Thaís começou a ler com menos de 2 anos e hoje, aos 12, cursa a oitava série. Bruno avançou dois anos escolares e soma um Q.I (quociente de inteligência) de 165 quando a média é 100. Pafúncio* aprendeu o alfabeto com 1 ano e meio e sempre foi o primeiro de classe. Pelé foi artilheiro do Campeonato Paulista de Futebol aos 15 na década de 50, chegou à Seleção Brasileira aos 16 e, aos 17, sagrou-se o mais jovem campeão mundial de futebol.
O mineiro Pelé, o potiguar Pafúncio e os pernambucanos Bruno e Thaís têm histórias diferentes, mas possuem uma característica comum: são pessoas com altas habilidades, as chamadas superdotadas. Integram um grupo de quase 30 milhões de brasileiros - equivalente à soma dos moradores dos Estados de Pernambuco, Rio de Janeiro e Ceará, representando cerca de 20% da população nacional. No universo das bancas de estudos que reúne crianças e adolescentes do ensino médio, o Ministério da Educação (MEC) estima que os superdotados representam de 15% a 20% dos quase 56,6 milhões de alunos do País - ou seja, um expressivo número que pode chegar à casa dos 11 milhões.
Apesar das estimativas do governo e estudiosos na área, pouco tem sido feito para oferecer uma educação diferenciada para os superdotados. Em Pernambuco, por exemplo, quase não existem iniciativas. “Não conheço nenhum aluno superdotado; conheço aqueles que estudam muito. Não há uma política formada para eles”, afirma José Ricardo Diniz, presidente do Sindicato das Escolas Particulares de Pernambuco (Sinepe), entidade que reúne 2.400 instituições onde estudam quase 450 mil alunos. A situação não é diferente na rede estadual de ensino, com quase 1 milhão de alunos matriculados. A Secretaria de Educação Especial de Pernambuco informou, através da Assessoria de Comunicação, não oferecer qualquer programa para os alunos habilidosos.
No Estado, o único programa educacional oficial em execução voltado exclusivamente para pessoas talentosas é o Núcleo de Atividades de Altas Habilidades/Superdotação (NAAH/S), parceria da Prefeitura do Recife com o MEC, que começou a funcionar em abril do ano passado no bairro da Tamarineira, na capital pernambucana. No primeiro semestre deste ano, suas oficinas atenderam 47 estudantes e hoje o Núcleo tem uma fila de espera de mais de cem alunos. Essa carência é sentida por quem precisa de atenção. Com seus dois filhos no NAAH/S do Recife, a técnica em informática Cláudia Lucas de Melo, 37, se diz satisfeita com a atendimento no local, mas critica a escassez de programas. “A ênfase da educação especial, de uma forma geral, é dada aos deficientes, quando há uma demanda muito grande entre as pessoas com altas habilidades”, afirma ela, mãe de Sophia Maria, 10, com grande habilidade em lógica e artes; e de João Victor, que, aos 11 anos, já perdeu a conta de quantas palestras proferiu sobre assuntos ligados à natureza, como peixes, planetas e dinossauros.
Números do MEC mostram que a educação especial destinada aos habilidosos contemplou apenas 1.928 estudantes em 2005 - menos de 0,30%. Este percentual só não foi menor do que as aulas dirigidas a alunos com surdez/cegueira (0,17%). “O atendimento da demanda potencial dos superdotados está muito aquém do desejável. É necessária uma melhor identificação e atendimento às necessidades, além da qualificação dos professores”, avalia Renata Maia, assessora técnica da Secretaria de Educação Especial do Ministério da Educação. Ela, no entanto, acredita que, com os NAAH/S, a situação tende a melhorar e aponta o aumento para 2.553 alunos talentosos registrados na educação básica em 2006.
Para o MEC, crianças superdotadas são as que têm notável desempenho e elevada potencialidade em qualquer dos seguintes aspectos, isolados ou combinados: capacidade intelectual geral, aptidão acadêmica específica, pensamento criador ou produtivo, capacidade de liderança, talento para as artes e capacidade psicomotora.
LEI - A inclusão dos superdotados na educação especial foi implementada legalmente a partir da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, em 1996, e do Plano Nacional de Educação, em 2001. Mas por que eles necessitam de uma educação especial se não são deficientes? “O superdotado pode ter dificuldade de se adaptar em uma turma em que não identifique nenhum interesse a partir do currículo apresentado pelo professor, por exemplo”, explica Renata Maia. Esse desinteresse, por sua vez, pode gerar isolamento, perturbação na sala, problema de relacionamento com o professor, com a família, e, paradoxalmente, até baixo rendimento escolar. “Como eu gostava de brincar, eu deixava para estudar somente nas provas finais”, lembra o hoje professor universitário e pós-doutor em economia Alexandre Stamford da Silva, 41, que, da primeira à oitava série, sempre ficava em recuperação e realizava a avaliação final. “Bastava estudar nos últimos dois meses e tirava sempre nove e dez”, lembra ele, que já teve comprovado o Q.I. alto. “Neste caso, não era a escola que 'dominava' o aluno, mas o aluno que estava dominando o sistema escolar”, observa o psicólogo e professor universitário Bruno Campello, 39, ele mesmo um superdotado (possui Q.I. acima da média) e com pesquisas na área da superdotação.
O desinteresse pelo estudo curricular, mesmo para superdotados, pode dificultar no momento de definir uma profissão. Se por um lado uma alta habilidade pode levar a inclinações artísticas e esportivas com ótimos desempenhos - exemplos de Pelé ou da ginasta gaúcha Daiane do Santos, campeã mundial de solo na ginástica artística -, pode acarretar em descuido nos estudos em casos de superdotados em habilidades lingüísticas e lógico-matemáticas (geralmente detectadas em testes de Q.I.). “Ele pode negligenciar os estudos e não passar no vestibular quando se deparar com habilidosos tanto quanto ele e que estudaram mais. E aí achar que não tem habilidade quando, na verdade, não percebe o que está acontecendo”, analisa Bruno Campello. Essa situação é, de certa forma, confirmada pela análise do psicólogo clínico Luiz Schettini, especialista em crianças e adolescentes. “Mesmo com altas habilidades, a criança tem fantasias e não possui limites suficientes”.
“O aluno com altas habilidades é um eterno insatisfeito. É muito desconfortável estar numa escola e sua necessidade não ser atendida”, diz a psicopedagoga e especialista em educação especial para superdotado Mércia Melo, coordenadora do NAAH/S no Recife. A afirmação é corroborada pelo presidente do Sintepe, Zé Ricardo. “O superdotado é um estranho no ninho na escola, que acaba sendo inibidora, em vez de provocadora”, atesta ele, que, apesar de reconhecer o problema, enxerga mais as necessidades dos alunos com deficiência. “A preocupação maior é com a perspectiva inclusiva, puxar o que está embaixo para a medianidade”, defende. “Um superdotado não é digno de mais direitos ou menos direitos”, reclama Bruno Campello. “O direito de uma pessoa com síndrome de Down não é melhor do que o do superdotado. Ambos têm direito e devem ser tratados como a mesma consideração que os chamados normais merecem”, defende.
* - O hoje professor universitário de 50 e poucos anos preferiu ter o nome omitido - escolhendo Pafúncio - para não passar por arrogante e não criar problemas no trabalho. Esta negativa é caracaterística entre quem possui Q.I. alto. “Embora se avaliem mais posivitivamente que os outros, eles hesitam um pouco em se identificar como tal”, observa o psicólogo Bruno Campello.
Altas habilidades
Características avaliadas para a classificação de superdotado segundo a Teoria das Inteligências Múltiplas de Gardner*, utilizada pelo Governo Federal:
* - A Teoria das Inteligênicas Múltiplas foi estabecida pelo filósofo norte-americano Howard Gardner em 1983, no livro Frames of Mind: Theory of multiple intelligences. Segundo Gardner, a pessoa pode ser talentosa em uma dessas inteligências e não apresentar desempenho tão bom em outra.