Prata do Lixo

SUSTENTABILIDADE

Latinhas viram o 13º salário

Julliana de Melo
Do JC OnLine


Dona Nina junta as latas para pagar
o aluguel da sua casa no fim do mês
De gole em gole, a população brasileira começa a enxergar a lata de alumínio como algo a mais do que uma simples e prática embalagem de bebidas, despertando para as vantagens da coleta seletiva. Além de diminuir o impacto ambiental gerado na natureza pelo descarte inapropriado do material – leva mais de mil anos para se decompor -, a reciclagem das latinhas também é opção econômica e de trabalho para muita gente. Entre os materiais recicláveis, é o que tem um dos melhores preços no mercado e, por isso mesmo, é cada vez mais disputado. "Achar uma lata de alumínio hoje no lixo é como garimpar ouro. Todo mundo quer, mas está cada vez mais difícil encontrá-la nas ruas", conta Maria dos Prazeres, mais conhecida como Dona Nina, que tem 62 anos – 35 dos quais dedicados à catação na Zona Sul do Recife.

CONSUMO CONSCIENTE

Para comprar bebidas enlatadas de empresas preocupadas com a sociedade e o meio ambiente, basta observar a embalagem do recipiente. Na lata, obrigatoriamente, constará o material utilizado: alumínio ou aço. Outra dica é que a lata de alumínio é mais leve que a de aço.

Assim como Dona Nina, milhares de pessoas de diversas profissões – e não somente os catadores – têm recolhido e juntado as embalagens de alumínio durante meses para vendê-las em algum momento especial ou numa situação de emergência, como uma reserva de recurso. "Com o dinheiro da latinha, eu compro a roupa de fim de ano dos meus filhos ou remédio quando alguém fica doente", relata o encanador Manoel Agripino, 29, morador de Caruaru, no Agreste de Pernambuco, que passou a sobreviver do que consegue retirar do lixo depois que ficou desempregado há quase dois anos. "Ela é fácil de armazenar em casa e, quando precisamos, temos garantia de dinheiro na mão. É uma espécie de 13º salário ou poupança do pobre", define. Para se ter uma idéia da diferença de preço entre os materiais, enquanto o quilo da lata de aço é vendido a R$ 0,20, o quilo da lata de alumínio pode valer até R$ 3. O valor de revenda só é menor do que o cobre e o bronze, que custam em média R$ 12 e R$ 5, respectivamente.

OBJETO VALOR (kg)
Lata de alumínio R$ 2,50 a R$ 3
Lata de aço R$ 0,20 a R$ 0,25
Papelão R$ 0,17 a R$ 0,22
Cobre R$ 10 a R$ 12
Bronze R$ 5 a R$ 7
Plástico (branco e colorido) R$ 0,30 a R$ 1,50
Vidro (branco) R$ 0,03 a R$ 0,08
* Preço médio dos materiais recicláveis obtido nas associações visitadas neste especial

A reciclagem da lata de alumínio no Brasil, ao contrário dos países desenvolvidos, possui uma característica cruel, uma vez que cresce com a falta de oportunidade da população carente. Talvez isso explique porque o País lidera, pelo sexto ano consecutivo, o ranking mundial no setor entre países em que a atividade não é obrigatória por lei. Segundo a Associação Brasileira do Alumínio (Abal) e a Associação Brasileira dos Fabricantes de Latas de Alta Reciclabilidade (Abralatas), em 2006, o Brasil reciclou 94,4% do total de latas de alumínio para bebidas comercializadas em território nacional. As principais fontes de coleta, segundo pesquisas da Abal, foram as cooperativas/associações (58%), seguidas pelos condomínios/clubes (20%), depósitos (13%), escolas (5%), supermercados (3%) e eventos (1%).

TEMPO DE DECOMPOSIÇÃO

  • Papel: 3 meses a vários anos
  • Casca de fruta: 3 a 12 meses
  • Madeira: 13 anos
  • Cigarro: 5 anos
  • Chiclete: 5 anos
  • Lata de a ço: 100 anos
  • Nylon: 30 anos
  • Emb. longa vida: + de 100 anos
  • Plástico: + de 100 anos
  • Pneu: Tempo indeterminado
  • Lata de alumínio: + de 1.000 anos
  • Vidro: + de 1.000.000 anos

* O tempo de decomposição é relativo - depende da exposição de cada material às condições ambientais. 

Fonte: Emlurb

A latinha de alumínio é tão valorizada no mercado de reciclagem que, por questão de segurança, muitas cooperativas em Pernambuco evitam estocá-la e comercializá-la, dando preferência a outros materiais que podem ser reaproveitados do lixo. De acordo com o coordenador do programa de geração de renda da ONG Retome sua Vida, Antônio Bezerra, as latas de alumínio geram conflito nas associações porque são visadas por ladrões. "Algumas já foram arrombadas e perderam todo o estoque". O assessor do programa de material reciclável da Cáritas Nordeste 2, Rubem Tavares, explica que os catadores são livres para juntar o metal e vender diretamente aos deposeiros (donos de depósitos), que investem em segurança e têm mais capital de giro. "O mercado de latinha tende a acabar nas associações porque requer muita atenção e infra-estrutura."

A estudante Suzana Dayse, 20, guarda com todo cuidado as latinhas dentro de casa. Há cinco anos, ela ajuda a mãe a recolher materiais recicláveis no bairro onde mora, em Olinda, Grande Recife, e já sabe o lugar que a lata de alumínio ocupa na cadeia da reciclagem e na sua vida. "Todos os materiais são importantes. O papel, o plástico e o vidro me dão de comer todos os dias, mas é a lata de alumínio que permite a gente realizar alguns sonhos, como dar presentes para as crianças da vizinhança no Natal."

COLETA SELETIVA NO PAÍS (EM PESO)
Gráfico
* inclui outros tipos de materiais recicláveis: baterias, pilhas, borracha,
madeira, livros (reutilização), entre outros.

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Sistema Jornal do Commercio de Comunicação
Publicado em 18/06/2008