Prata do Lixo

ASSOCIAÇÕES

Catadores se unem para ganhar força

A união faz a força e, no caso dos catadores, também conquista direitos. Organizada em associações e cooperativas, a categoria tem, aos poucos, garantido seu espaço na cadeia da reciclagem e da coleta seletiva do País. Em geral, a profissionalização desses trabalhadores vem acompanhada de capacitações sobre o meio ambiente e noções básicas sobre cidadania. Muitos encontram nas entidades a chance de iniciar ou retomar os estudos e outros, que não tinham sequer certidão de nascimento, conseguem tirar o primeiro documento de identificação de suas vidas, passando a existir oficialmente para o Estado e a sociedade. "Tem gente que chega aqui sem ler, escrever ou até mesmo sem saber direito o dia em que nasceu", revela Roberta de Santana, responsável pelo setor administrativo da PRO-Recife. A cooperativa orienta como tirar os documentos e disponibiliza a declaração de estado de pobreza para emissão da 2ª via da certidão. "É o catador prestando serviço ao catador."

Quando estão em grupo, eles também sentem a diferença no bolso. "Antes eu vivia nas mãos dos deposeiros, que me emprestavam a carroça com a condição de dar exclusividade na venda dos materiais, ao preço deles. Agora, na associação, consigo ter um pouco mais de dinheiro no final do mês e, o mais importante, a minha liberdade", relata Paulo Ferreira, 48 anos. Para uma das coordenadoras do Fórum Lixo e Cidadania de Pernambuco (Flic/PE), Alice Domingues, a proliferação dos deposeiros enfraquece o movimento dos catadores, além de representar a exploração da mão-de-obra da categoria. "Os depósitos clandestinos não pagam impostos, ditam o preço do material e forçam o catador a trabalhar em regime de escravidão. É algo que precisamos combater", defende.

"É necessário valorizar as associações e estimular a organização dos catadores para que eles consigam melhores preços no mercado", completa o diretor executivo do Compromisso Empresarial para Reciclagem (Cempre), André Vilhena. De acordo com Ranúzia Vieira, conselheira fiscal voluntária da Associação dos Protetores do Meio Ambiente (Asproma), em Caruaru, no Agreste de Pernambuco, trabalhar em equipe garante ainda ao catador mais segurança e local para guardar o material reciclável, bem como estrutura de apoio, como caminhão ou carroça para transportar a carga. "A associação também mantém contato com condomínios e atinge diretamente as empresas. O catador sozinho dificilmente conseguiria isso", salienta.

REIVINDICAÇÕES DA CATEGORIA

Erradicar o trabalho infantil na atividade, acabar com os lixões e estimular a organização dos catadores são algumas das principais bandeiras levantadas pelo Movimento Nacional de Catadores de Materiais Recicláveis
CONQUISTAS
A pressão exercida pelos catadores já começa a surtir efeitos no mercado da reciclagem. Um deles foi constatado no Carnaval deste ano. Grande parte das fábricas de cerveja e refrigerante passou a adotar a lata de aço no lugar da de alumínio visando uma redução do custo final do produto, mas o Movimento Nacional de Catadores vem se posicionando contra essa mudança sob o argumento de que ela interfere na renda de muitas famílias. Em 2007, a Prefeitura do Recife decidiu apoiar a categoria e realizou a campanha "Jogue Limpo", incentivando a indústria a deixar de comercializar a lata de aço. "A AmBev, empresa que venceu a licitação na cidade, assumiu o compromisso de, durante a folia, produzir todas as marcas com lata de alumínio", conta o gerente de coleta seletiva da Empresa de Manutenção e Limpeza Urbana (Emlurb), André Penna. A iniciativa deu tão certo que prefeitura pretende repeti-la nas festas do próximo ano. "Essa atitude responsável das empresas certamente vai influenciar no processo de licitação", avisa.

COLETA SELETIVA NO RECIFE

  •  Programa de coleta porta a porta 45 bairros atendidos nas seis RPAs
  •  Pontos de Entrega Voluntária - PEV 117 conjuntos de PEV implantados na Cidade
  • Coleta através de doações Caminhão tipo baú coleta doações acima de 500 kg
  • Coleta através dos catadores 150 catadores em capacitação e quatro núcleos inaugurados

Mais informações pelo telefone:
(81) 3232.1070

Atualmente, cerca de 95% das bebidas vendidas em latas no País já utilizam a embalagem de alumínio. "Menos de 3% das latas da AmBev são de aço", confirma a gerente de meio ambiente nacional da companhia, Beatriz Oliveira. A AmBev também apóia associações de catadores. "O Reciclagem Solidária é um programa de formação para a sustentabilidade, por isso o foco são os treinamentos em gestão para que cada grupo aprenda a gerir seu próprio negócio", explica. Ao todo, 36 grupos de nove estados foram beneficiados. Em Pernambuco, a Cooperativa Mista de Serviços do Cabo de Santo Agostinho recebeu uma prensa hidráulica, balança eletrônica e acompanhamento mensal de técnicos. "Com a informação e o equipamento que recebemos pudemos agregar valor ao material", diz o presidente Nivaldo Batista. No Grupo Schincariol, quase 100% da produção de bebida envasada em lata é feita na embalagem de alumínio. "Existe o apelo de mercado e apresentação do produto, mas também existe a preocupação com a reciclagem e o meio ambiente", ressalta o diretor industrial, Gino Di Domenico. A companhia não possui programa específico de reciclagem, mas afirma que está iniciando parcerias com entidades de catadores.

LEIS
A legislação brasileira possui alguns exemplos de formalização de políticas públicas com o objetivo de contribuir para a inclusão social e econômica dos catadores de materiais recicláveis. Uma delas é o Decreto nº 5.940/06, que institui a separação dos resíduos recicláveis descartados pelos órgãos e entidades da administração pública federal e a sua destinação às associações e cooperativas dos catadores. Outro avanço é a Lei nº 11.445/07, que modifica a lei de licitação (nº 8.666) e permite a participação de associações de catadores em licitações de limpeza urbana. O município de Olinda, no Grande Recife, por exemplo, não possui coleta seletiva, mas apóia dois núcleos de triagem de material reciclável. "O custo da coleta seletiva é muito caro. Por isso, vamos implementar ainda este ano o programa na cidade em parceria com as associações, ampliando para cinco o número de núcleos em funcionamento", anuncia o diretor de limpeza urbana de Olinda, Vassil Vieira.

Outra boa notícia: o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), em sua vertente voltada para os resíduos, prevê financiamentos para que as prefeituras disponibilizem galpões de triagem para cooperativas de catadores. Ao todo, serão R$ 50 milhões entregues a 130 municípios para a viabilização de 150 galpões de triagem já equipados com carrinhos, balança, prensa e empilhadeira, num esforço para estimular a coleta seletiva com a geração de emprego e renda. (J.M.)

  COOPERATIVA ASSOCIAÇÃO
  Sociedade de pessoas Sociedade de pessoas
Objetivo Prestação de serviços econômicos ou financeiros Realizar atividades assistenciais culturais, esportivas, filantrópicas, etc.
Constituição Minímo de 20 cooperados Não existe um nº mínimo para sua constituição
Voto Direito a um voto Direito a um voto
Pagamento Os cooperados subscrevem quotas-partes para formar o capital da Cooperativa Os cooperados pagam uma mensalidade para sua manutenção
Lucro Pode gerar sobras Não gera excedentes
Legislação Legislação própria
Lei Federal nº 5764/71
Regulamentada pelo Código Civil - O Novo Código Civil"
Registro Registrada na Junta Comercial do Estado Registrada no Cartório de Registros de Títulos e Documentos do município
onde ela estiver localizada
Fonte: Sebrae

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Publicado em 18/06/2008