Agro-industrial por vocação, o Estado do Maranhão tem sua economia alavancada pelo setor de exportação, concentrado em duas grandes empresas: a Companhia Vale do Rio Doce e a Alumar, filial da multinacional Alcoa. Exportadoras de alumínio e derivados, ambas desenvolvem programas voltados para empregabilidade de pessoas com necessidades especiais. Rosileide de Jesus Rocha, 31 anos, passou pelas duas empresas em momentos diferentes. Trabalhou na Vale antes de perder a perna em 1992 por causa de um câncer e hoje é assistente administrativa da Alumar, cargo que ocupa dentro do sistema de cotas. “Entre uma e outra, fiquei muito tempo desempregada, exatamente por causa da minha deficiência”, lamenta.
Empresas locais de menor porte também procuram cumprir a determinação, atentas não apenas ao frio preenchimento das cotas. É o caso da rede maranhense de supermercados Mateus. A empresa, há 20 anos em atividade, preocupa-se em integrar deficientes físicos, auditivos, visuais e mentais no seu quadro funcional, em áreas distintas. Ao serem admitidos, os funcionários regulares e especiais recebem treinamento específico para aprender a lidar com as diferenças. Como a empresa possui dois tipos de carga-horária (6 e 8 horas), a coordenadora de Recursos Humanos, Mara Pereira da Silva, explica que, na hora de contratar um deficiente, procura encaixá-lo justamente no horário menor.
Para melhorar a comunicação entre os funcionários, a rede de supermercados pretende oferecer, ainda este ano, um curso de Linguagem Brasileira dos Sinais (Libras) para os colaboradores regulares. O exemplo do supermercado repercute bem entre os clientes, que nem sempre percebem que estão sendo atendidos por um portador de necessidades especiais. Algumas vezes, no entanto, é preciso intervenção. “Houve o caso de uma cliente que não percebeu que estava falando com um surdo e ficou muito irritada. Foi quando outro funcionário explicou que a empresa trabalhava com inclusão social. Mas isso é raro”, afirma.
O auxiliar admnistrativo Mauro Dias, 30, e a embaladora Maria de Jesus Carvalho, 19, fazem parte dos mais de 100 funcionários portadores de necessidades especiais do supermercado. No caso de Mauro, se não fosse pela cadeira de rodas, poucos perceberiam que é portador de deficiência física. Em outras oportunidades, já trabalhou como frentista e cobrador de ônibus. Ele ressalta a necessidade de estudar para conquistar a tão sonhada vaga no mercado de trabalho. “A qualificação é importante para que a gente não entre na empresa como um simples deficiente”. O trabalho ajuda Maria de Jesus a superar as limitações impostas pelo déficit de aprendizagem. “Sei ler e escrever, mas tenho dificuldades. Com o trabalho, exercito a leitura e também é bom para a auto-estima”, diz a jovem, enquanto embala os produtos da loja. Maria está na 4ª série do ensino fundamental.
Os setores de recursos humanos das empresas, no entanto, são
unânimes em afirmar que não é fácil encontrar
mão-de-obra especializada para preencher as vagas disponíveis.
“Hoje estou com dificuldades para ocupar dois postos. Muitos deles
[deficientes] não são qualificados. Às vezes, têm
o ensino médio, mas não têm curso de informática”,
reclama a analista de RH das Lojas Gabryella, Daniele Moreira. Mara
Pereira reforça: “Se vamos contratar um deficiente para
auxiliar de caixa e ele não tem nem o primeiro grau, vamos travar
esse profissional, que não poderá construir uma carreira
na empresa. E não é isso que a gente quer.”
A Alumar criou em 1995 o programa Superar, que não apenas contrata pessoas
com necessidades especiais, mas também busca capacitá-las, além de adaptar
o ambiente de trabalho para recebê-las. Atualmente, dos mais de 1.800
funcionários da empresa, 100 possuem algum tipo de deficiência. Para
vencer o obstáculo da falta de qualificação, foram desenvolvidas ações
para treinar os futuros operadores, através de uma parceria com o Programa
Senai de Ações Inclusivas (Psai). O programa de formação básica dura
90 dias.
RESPONSABILIDADE DE TODOS - Os cursos técnicos
de montagem e manutenção de micro e o de mecânica
não foram suficientes para que Lauerberty Reis Sousa, 21, trabalhasse
na área para a qual foi qualificado. Surdo desde que nasceu,
está há quatro meses empregado na Construções
e Estruturas Metálicas (CEM) como operador de fotocópia.
“Gostaria muito de trabalhar na minha área, mas atualmente
acho difícil”, diz o jovem, que confessa ainda sentir dificuldade
em se comunicar com os demais funcionários da empresa. [Lauerberty
deixa mensagem em vídeo
para
outros alunos que, como ela, têm algum tipo de deficiência.]
A exigência legal termina levando muitas companhias a buscar as vagas para deficientes sem qualquer critério. O diretor do Senai Maranhão, uma das entidades que qualificam esses profissionais para o mercado, mostra-se preocupado com a questão. “Já esperávamos essa demanda em caráter imediatista. É algo que nos deixa muito apreensivos, pelo fato de colocar essas pessoas em um mercado muitas vezes despreparado para assumir tamanha responsabilidade”, desabafa. Para Elito Hora, só há vantagens para o empregador. “Existem grandes ganhos pela capacidade que eles têm de superação. São pessoas guerreiras em todos os sentidos. Buscam superar suas deficiências com eficiência.” (G.B. e I.C.)