Em abril de 2006 duas psicopedagogas começaram a ensinar como avaliar jovens alunos superdotados. Na prática, foi o primeiro passo para o nascimento, no Recife, do Núcleo de Atividades de Altas Habilidades/Superdotação (NAAH/S). Gerado a partir de uma parceria entre o Ministério da Educação (MEC) e a Prefeitura da cidade, o núcleo hoje reúne 43 estudantes das redes pública e privada e possui uma demanda de mais de cem outros jovens. São alunos de 3 a 16 anos, a maioria do Recife, que vivem no espaço a oportunidade - gratuita - de serem analisados por vários profissionais e de desenvolver suas potencialidades.
“O atendimento do Núcleo é complementar e visa ao desenvolvimento desses alunos que estão se desencontrando nas escolas por desconhecimento dos próprios técnicos”, explica a coordenadora do NAAH/S do Recife, a psicopedagoga e especialista em superdotados Mércia Melo. O Núcleo, que tem convênio com a Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), é o braço em Pernambuco do programa organizado pelo MEC em todos os Estados e no Distrito Federal no fim de 2005 - dos 27 previstos inicialmente, 21 estão em operação.
FAMÍLIAS - Inicialmente, os alunos passam por uma avaliação, assim como suas famílias. Se detectada uma superdotação - seja em áreas variadas como lógico-matemática, artes, psicomotricidades ou outras -, os estudantes participam de oficinas para desenvolver seu potencial. Atualmente, são oferecidas cinco oficinas: leitura do complexo (linguagem, através de literatura e cinema), artes plásticas, música, capoeira e inglês. Há casos em que já se notam altas habilidades por volta dos 2 anos, mas a avaliação é indicada para crianças acima de 6. “Antes disso, pode ser apenas um processo de precocidade no qual depois a criança se nivela aos outros”, explica a psicopedagoga Mércia Melo.
O NAAH/S do Recife começou como uma segunda escola - se o aluno estudava na escola regular pela manhã, ia à tarde ao Núcleo, que funciona no bairro da Tamarineira, dentro das dependências da Apae/Recife (Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais), num prédio conjugado à Escola Municipal Severina Lyra. Neste segundo semestre, os alunos começaram a fazer oficinas específicas duas vezes por semana.
“Mesmo tendo talentos em áreas diferentes, os alunos se identificam com os colegas”, diz Mércia, animada com o projeto. E não somente ela. Segundo a coordenadora, os alunos fazem questão de comparecer às oficinas. “Já fiz novas amizades; é bem legal”, testemunha a aluna Thaís Damasceno Tenório, que, aos 12 anos, cursa a oitava série na escola estadual Escritor José de Alencar, em Paulista, Grande Recife, onde mora.
Dos 43 alunos do NAAH/S do Recife, 34 são do sexo masculino. “Há uma questão cultural de que o menino é que deve prover a casa”, afirma a coordenadora Mércia Melo. Os superdotados são avaliados por uma equipe multidisciplinar que reúne, entre outros, assistente social, pedagogos, psicólogo, terapeuta ocupacional e psicopedagogo. Também é realizado um acompanhamento das famílias e a interação com a escola regular de cada um deles. Tanta atenção não é à toa. “O superdotado incomoda muito, sofre muito e faz a família sofrer”, diagnostica Mércia Melo. “A família sofre porque o filho é diferente. O superdotado sofre porque é um eterno insatisfeito; é desconfortável estar na escola e sua necessidade não ser atendida. E ele incomoda o professor porque ele já sabe o que o professor vai ensinar.”
Com a extensa fila de espera, Mércia explica que a prioridade será dada a alunos da rede pública - têm menos condições econômicas de buscar acompanhamento. E, para ajudar na maior participação desses alunos, o Núcleo planeja oferecer transporte. Até porque já houve a desistência de três estudantes cujas famílias abandonaram o programa sem condições de levar o jovem ao local. A coordenadora chama atenção ainda para a capacitação dos professores para lidar com as crianças e adolescentes com altas habilidades. “Os professores precisam se capacitar e as escolas, investir neste sentido”, afirma.
O psicológo Luiz Schettini também mostra preocupação com as escolas. “É preciso ter cuidado de, para entrar no ritmo da normalidade, não impedir seu desenvolvimento. Ao mesmo tempo, a estimulação deve ser feita com cautela para não ultrapassar os limites da criança” diz. Ele lembra que já recebeu em seu consultório pais sem saber como lidar com a criança de 3 anos que lia fluentemente e possuía um raciocínio avançado para a idade.
Segundo Mércia, quando um superdotado é detectado, tem-se início um trabalho que vai depender de vários fatores: habilidade e história de vida do superdotado, dinâmica da escola, condições da família e da unidade de ensino. Para um professor do ensino regular que tenha um superdotado no grupo, há, no entanto, uma recomendação genérica. “O professor deve aproveitar o conhecimento do superdotado e adaptar à grade curricular, socializando o conhecimento”, sugere a psicodegoga.
Junto às famílias, é claro o recado do projeto do NAAH/S: “É de fundamental importância que os pais e responsáveis saibam valorizar as diferenças de seus filhos e possam promover a sua educação e engajamento social”. A técnica em informática Cláudia de Melo, com dois filhos no NAAH/S, conta que é preciso ter atenção redobrada com a educação das crianças. “Tenho que ter rédea curta e fundamentos muitos sólidos sobre uma idéia porque senão eles não se convencem diante de um argumento.” (B.M.)
Quem ganha com o projeto NAAH/S?
Segundo o Resumo do projeto para Implantação de Núcleos de Atividades de Altas Habilidades/Superdotação (NAAH/S).