,5%
Educação de Jovens e Adultos 13.217 7,6%
Total 174.255 100 %
 Grafico

FONTE:Ministério da Educação

O coordenador-geral do Ministério da Educação, Kleber Gesteira, explica que cada etnia tem liberdade para definir o seu Plano Político Pedagógico de acordo com suas especificidades. “A educação escolar na percepção dos povos indígenas, além de ser um direito básico, é estratégica na construção de seus projetos societários de futuro. São fixados conteúdos mínimos, de maneira a assegurar formação básica e respeito aos valores culturais e artísticos, mas existe liberdade de condução. O calendário escolar, por exemplo, é diferente”, afirma. Para Kleber, a ampliação do acesso à escola é conseqüência do engajamento dos indígenas. “Entre os setores sociais brasileiros, os povos indígenas se destacam na luta pela escola pública de qualidade em nosso País.”

A Copipe, formada em 1999, respeita as especificidades de cada povo, mas procura direcionar uma mesma linha de projetos pedagógicos. “Devido à proximidade das aldeias, a realidade é bem parecida. O Projeto Político Pedagógico elaborado por todos os professores indígenas tem cinco eixos principais para se trabalhar em sala de aula: terra, organização, interculturalidade, história e identidade. Esses cinco temas abrangem todas as especificidades dos povos indígenas em Pernambuco”, relata Agnaldo Xucuru.

RADIOGRAFIA DAS ESCOLAS INDÍGENAS EM PERNAMBUCO

ETNIAS ESCOLAS ALUNOS EDUCAÇÃO OFERTADA PROFESSORES
Atikum
8
298
Educação infantil, ensino fundamental I (1ª a 4ª série) e Ensino de Jovens e Adultos (EJA)
39
Fulni-ô
3
1.359
Educação infantil, 1ª a 7ª série e Ensino de Jovens e Adultos (EJA). É a única ter escola bilíngüe
55
Kapinawá
7
785
Educação infantil, ensino fundamental I (1ª a 4ª série) e Ensino de Jovens e Adultos (EJA)
23
Pankará
18
716
Educação infantil, ensino fundamental I (1ª a 4ª série) e Ensino de Jovens e Adultos (EJA)
43
Pankararu
13
1.357
Educação infantil, ensinos fundamental I e II (1ª a 8ª série), ensino médio e Ensino de Jovens e Adultos (EJA)
64
Pipipã
4
216
Educação infantil, ensino fundamental I (1ª a 4ª série) e Ensino de Jovens e Adultos (EJA)
14
Truká
11
640
Educação infantil, ensino fundamental I (1ª a 4ª série) e Ensino de Jovens e Adultos (EJA)
38
Xucuru
36
2.247
Educação infantil, ensinos fundamental I e II (1ª a 8ª série), ensino médio e Ensino de Jovens e Adultos (EJA)
133
Kambiwá
4
548
Educação infantil, ensino fundamental I (1ª a 4ª série) e Ensino de Jovens e Adultos (EJA)
48
FONTE:Secretaria Estadual de Educação e Cultura de Pernambuco

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