LIMITES FORMAÇÃO & TRABALHO

JC ONLINE - Especial Multimídia
JC ONLINE - Série de Reportagens - LIMITES FORMAÇÃO & TRABALHO

Acessibilidade atitudinal Preconceito, a principal barreira

Foto: Julliana de Melo
André Damião
Com material impresso em braile escasso, deficientes visuais, como André Damião, terminam sem acesso à informação

Áudios


Leia mais

Ao contrário do que muita gente pensa, a maior barreira na inclusão das pessoas com deficiência não é a arquitetônica. A dificuldade de comunicação e o preconceito da sociedade também acabam afastando milhares de brasileiros do convívio social e das oportunidade de educação, lazer, cultura e trabalho. “Mais de 17% da população de Pernambuco é formada por pessoas com deficiência. Onde estão essas pessoas?”, questiona o secretário executivo do Conselho Municipal de Defesa dos Direitos da Pessoa com Deficiência, Anderson Tavares. Muitos, como o jovem Rubens Santos, 23 anos, largaram os estudos antes de terminar o ensino fundamental e saem pouco de casa. “Ele é discriminado por ter Síndrome de Down. Já fomos mal-tratados em restaurante ou cinema só porque ele estava falando alto”, relata a mãe, Joana Santos.

A vida da monitora de matemática do Centro Suvag de Pernambuco Betiza Botelho, 38, também está marcada por cenas de desrespeito e discriminação. Apesar de ter conseguido concluir os estudos e arrumar um emprego, ela não ficou livre do preconceito. “Fui assaltada uma vez e não consegui prestar queixa porque ninguém entendia o que eu estava falando. Ainda ficaram rindo de mim”, lembra Betiza, que é surda. Para os deficientes auditivos, a acessibilidade passa mais pela necessidade de comunicação. O office boy Geraldo Gomes, 57, reclama da falta de intérpretes da Linguagem Brasileira de Sinais (Libras) em serviços essenciais como hospitais, postos de saúde e delegacias. “Quando preciso ir ao médico, tenho que ir com meu filho. Caso contrário, não consigo ser atendido direito”, ressalta.

Atualmente, existem diversos programas que permitem que pessoas com deficiências (as mais variadas) se utilizem dos recursos que o computador oferece. Essas ferramentas podem constituir leitores de ecrã para deficientes visuais, teclados virtuais para portadores de deficiência motora ou com dificuldades de coordenação motora, e sintetizadores de voz para pessoas com problemas de fala. O Windows XP, por exemplo, oferece alguns itens de acessibilidade, como lente de aumento e teclado virtual. Basta ir em programas, acessórios e acessibilidade. Confira, abaixo, outros links que facilitam o acesso das pessoas com deficiência ao mundo digital:


Para navegar:

A entrevista com Betiza e Geraldo foi intermediada pela coordenadora pedagógica do Centro Suvag, Lúcia Inês de Sá Barreto. Segundo ela, o intérprete dentro da sala de aula é fundamental para a qualificação do deficiente auditivo. “Com o intérprete, os surdos avançam e chegam à faculdade. Aqui do Centro, 22 estão formados”, ressalta. O decreto federal 5626 Link externo (2005) assegura a educação de surdos em todas as unidades de ensino e, segundo Lúcia, as escolas têm cumprido a legislação, oferecendo intérpretes e instrutores em Libras. “É preciso sensibilizar a população de que a língua dos sinais é a língua natural dos surdos”. O JC OnLine procurou por diversas vezes a Secretaria de Educação do Recife para saber mais sobre o assunto, mas não obteve retorno.

No caso dos deficientes visuais, o presidente da Associação Pernambucana de Cegos (Apec), Antônio Muniz, diz que a capacitação profissional fica comprometida se os livros não tiverem opções em braile ou em CD e disquete para o conteúdo ser acessado através de software de leitura de voz no computador. “Em Pernambuco, existem apenas cerca de 30 impressoras de braile. No interior, a situação é pior; só existem em Garanhuns, Caruaru, Petrolina e Arcoverde”, revela. Essas impressoras estão localizadas em escolas e centros de reabilitação, mas muitas estão sem uso por falta de manutenção ou de pessoal qualificado para operar. “A maioria das impressoras está parada. Faltam pessoas que saibam mexer e, às vezes, tem a impressora, mas não tem computador”, denuncia o deficiente visual André Damião, 28.

CAPACITAÇÃO - Na sala de aula, a dificuldade também existe entre os professores. Segundo o diretor das unidades de Paulista, Garanhuns e escolas móveis do Senai de Pernambuco, Vicente Calazans, muitos dizem que não estão preparados para trabalhar com alunos com deficência. “Por uma solicitação deles, começamos a oferecer cursos a distância de Libras e braile, que são oferecidos em 27 estados brasileiros”, conta. Ao todo, dos 150 professores do Senai que trabalham no Estado, dez já receberam formação em libras e oito em braile. A capacitação também será estendida para funcionários. “Por enquanto, quando há necessidade, oferecemos intérprete em libras através de parcerias e materiais didáticos impressos em braile”, garante.

O mesmo acontece no Centro Federal de Educação Tecnológica de Pernambuco (Cefet/PE). De acordo com o coordenador do Núcleo de Atendimento aos Alunos com Necessidades Educacionais Especiais (Napne), Gustavo Estevão, existe à disposição dos docentes o curso de especialização a distância em educação inclusiva no ensino técnico e tecnológico, além de intérpretes e material em braile. “Antes mesmo da acessibilidade física, em primeiro lugar vem a necessidade de o professor entender o aluno, independente da deficiência, e enxergar cada um de forma diferente”, destaca. Gustavo explica que o Cefet realiza educação inclusiva e, por isso, não cabe diferenciar os estudantes. “Tanto no vestibular quanto no Napne oferecemos atendimento especial, desde que ele seja requerido pelo aluno. Não apontamos quem é ou quem não é deficiente. Quando eles sentem necessidade nos procuram”. Em dois anos de atuação, apenas dez procuraram o Napne. “Apesar de o número não ser grande, não esperamos uma demanda para fazer mudanças e acreditamos que, mesmo sem ser solicitado, muitos usufruem do nosso serviço.”

ATITUDE - A forma utilizada pelo Cefet para lidar com as pessoas com deficiência tem agradado os alunos. “Recebo atenção dos amigos e professores, mas não sou tratado como coitadinho. Se precisar de ajuda, eu mesmo peço”, diz o estudante do curso de turismo Erik André Pereira da Silva, 23, que teve paralisia cerebral ao nascer e, por isso, fala e se locomove com dificuldade. Ele lembra que, no passado, professores não apostavam no seu desempenho. “Eles mandavam meus colegas de classe copiarem o assunto para mim sem nem perguntar se eu queria. Entendo que queriam me ajudar, mas acabavam me atrapalhando”. Foi o apoio da família que fez a diferença para a vida de Erik. “Eles sempre acreditaram em mim e me incentivaram a estudar. Hoje sou expansivo e me imponho.”

Bengala para deficiente visual

Ao se deparar com uma pessoa com deficiência, muitos ficam sem saber como agir. A Fundação Dorina Nowill para Cegos - que atua na inclusão de jovens e adultos cegos ou com baixa visão por meio de ações educativas e culturais - elaborou algumas dicas importantes para evitar constragimentos e facilitar o convívio social com deficientes visuais.

  • Identifique-se ao se aproximar de uma pessoa cega, principalmente se ela estiver sozinha
  • Quando ajudá-la na rua, atravesse-a em linha reta, caso contrário ela poderá perder a orientação
  • Deixe que o cego se guie pelo movimento do seu corpo
  • Ao observar aspectos inadequados na aparência, como sapatos trocados ou ziper aberto, não tenha receio em avisar
  • Se convive com uma pessoa cega, nunca deixe portas entreabertas, deixe-as sempre fechadas
  • Deixe corredores livres de obstáculos e avise se a mobília for mudada de lugar
  • Nas refeições, pergunte se a pessoa precisa de auxílio para cortar carne ou adoçar cafés e sucos

Fonte: Fundação Dorina Nowill para Cegos

Essa mudança de atitude, segundo o superintendente estadual de Apoio à Pessoa com Deficiência (Sead), João Maurício Rocha, é essencial para a inclusão. “Existe ainda a cultura de que a pessoa com deficiência não sai de casa, não produz e não é consumidora, por isso, o máximo que ela recebe de direito é saúde e educação, sempre visto como ônus. Infelizmente, vivemos no mundo capitalista, onde só quem é cidadão é quem consome”, desabafa. O gerente da Pessoa com Deficiência da Secretaria de Direitos Humanos da Prefeitura do Recife, Antônio José Ferreira, também critica a sociedade e o individualismo e diz que as minorias ainda não são respeitadas no País. “Tem gente que, mesmo sabendo que é errado, coloca o carro na calçada e acha que não vai atrapalhar ninguém”. Para ele, a acessibilidade atitudinal é mais difícil de ser conquistada do que a arquitetônica. “A gente consegue construir uma rampa, tirar do lugar um orelhão que dificulta o acesso, mas não consegue mudar as pessoas facilmente.” (J.M.)

Copyright © 2007 JC ONLINE | Sistema Jornal do Commercio de Comunicação