Quando descobriu que a filha de apenas três meses nunca poderia ouvir, Maria dos Milagres tomou uma importante decisão. Iria tentar dar uma vida normal à menina, Rosemary Aguiar, hoje com 22 anos. Embora a decisão possa parecer a mais natural, não é assim que acontece com a maior parte das famílias que têm em casa pessoas com necessidades especiais. “A família, muitas vezes, é quem mais exclui. Acha que não é necessário freqüentar a escola, muito menos trabalhar”, diz a assistente social Rosângela Alves. “Mas, quando os filhos mostram que são capazes, os pais passam a respeitá-los como seres humanos”.
No pacato sítio onde mora, às margens da BR-135, em São Luís, Rosemary exibe os livros do curso integrado de eletro-eletrônica. Estudar, para ela, tem tanta importância quanto o apoio que recebe em casa. “Eu sou muito feliz. A família precisa ajudar o filho surdo e acreditar que ele é capaz”, aconselha a garota, que pretende fazer faculdade e diz que quer crescer profissionalmente. O desempenho da filha é motivo de orgulho para Maria dos Milagres, que sabe que foi parte fundamental deste processo. “O único bem que tenho para deixar para ela e que ninguém pode tirar é o estudo”. Rosemary está estagiando em uma das maiores empresas do Maranhão, a Alumar, como Menor Aprendiz.
Como toda criança, até os 13 anos, Benedito Lauro só queria brincar. Morava no município de Cururupu, no interior do Maranhão, quando, ao cair de uma mangueira, fraturou o braço direito em três partes e teve que amputá-lo. Precisou aprender a fazer tudo com o braço esquerdo e mais: lidar com o seu próprio preconceito. Benedito se mudou para São Luís e começou uma nova vida, depois de ficar mais de um ano recluso. A mãe do jovem, Dona Laura Souza, procurava incentivar o filho. “Dizia pra ele que não tivesse vergonha, que várias pessoas tinham o mesmo problema e que o mais importante era a vida dele.”
O apoio familiar foi decisivo. Benedito cursou o ensino médio e fez computação. Trabalhou cinco anos em uma locadora de vídeo e hoje é funcionário da loja Gabryella, onde, há três meses, atua como operador de telemarketing. “Como tenho apenas um braço, as pessoas ficam impressionadas com a minha rapidez na hora de digitar”. O salário que ganha ajuda a sustentar os parentes - a avó, mãe, irmã e sobrinhos. (G.B. e I.C.)