Aldeias conectadas. Favelas de olho no mundo. Quando se fala em inclusão digital, as associações mais freqüentes esquecem de um público que costuma ser marginalizado por suas limitações motoras e sensoriais. Dizer que cegos não podem navegar na web é hoje uma blasfêmia tão grande quanto afirmar que o homem nunca pisou na lua – e olhe que há quem insista que as cenas de Neil Armstrong no satélite terrestre foram uma grande armação da mídia.
Através da internet, portadores de deficiências visuais (mas não só eles) pulam de um site a outro, criam novas formas de relacionamento, mantêm-se informados sobre o que acontece no mundo e encontram oportunidades de trabalho. Programas leitores de tela como o Dosvox/Webvox, Virtual Vision e Jaws for Windows reproduzem de forma sonora o conteúdo das páginas através de sintetizadores de voz. Desta forma, a limitação visual é contornada.
Em fevereiro deste ano, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva assinou um decreto que libera R$ 700 milhões do Fundo de Universalização de Serviços de Telecomunicações (Fust) para projetos de inclusão digital. E o Ministério das Comunicações (MC) se comprometeu a investir parte dessa verba nas instituições de ensino e apoio aos deficientes – uma demanda antiga do setor, que desde 2000 reivindica programas voltados à acessibilidade na comunicação.
O Fust foi criado há sete anos com o dinheiro da privatização das teles e hoje tem cerca de R$ 5 bilhões em caixa. A previsão de rendimentos só para este ano é de R$ 850 milhões. Esta, segundo o MC, foi a primeira vez que um governo conseguiu aplicar o dinheiro do fundo em projetos da área de telecomunicações desde sua criação.
O projeto de inclusão digital do governo começa a sair do papel como fruto de uma parceria entre o MC e a Secretaria Especial de Direitos Humanos. O resultado é a instalação de linhas especiais de telefone fixo em mais de mil instituições de assistência aos deficientes auditivos e visuais. Mais de três milhões de pessoas serão beneficiadas com a assinatura básica dessas linhas.
SOCIEDADE ORGANIZADA - Nas principais bibliotecas públicas e universidades do País, ferramentas como o Dosvox ou impressoras em braile facilitam a vida dos estudantes portadores de deficiência. A Universidade Católica, na área central do Recife, é uma das que se antecipou à iniciativa do governo, investindo na acessibilidade à sua biblioteca central e ao conteúdo da mesma.
Além de todos os cuidados com o acesso ao espaço físico para cadeirantes, os 63 computadores da biblioteca da universidade são equipados com kits multimídia de fácil acesso para o deficiente. Há leitores de tela e softwares que convertem o texto em braile e ainda conversores de gráficos 2D para impressões em alto relevo (Tactile Image Enhancer). Para completar o serviço, há duas impressoras e escaners em braile. Quem presta assistência aos usuários dessas máquinas e softwares especiais é um estudante do curso de Publicidade e Propaganda, Milton Pereira, que nasceu cego. (M.A.D.)