Para os catadores de latinha de alumínio, o inimigo mora na casa ao lado, na escola do filho, no bar da esquina... e atende pelo nome de concorrência. "Hoje quem está na rua puxando uma carroça pode não ser catador, mas apenas estar fazendo um bico para aumentar a renda", aponta Antônio Bezerra, coordenador do programa de geração de renda e meio ambiente da ONG Retome sua Vida. Segundo Raja Litwinoff, da mesma organização, pelo valor que a latinha de alumínio tem no mercado, é hoje tão visada que desperta o interesse de pessoas com emprego fixo. "Nos condomínios, os zeladores já apanham as latinhas antes de mandá-las pelo caminhão de limpeza; os garçons fazem os mesmo nos restaurantes, e as domésticas, nas casas das patroas."

O produto, diz Antônio Bezerra, se tornou alvo de desejo da população a ponto de o material sequer chegar aos lixões. "Elas são recolhidas antes de chegarem à lixeira. Nos lixões, a proporção é de uma lata de alumínio para cem de aço. E isso acontece porque alguém deixou ela passar por descuido; não percebeu que se tratava de alumínio." A concorrência dos "catadores esporádicos" não é vista com bons olhos pela imensa população que vive da caça à embalagem. "Muitos já têm seu salário garantido no fim do mês. Deveria haver uma conscientização para que separassem a latinha e a deixassem para o catador", avalia José Cardoso, presidente da cooperativa PRO-Recife.

A disputa chega até os garis das empresas de limpeza urbana. Nos caminhões, eles já deixam sacolas a tiracolo para triar as latinhas de alumínio encontradas durante o trabalho. O gerente de Coleta Seletiva da Empresa de Limpeza Urbana do Recife (Emlurb), André Penna, esclarece que os garis são sensibilizados para não separar o material. "Nossos caminhões são controlados por GPS, mas não temos como fiscalizar os funcionários. É impossível." Enquanto isso, os eventuais catadores - que aproveitam festas com grande concentração de gente ou seu ambiente de trabalho para pescar o produto e garantir um extra - acreditam que não estão tirando o serviço dos outros. É o caso da doméstica Maria Antônia de Souza, que há 14 anos tem o mesmo emprego. "A latinha de alumínio que separo me rende uns R$ 10 por mês. É com esse dinheiro que compro o leite e faço a papa do meu neto de 2 anos."
ECOCELPE
Um importante capítulo na história dos catadores foi escrito em fevereiro deste ano, quando a Companhia Energética de Pernambuco (Celpe) implantou o Ecocelpe, projeto que troca material reciclável por desconto na conta de energia. Entidades formadas por catadores protestaram pedindo o fim do programa, que, segundo eles, acaba com o trabalho dos profissionais para oferecer um crédito de centavos à população.
Órgãos públicos, como a Secretaria de Ciência, Tecnologia e Meio Ambiente do Estado (Sectma), também exigem o término do Ecocelpe. Para o gerente de Política Ambiental da Sectma, Rodolfo Aureliano Filho, a Celpe é uma empresa de origem pública que tem licença do Estado para vender energia e não comprar lixo. "Posando de uma companhia muito consciente e preocupada com o meio ambiente, a Celpe chega para a população carente e diz: Se você me pagar com lixo, eu aceito. Com isso, incentiva descaradamente o homem pobre a botar os filhos pra catar lixo, indo de encontro a um esforço mundial da Unicef para tirar os meninos do lixão." Aureliano completa: "Havia empresas que juntavam o lixo e doavam para os catadores. Agora elas dizem que não vão mais dar porque o material vai reduzir a conta de energia. A Celpe está criando novos catadores, e o Ministério Público está calado. É preciso exigir que ela pague uma indenização pela besteira que fez que foi botar a criança no lixão, criando um caos social."
O gestor de Marketing da Celpe, João Bosco Leal, diz que o projeto surgiu da necessidade da população que vive em bairros carentes. "Nós não queríamos mexer num mercado já formado, tanto que nosso foco eram as comunidades onde os catadores não chegavam. A idéia não é competir com eles, é apenas dar destinação ao lixo que ia parar nos canais." Para Leal, a opinião dos que estão contra o Ecocelpe é equivocada. "Hoje temos 1.003 clientes cadastrados no projeto, coletamos 68 toneladas e distribuímos R$ 8.700 em bônus para uma grande maioria de consumidores de baixa renda. De alumínio recebemos apenas 53 quilos, o que equivale a R$ 107. O valor que pagamos é 50% abaixo da tabela para não haver competição." O gestor ainda anunciou que, a partir do mês de julho, a Celpe inicia projeto piloto para incentivar os condomínios a abrirem suas portas e doarem o lixo para grupos de catadores organizados. (P.S.)
| MATERIAL | MERCADO | ECOCELPE |
|---|---|---|
| Lata de alumínio | R$ 2,50 a R$ 3 |
R$ 1,80 |
| Lata de aço | R$ 0,20 a R$ 0,25 | R$ 0,15 |
| Papelão | R$ 0,17 a R$ 0,22 | R$ 0,12 |
| Bronze | R$ 5 a R$ 7 | R$ 2,50 |
| Vidro | R$ 0,03 a R$ 0,08 | R$ 0,02 |
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Publicado em 18/06/2008