Paula Schver
Do JC OnLine
A céu aberto, sob o sol escaldante ou debaixo da chuva, 8 mil catadores pernambucanos deixam diariamente seus lares com uma esperança. Encontrar na catação, em meio ao plástico, papel e vidro, a preciosa embalagem que vai garantir mais que o pão daquele dia. Eles sabem que é juntando a latinha de alumínio que poderão recuperar um pouco da dignidade perdida diante dos olhos da sociedade no momento em que decidiram que seu sustento viria do lixo.
É desse material com status de jóia – uma verdadeira prata do lixo - que Pedro Lima, 33 anos, sobrevive desde garoto. Foi antes mesmo de completar dez anos que o menino começou a freqüentar o ginásio Geraldão, na Zona Sul do Recife. Mas, enquanto a turma jovem dos bairros nobres ia se divertir, o som dos shows não poderia tirar seu foco: catar o máximo de latinhas de alumínio que pudesse. Filho de pai e mãe catadores, Pedro já teve empregos com carteira assinada, mas diz que nunca abandonou seu ofício. "Dependendo de meu desempenho, posso conseguir até mais do que um salário mínimo no fim do mês, mas a um custo alto. É uma vida difícil, puxada; o pior é escutar os xingamentos na rua". Hoje, além de catar, trabalha como flanelinha na Praia de Boa Viagem nos fins de semana, sempre de olho nas latinhas que os banhistas despejam nas ruas.
Os antes sucateiros ou papeleiros, hoje catadores de materiais recicláveis, percebem que um dia de descanso é um luxo a que não têm direito. "O trabalhador cata de manhã pra ter o que almoçar; de tarde, pra jantar; e, de madrugada, pra poder tomar café no dia seguinte", diz José Cardoso, um dos coordenadores do Movimento Nacional dos Catadores no Norte/Nordeste. Não se sabe ao certo há quanto tempo a atividade existe no Brasil, mas estima-se que há 50 anos o homem tira seu ordenado do que se é descartado pela população. São cinco décadas de dívida do Brasil com a classe, como observa o homem de 54 anos de vida e 28 de experiência na coleta. "Ninguém nasce catador, nos tornamos por necessidade, pela falta de inserção social", pontua Cardoso, embora reconheça que, lentamente, mudanças são vistas. "O governo passou a nos enxergar; algumas empresas e pessoas começam a entender nosso trabalho. Mas ainda somos muito discriminados. As pessoas nos vêem no lixo e acham que somos lixo, marginais."
Sem jornada de trabalho definida e pré-disposto aos riscos que a profissão oferece, o catador enfrenta um dia-a-dia suado. Que o diga Elinaldo Luz da Silva, que, ao perder seus pais aos 10 anos, não teve outra opção a não ser catar lixo na rua. Hoje o homem simples de mãos calejadas, após 32 anos de trabalho puxando uma carroça, se orgulha em dizer que seus sete filhos estão crescendo graças ao material encontrado nas lixeiras, porém sem que nenhum siga o caminho do pai. "Incentivo pra que eles não fiquem como eu. Isso não é vida pra ninguém." Em seu trajeto diário, Elinaldo chega a colocar mais de 400 quilos na carroça que arrasta por 30 quilômetros. A rotina é sempre a mesma: às 7h já está pronto pra sair de casa, em Nova Descoberta, Olinda. A catação pelas ruas da Zona Norte do Recife se prolonga durante todo o dia e noite e, por volta das 23h, ele chega ao depósito de materiais recicláveis, em Casa Amarela, onde o quilo da latinha é comprado a R$ 2,60. No fim do mês, Seu Elinaldo contabiliza R$ 200. "Eu queria deixar essa vida. Procuro emprego, tenho documentos, mas não aparece nada", queixa-se.
A árdua vida da catação também despertou em Suzana Dayse, 20 anos, moradora de Bairro Novo, Olinda, o desejo de trilhar novos caminhos. O primeiro passo ela já deu. Está completando o ensino médio e, ano que vem, quer prestar vestibular para assistência social. “Valorizo a catação porque é o que me sustenta. Mas quero dar uma condição melhor a minha mãe, que já ficou três meses em cima de uma cama por causa desse trabalho”, desabafa a jovem, que, após recolher em uma manhã o lixo de 13 casas, um edifício, uma escola e um estabelecimento comercial, calcula que o material acumulado será trocado por R$ 25.
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Publicado em 18/06/2008