Faltam opções de trabalho nas aldeias

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O desemprego, que atinge mais de três milhões de pessoas nas regiões metropolitanas do Brasil - segundo último levantamento realizado em fevereiro deste ano pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) - também é uma das principais preocupações dos povos indígenas do País. Se a situação é considerada grave na sociedade não índia, torna-se mais alarmante dentro das aldeias, onde as opções de trabalho e geração de renda são ainda mais restritas. Atividades tradicionais, como agricultura e artesanato, continuam sendo as principais alternativas econômicas para grande parte dos índios. Quem não tem terra e recursos suficientes para plantar ou habilidade em fazer arte, no entanto, acaba caindo, em vários casos, na ociosidade. Muitos carregam na face o olhar desolador da completa falta de perspectiva para o futuro.
Aos 13 anos, o índio kambiwá Josiano Bezerra já é um dos que se mostram desperançados. Morador da aldeia Nazário, no município de Ibimirim, ele ainda está na 3ª série do Ensino Fundamental, mas já esboça, em um sorriso sem graça, a previsão que faz sobre sua profissão. “Queria mesmo era ser bombeiro, mas sei que não vai dar. O jeito é continuar ajudando minha família na roça de milho e feijão”, diz, em tom de lamento. A poucos quilômetros dali, na aldeia Baixa da Alexandra, a reportagem encontrou um pequeno grupo de homens reunido diante das casas. Cícero Tavares Dantas, 34, revela que a maioria, assim como ele, está sem fazer nada porque não tem trabalho. “Por conta disso, muita gente acaba se perdendo na bebida”, ressalta.
ÍNDIOS PANKARARU MORAM
EM FAVELA DE SÃO PAULO

Cerca de 1.200 índios pankararu, originários do município de Tacaratu, no Sertão de Pernambuco, vivem em favelas de São Paulo, segundo dados do site da Ação Cultural Indígena Pankararu. A Real Parque, localizada à margem do Rio Pinheiros, abriga mais de 80% desse contingente. Os índios pernambucanos começaram a migrar para a capital paulista na década de 50, após a construção das barragens de Paulo Afonso e Itaparica, no Rio São Francisco. Na época, eles fugiam da seca, da fome e dos conflitos com posseiros de terra. Hoje a migração ainda continua em função da busca – muitas vezes frustrada - por melhores condições de vida. Na favela, os índios mantêm as tradições e rituais do seu povo, como a realização do toré. Em 2003, um grupo da etnia tomou a iniciativa de constituir uma ONG para alavancar projetos visando atender as demandas da comunidade indígena, preservando suas raízes, usos e costumes. Mais informações aqui
RENOVAÇÃO – Na contramão da desesperança, começa a surgir nas áreas indígenas do Estado um movimento de jovens preocupados com o futuro das aldeias tanto na manutenção e no revigoramento de sua cultura como também na autosustentabilidade dos povos. Segundo a antropóloga do Centro de Cultura Luiz Freire (CCLF) Caroline Leal, a juventude tem se organizado internamente, em cada território, e discutido a sua inserção nas universidades e o que isso pode trazer de retorno para seu povo. “O povo xucuru, por exemplo, chama isso de projeto sociedade, no qual a formação dos jovens é voltada para contribuição dos povos, para cuidar da mãe natureza e continuar sendo povo, uma coletividade”
Ela, assim como outros jovens da sua idade, já trabalha como professora nas aldeias e sonha em fazer vestibular para pedagogia com o objetivo de melhorar o nível de ensino das escolas da tribo. Na área da saúde, outro espaço de atuação está se abrindo, o de agente de saúde. “É mais uma opção para quem não quer trabalhar na agricultura ou no artesanato e, de alguma forma, contribuir para a melhoria da qualidade de vida da sua comunidade”, avalia José dos Santos, 22. “É preciso que o Estado dialogue cada vez mais com a comunidade e perceba as potencialidades de cada aldeia e, prioritariamente, capacite a mão de obra indígena para exercer sua tarefa junto aos povos, principalmente nas áreas da educação e da saúde”, ressalta o missionário Roberto Saraiva.
As reuniões do grupo já renderam bons frutos, como o projeto “Saberes Tradicionais dos Jovens Pipipã”, que foi inscrito no “Prêmio Culturas Indígenas”, do Ministério da Cultura, e resultou em um livro de receitas tradicionais e medicina alternativa que estavam prestes a serem perdidas da memória coletiva dos pipipã, uma vez que as informações estavam restritas aos membros mais velhos da tribo. “Queremos ainda construir uma sede e, dentro dela, um museu para mostrar nossa cultura a toda sociedade - seja ela índia ou não índia - e, quem sabe, gerar mais empregos”, afirma Elisângela.


