O catador Gabriel Silva, 37 anos, não sabe, mas presta um importante papel para a sociedade e para o meio ambiente cada vez que sai de casa com a carroça para recolher papel, plástico, vidro ou metais pelas ruas de Casa Amarela, no Recife. "Faço isso para alimentar minha família. Nunca pensei na natureza não", admite. Segundo levantamento de Indicadores de Desenvolvimento Sustentável 2008 (IDS), divulgado no mês de junho pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), essa falta de informação é mais comum do que se imagina. A pesquisa revela que o maior reaproveitamento do lixo domiciliar se deve ao fato de ser fonte de rendimento para uma parte da população do que à consciência ambiental voltada para a coleta seletiva e reciclagem.
Em geral, catadores autônomos como Gabriel, que nunca freqüentou uma escola e é analfabeto, não receberam nenhum tipo de formação sobre o assunto. Alguns, inclusive, na ânsia pelos materiais recicláveis, abrem sacos de lixo encontrados nas áreas residenciais e acabam deixando ao ar livre, nas calçadas, tudo aquilo que não lhes interessa, gerando conflito com moradores. "Tínhamos decidido manter o depósito de lixo fechado com cadeado para evitar a bagunça desse pessoal", lembra o advogado Nelson Freitas, síndico de um condomínio de luxo da beira-mar de Bairro Novo, em Olinda, Grande Recife. A relação com os catadores mudou quando o prédio passou a integrar a lista de "clientes" de um grupo de catadores organizados. "Eles nos procuraram e ofereceram o serviço de coleta seletiva. Hoje separamos o material que iria para os aterros e doamos para eles. Todo mundo sai lucrando no final das contas", ensina Freitas.
Essa lição também faz parte há dois anos do cotidiano dos alunos de 5ª à 8ª séries do Colégio Atual, localizado no mesmo bairro. A iniciativa, nascida com o projeto Olinda Melhor, tem o objetivo de sensibilizar a comunidade escolar para a coleta seletiva, destacando a importância da função dos catadores de lixo. A conscientização se dá na sala de aula e também nas ruas, com a realização de passeata e distribuição de panfletos. "As crianças e adolescentes levam a informação para casa e acabam envolvendo toda a família", observa a coordenadora do projeto, Augusta Amazonas. "Toda semana, minha avó separa os materiais para mim", confirma a estudante Tânia Mara Ruppbourbom, 11.
Os jovens são estimulados a levar o material para a escola, onde ele é reunido em tonéis e doado semanalmente para o Grupo Esperança na Reciclagem. "Ganhamos blusa, luvas e a confiança dos moradores", ressalta a catadora Suzana Dayse, 20, que também recolhe o material diretamente nas casas de alguns alunos do colégio.
PROFISSIONALIZAÇÃO
Para um dos coordenadores do Movimento Nacional de Catadores de Materiais Recicláveis do Norte/Nordeste, José Cardoso, o nível de conscientização da categoria sobre o assunto tem aumentado com o fortalecimento das associações e cooperativas em todo o País. "Os catadores organizados participam de capacitações regulares. Aos poucos, vêm desenvolvendo uma consciência ambiental adequada". Prova é que algumas entidades já começam a expor no próprio nome a filosofia do trabalho que realizam para a natureza. "Nós somos parte do meio ambiente, vivemos dele e lutamos para sua preservação", conta Edoaldo de Souza, mais conhecido como Edson, diretor presidente do Núcleo de Triagem da Imbiribeira, que vai passar a se chamar em breve Associação de Catadores O Verde é a Nossa Vida.
"Antigamente nós mesmos éramos mal educados. Agora somos nós que ensinamos a população", completa a presidente da Associação dos Catadores de Papel, Papelão e Material Reaproveitável Nova Vida (Asnov), Núbia Bezerra. O movimento só não aprova o título de agente ambiental defendido por algumas ONGs. "É um nome bonito, mas esconde o que somos de verdade: catadores. Temos orgulho disso", destaca José Cardoso. Ele lembra que a maioria das entidades de catadores de Pernambuco atende em domicílio, fazendo a coleta seletiva com regularidade. Escolha aqui a que fica mais perto de sua casa e faça a sua parte. (J.M.)

Mais de 80 prédios residenciais, 15 empresariais e 10 escolas já aderiram ao projeto, desde sua criação, em 2003. O Edifício Ecológico - produto da tese de mestrado em desenvolvimento urbano realizado pelo americano Mark Burr na Universidade Federal de Pernambuco - visa a implantar a coleta seletiva nos prédios do Grande Recife. Com o apoio da Associação Meio Ambiente Preservar e Educar (Amape), o projeto atua inicialmente na conscientização educacional dos serventes, empregadas domésticas, crianças e demais moradores. Em seguida, é repassada a logística da coleta seletiva. Quatro entidades de catadores são responsáveis pelo recolhimento do material, realizado de duas a três vezes por semana. O projeto tem um custo fixo simbólico apenas para cobrir despesas com serviço e materiais (baldes). O preço varia entre R$ 35 e R$ 65 de acordo com o número de andares e apartamentos do edifício. Mais informações pelo telefone: (81) 3265.1704 ou e-mail: markburr3@yahoo.com.br
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Publicado em 18/06/2008