Quando a acessibilidade urbana é colocada em debate, o transporte público é citado pelas pessoas com deficiência entrevistadas neste especial como uma das principais dificuldades de locomoção no dia-a-dia, perdendo apenas para as calçadas esburacadas. O número insuficiente de linhas com ônibus adaptados e os assentos reservados nos coletivos são as queixas mais comuns. "Os ônibus com elevador demoram muito e não estão disponíveis em todas as linhas. Para não me atrasar na escola, pego qualquer um e, aí, tenho que ser carregado", reclama o cadeirante Robson Marinho, 19 anos. Já André Damião, que é cego, não aprova a transferência da catraca para a parte dianteira dos ônibus do Grande Recife, realizada em 2003. "O espaço é pequeno, quase sempre está lotado e eu acabo me sentindo discriminado."
A responsável pela constituição do Comitê de Acessibilidade da Empresa Metropolitana de Transportes Urbanos (EMTU), Fernanda Gouveia, admite que a quantidade de linhas com ônibus adaptados ainda não é ideal, mas ressalta que vem sendo ampliada desde que o Serviço Especial de Transporte (SET) foi criado, em 2000. Da atual frota de 2.700 coletivos que circulam pela Região Metropolitana do Recife, 48 veículos de 45 linhas diferentes são adaptados. As linhas, de acordo com a EMTU, são selecionadas levando em consideração os principais corredores de transporte. O modelo de ônibus adotado pelo SET, com elevadores na porta central para facilitar o acesso das pessoas que utilizam cadeira de rodas, é tido como uma boa iniciativa, mas os conselhos municipais e entidades de defesa defendem a utilização dos veículos com piso rebaixado. “É um equipamento mais caro, que precisa de vias adequadas, sem buracos, para funcionar bem.”;
Fernanda acredita que a acessibilidade no transporte coletivo passa pela questão tarifária. “Os ônibus adaptados são mais caros e também há o custo das gratuidades. Qualquer ampliação da frota do SET pode resultar em aumento da passagem para o usuário”. Ela revela que soluções estão sendo debatidas durante reuniões do Fórum de Conhecimento no Transporte Público, criado para discutir o Consórcio de Transporte Metropolitano - novo modelo de gestão do sistema de ônibus, que passará a ser compartilhado entre Estado e municípios.
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Algumas mudanças já começaram a ser colocadas em prática. Os terminais de ônibus, por exemplo, passam por obras de adequação para atender aos critérios de acessibilidade estabelecidos pela Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT). “Cerca de 11 terminais localizados próximos às estações do metrô serão construídos ou ampliados dentro das normas”, informa o arquiteto Eduardo Almeida, responsável pela construção e readequação dos terminais. As obras prevêem travessia de pedestre elevada na altura da calçada, piso tátil de alerta, sanitários para deficientes físicos e plataforma elevada, facilitando o acesso dos usuários ao coletivo.
CONSCIENTIZAÇÃO - Para a cadeirante Cosma Bezerra, é necessário também realizar capacitações entre os motoristas e cobradores. “Eles não estão preparados para operar os ônibus adaptados. Certa vez, quase quebrei meu pé quando ele ficou preso no elevador”. Segundo Ivana Cafundé, da área de Planejamento e Estudo de Demanda da EMTU, o órgão não é responsável pelo treinamento do pessoal de operação. “Cabe às empresas fazerem esse treinamento. A EMTU, dentro do seu papel, está acompanhando e cobrando essas ações”, garante. Campanhas educativas também são realizadas com regularidade a fim de conscientizar os usuários de ônibus sobre a necessidade de respeitar os assentos reservados nos coletivos para pessoas com deficiência, além de idosos e gestantes. Denúncias sobre o mau uso do transporte público devem ser encaminhadas à Central de Atendimento ao Cliente no 0800.810158. (J.M.)