A novela Páginas da Vida emocionou o País ao mostrar o preconceito de uma avó que rejeitou a neta Clara, com Síndrome de Down, tipo de deficiência que acomete 300 mil brasileiros e se manifesta em uma a cada 600 gestações. Os olhinhos puxados, característica da síndrome, ressaltam apenas uma das deficiências mentais atendidas pela Apae-Recife (Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais). Diariamente a entidade recebe pais que não conseguiram matricular seus filhos em escolas regulares, drama pelo qual passou a mãe da personagem da atração global. Se as unidades de ensino que, segundo o Ministério da Educação, têm obrigação de receber estudantes especiais, rejeitam os pequeninos desde cedo, imagine o mercado de trabalho?! “As famílias acabam protegendo demais seus filhos, com medo que sofram preconceito em lugares que não estão preparados para recebê-los”, afirma a coordenadora pedagógica da Apae, Silvania Paiva.
A entidade oferece tratamento clínico e formação escolar às pessoas com deficiência mental há mais de 40 anos, mas só agora resolveu apostar em um projeto voltado para a qualificação e inclusão dos seus alunos no mercado. “Em parceria com o Senai (Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial), oferecemos um curso de panificação para 40 dos nossos estudantes com idades acima de 14 anos”, afirmou Silvania. O curso deu tão certo que a Apae resolveu ampliar a parceria, além de criar um programa de educação profissional exclusivo. “Primeiro vamos começar aproveitando o potencial dos nossos alunos na própria entidade. Depois vamos levantar o perfil desejado pelas empresas para focarmos em cursos que vão atender exatamente a essa demanda”, disse, otimista, a coordenadora pedagógica.
“Os sistemas de ensino devem matricular todos os alunos, cabendo
às escolas organizar-se para o atendimento aos educandos com necessidades educacionais
especiais, assegurando as condições necessárias para uma educação
de qualidade para todos”
Resolução do Conselho Nacional de Educação
Três alunos da Apae foram contratados recentemente pela
multinacional McDonald's através do programa Quebrando Barreiras.
Este é o primeiro emprego deles que, além da carteira
assinada, terão benefícios como plano de saúde
e vale-transporte. Cerca de 50% das lanchonetes da rede têm em
seu quadro portadores de necessidades especiais. Para Silvania, o exemplo
da McDonald's é louvável, já que a maioria das
empresas rejeita a pessoa com deficiência mental por achar que
nunca poderá desenvolver qualquer tipo de atividade. “É
claro que existem limitações, mas nada que os impeça
de ter uma vida produtiva. Porém algumas exigências são
impossíveis de serem alcançadas”, critica. A carga
horária diferenciada de seis horas também é um
incentivo. Os alunos da Apae-Recife estudam pela manhã e trabalham
à tarde.
A Apae oferece gratuitamente atendimento clínico e escolar para crianças e jovens com deficiência mental. Atualmente 300 alunos estudam na unidade do Recife, distribuídos nos ensino fundamental e médio e EJA - Educação de Jovens e Adultos. Cerca de 40 estão na lista de espera. De acordo com Silvania, a entidade procura incentivar os pais na busca de escolas regulares, mas ainda há resistência. “Uma criança ou adolescente que vive no meio de crianças consideradas 'normais' só tem a progredir mais, porém muitos chegam aqui exatamente porque seus filhos foram rejeitados em escolas regulares”, lamenta.
O número de alunos por turma também influencia a decisão dos pais. Nas salas de aula da Apae, há no máximo 12 estudantes, o que permite uma atenção diferenciada do professor. “É preciso observar os mínimos detalhes. Um professor que vai trabalhar com educação especial deve investigar sempre e saber que cada criança é diferente da outra, mesmo que tenha a mesma deficiência do outro. Cada aluno deve ser avaliado individualmente”, reforça. (I.C.)
Como colaborar
A Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (Apae)
é uma associação sem fins lucrativos que atua em todo o Brasil, com mais de duas mil unidades. Em Pernambuco, existem sete. Além de oferecer estimulação precoce para crianças com idades entre 0 e 3 anos, a associação tem escolas que recebem alunos a partir de cinco anos. Os estudantes ainda recebem apoio clínico, com fonoaudiologia, fisioterapia, assistência social e psicológica. O atendimento é gratuito.
A entidade é mantida através de parcerias com os governos federal, estadual e municipal, além de doações de empresas. Qualquer pessoa pode colaborar através do telefone (81) 3426.5556.