Julliana de Melo
Do JC OnLine

Assim como Dona Nina, milhares de pessoas de diversas profissões – e não somente os catadores – têm recolhido e juntado as embalagens de alumínio durante meses para vendê-las em algum momento especial ou numa situação de emergência, como uma reserva de recurso. "Com o dinheiro da latinha, eu compro a roupa de fim de ano dos meus filhos ou remédio quando alguém fica doente", relata o encanador Manoel Agripino, 29, morador de Caruaru, no Agreste de Pernambuco, que passou a sobreviver do que consegue retirar do lixo depois que ficou desempregado há quase dois anos. "Ela é fácil de armazenar em casa e, quando precisamos, temos garantia de dinheiro na mão. É uma espécie de 13º salário ou poupança do pobre", define. Para se ter uma idéia da diferença de preço entre os materiais, enquanto o quilo da lata de aço é vendido a R$ 0,20, o quilo da lata de alumínio pode valer até R$ 3. O valor de revenda só é menor do que o cobre e o bronze, que custam em média R$ 12 e R$ 5, respectivamente.
| OBJETO | VALOR (kg) |
|---|---|
| Lata de alumínio | R$ 2,50 a R$ 3 |
| Lata de aço | R$ 0,20 a R$ 0,25 |
| Papelão | R$ 0,17 a R$ 0,22 |
| Cobre | R$ 10 a R$ 12 |
| Bronze | R$ 5 a R$ 7 |
| Plástico (branco e colorido) | R$ 0,30 a R$ 1,50 |
| Vidro (branco) | R$ 0,03 a R$ 0,08 |
A reciclagem da lata de alumínio no Brasil, ao contrário dos países desenvolvidos, possui uma característica cruel, uma vez que cresce com a falta de oportunidade da população carente. Talvez isso explique porque o País lidera, pelo sexto ano consecutivo, o ranking mundial no setor entre países em que a atividade não é obrigatória por lei. Segundo a Associação Brasileira do Alumínio (Abal) e a Associação Brasileira dos Fabricantes de Latas de Alta Reciclabilidade (Abralatas), em 2006, o Brasil reciclou 94,4% do total de latas de alumínio para bebidas comercializadas em território nacional. As principais fontes de coleta, segundo pesquisas da Abal, foram as cooperativas/associações (58%), seguidas pelos condomínios/clubes (20%), depósitos (13%), escolas (5%), supermercados (3%) e eventos (1%).
A latinha de alumínio é tão valorizada no mercado de reciclagem que, por questão de segurança, muitas cooperativas em Pernambuco evitam estocá-la e comercializá-la, dando preferência a outros materiais que podem ser reaproveitados do lixo. De acordo com o coordenador do programa de geração de renda da ONG Retome sua Vida, Antônio Bezerra, as latas de alumínio geram conflito nas associações porque são visadas por ladrões. "Algumas já foram arrombadas e perderam todo o estoque". O assessor do programa de material reciclável da Cáritas Nordeste 2, Rubem Tavares, explica que os catadores são livres para juntar o metal e vender diretamente aos deposeiros (donos de depósitos), que investem em segurança e têm mais capital de giro. "O mercado de latinha tende a acabar nas associações porque requer muita atenção e infra-estrutura."
A estudante Suzana Dayse, 20, guarda com todo cuidado as latinhas dentro de casa. Há cinco anos, ela ajuda a mãe a recolher materiais recicláveis no bairro onde mora, em Olinda, Grande Recife, e já sabe o lugar que a lata de alumínio ocupa na cadeia da reciclagem e na sua vida. "Todos os materiais são importantes. O papel, o plástico e o vidro me dão de comer todos os dias, mas é a lata de alumínio que permite a gente realizar alguns sonhos, como dar presentes para as crianças da vizinhança no Natal."
COLETA SELETIVA NO PAÍS (EM PESO)

* inclui outros tipos de materiais recicláveis: baterias, pilhas, borracha,
madeira, livros (reutilização), entre outros.
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Publicado em 18/06/2008