Série de Reportagens
Milton Pereira de Carvalho Filho, de 26 anos, cursa o 4º período de publicidade, é casado e tem um filho de 5 anos. Na infância, no interior de Pernambuco, sofreu muitos preconceitos, mas conseguiu combatê-los “procurando ser uma pessoa o mais normal possível”. Milton, que tem cegueira decorrente de um glaucoma congênito, integra a população de 1.379.704 (IBGE/ Censo 2000) de pernambucanos com algum tipo de deficiência. O jovem já trabalhou como prestador de serviço do Ministério do Trabalho e hoje é coordenador da área de impressão de material em braile da Universidade Católica, no Recife. Ele, junto com outros, superou as limitações e mostra que deficiência não é sinônimo de desqualificação.
Alfabetizado em braile aos 9 anos, Milton sempre estudou em escolas regulares e é a favor das turmas mistas. “É fundamental para o processo de integração. Quando há a separação, criam-se mitos”, opina. Na adolescência, lembra que um professor de química chegou a dizer que ele não precisaria ir às aulas porque daria um jeito de passá-lo. “Fiquei chocado. Ele me ignorava na sala de aula porque não conseguia me passar o conteúdo”, disse. Sobre o sistema de cotas nas empresas, o estudante gostaria que contratassem os deficientes pela capacidade e não por obrigação imposta pela lei: “Antes de olhar a deficiência, as empresas têm que ver a eficiência.”
Já o funcionário da Coca-Cola Jaitan Ferreira Silva, 33, que tem um problema de nascença na mão direita, mostra-se a favor do sistema de cotas. “Essa obrigação é interessante para quem não tem experiência nem oportunidade”, defende ele, que garantiu sua vaga na empresa e hoje faz curso pré-vestibular para disputar uma vaga no curso de ciências contábeis. Na companhia, Jaitan, casado há nove anos, atende telefone, escreve e digita com facilidade. “Minha deficiência nunca me impediu de fazer nada. A prática vai suprindo as necessidades. Deus me deu uma habilidade na outra mão e praticamente não sinto a deficiência”, diz.
A associada do Bompreço Elaine Leão Bening, 46, que teve paralisia infantil com um ano de idade, não sentiu a mesma facilidade para conseguir emprego, já que há 17 anos, quando entrou na unidade do Janga, em Paulista, ainda não havia o sistema de cotas. Apesar das dificuldades, ela começou na empresa como caixa, depois passou para o setor de informática na conferência de dados, em seguida ficou como auxiliar de controle e, hoje, está no departamento de recuperação de mercadorias. A funcionária será promovida mais uma vez para uma nova área da loja, passando a ser gerenciadora de inventário. “Eu praticamente sou uma pessoa normal e não tenho limites”, fala Elaine, que terminou o curso técnico em contabilidade e, atualmente, pensa em voltar a estudar para cursar administração.
Assim como Jaitan, o auxiliar administrativo em logística Vinícius Coimbra de Almeida, 33, também conseguiu uma vaga na Coca-Cola, em Jaboatão dos Guararapes. Ele, que tem apenas 30% de audição no ouvido direito, mora com a mãe e duas irmãs. “Quando descobrimos que Vinícius era surdo (aos 2 anos), a escola não o aceitou, então transferimos para uma outra unidade, onde ele cursou até o 1º ano (do ensino médio)”, lembra a mãe dele, a pensionista Isabel Arruda Guedes, 60. Antes do atual emprego, Vinícius, que concluiu o supletivo e não pensa em fazer curso superior, já trabalhou em um posto de gasolina como auxiliar de escritório, em uma gráfica e no IBGE. Segundo Isabel, ele melhorou a socialização depois que começou a trabalhar. A mãe recorda que, na infância, o garoto foi alvo de muito preconceito e, por isso, isolava-se e nunca teve muitos amigos.
“Minha deficiência nunca me impediu de fazer nada”
Jaitan Ferreira.
Cursando 3º período de sistema de informação, Leonardo Ribeiro Alves não teve a mesma sorte de Vinícius. Aos 28 anos, o jovem que, ao contrário do colega não ouve e nem fala, fez a seleção para a Coca-Cola, mas não foi aprovado. Através da Língua Brasileira de Sinais (Libras), Leonardo afirmou que todo tipo de deficiente deve ter oportunidade, porque é capaz de trabalhar e precisa se manter. "Nós precisamos de uma ocupação para nos sentirmos iguais e inclusos na sociedade”. A mãe do jovem, Maria de Lourdes Ribeiro, 59, questiona: “Por que não dão oportunidade a ele? Estava quase empregado na Coca-Cola, chegou a tomar a vacina antitetânica, mas não foi contratado”. Segundo o setor de Recrutamento/RH da empresa, a escolha por Vinícius se deu ao fato de ele usar aparelho auditivo e fazer, com perfeição, a leitura labial, o que facilitava o trabalho e o relacionamento com os demais companheiros de trabalho diante das atividades que iria desempenhar. Atualmente, a Coca-Cola emprega 46 portadores de algum tipo de deficiência em sua filial no Recife.
A situação é ainda mais difícil para aqueles com deficiência mental. Que o diga a bancária Maria Thereza Sabóia, 44, mãe do estudante Gabriel, 21, com síndrome de Down. "As empresas escolhem o tipo de deficiência e o deficiente mental fica em último plano", reclama a bancária. Gabriel já fez curso de panificação no Senai (Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial) e aulas de computação. Atualmente na 6ª série, já participou do programa Jovem Aprendiz na Pernambuco Participações e Investimentos S/A (Perpart), trabalhando na entrega e protocolo de documentos. E deixou lições no emprego, como conta Iraci Monteiro, ex-chefe de Gabriel e que até então nunca havia trabalhado com pessoas especiais. “Antes não acreditava que eles seriam capazes; achava que as limitações eram muitas. Mas, depois que passei a trabalhar com Gabriel, a minha opinião mudou.”
Antigamente - A inclusão de pessoas com deficiência como cidadãos funcionais é recente na história da humanidade. Na Antigüidade, eram tidas como párias e, muitas vezes, mortas assim que nasciam. Na época Pré-Renascentista, havia leis de exclusão que proibiam sua aparição pública. Muitas foram dizimadas na Europa durante a II Guerra sob alegação da purificação da raça.
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