Série de Reportagens
Por Gustavo Belarmino e Inês Calado
SÃO LUÍS - Os números não são animadores. Entre os 100 municípios do Nordeste com menor Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), 34 estão no Maranhão. São Luís ocupa, entre as capitais da região, o terceiro pior índice (0,778), perdendo apenas para Maceió (AL) e Teresina (PI). Neste Estado marcado pela pobreza, onde mais de 20% da população é analfabeta, surgem iniciativas simples que podem ser usadas como exemplo de inclusão em todo o País. Diante do panorama econômico do Estado, que sobrevive principalmente da exportação de alumínio, conseguir emprego não é tarefa fácil. Para 15% da população, é quase impossível. É que essas pessoas, portadoras de algum tipo de deficiência, encontram pela frente desafios muito maiores do que simplesmente conseguir um carimbo na carteira de trabalho. “O Maranhão é um Estado extremamente pobre. E uma parcela significativa das famílias sobrevive com o BPC dessas pessoas”, reconhece o secretário de Direitos Humanos do Estado, Sálvio Dino, citando o benefício pago pelo governo federal às pessoas com necessidades especiais.
Com 32 anos, Reginaldo Araújo, deficiente visual, nunca fez parte das estatísticas de emprego do Ministério do Trabalho. Perdeu a visão aos 21, devido a um glaucoma, e, desde então, sobrevive com o salário mínimo que recebe do governo. No entanto a dificuldade em conseguir emprego não o afasta da sala de aula. O aluno está fazendo pela segunda vez o curso de operador de microcomputador na escola Senai Raimundo Franco Teixeira, em São Luís, onde também estudou para ser padeiro. “O sonho da gente é conseguir um emprego. Mas é muito difícil um cego arrumar trabalho. As empresas colocam muitas barreiras.”
Douglas Válter é cego e parcialmente surdo. É da mesma turma de Reginaldo. Ao contrário do colega, que fez só até a 4ª série do ensino médio, é formado em filosofia e atualmente cursa direito. Mas também enfrenta o fantasma do desemprego e não pode abrir mão do benefício porque precisa sustentar a mulher, que é deficiente visual, e os dois filhos pequenos. “Se eu conseguir um emprego igual ou superior ao salário que ganho, deixo imediatamente o benefício. O trabalho é muito mais dignificante”. A pedagoga Maria Júlia Carvalho, interlocutora do Programa Senai de Ações Inclusivas (Psai), reconhece que o benefício, muitas vezes, é a única fonte de renda da família, mas chama a atenção para a inclusão efetiva do deficiente. “É preciso que o governo dê uma atenção maior, não apenas uma tutela”. Ela destaca que a família também precisa assumir essa responsabilidade.
Vanise Oliveira, 26, chora toda vez que lembra o quanto foi desgastante conseguir uma vaga no mercado de trabalho. “Já enfrentei muito preconceito”, relembra, afirmando que agora essa é uma página virada. Hoje empregada em uma loja de móveis e eletrodomésticos do Maranhão, a garota diz que as lágrimas são de felicidade. Com a farda adaptada ao seu 1,37 metro, trabalha orgulhosa como auxiliar-administrativa das Lojas Gabryella, e diz que não é sua deficiência, o nanismo, que a atrapalha no desenvolvimento de suas tarefas. A funcionária conta que saiu de uma papelaria porque a empresa simplesmente não quis adequar uma farda para ela. “Recebi muitos ‘nãos’ e várias pessoas com deficiência enfrentam o mesmo problema”. Vanise diz que ainda se sente diferente. “Mas aqui dentro sei que tenho capacidade como qualquer outra pessoa.”
Encontrar iniciativas que apóiam a inclusão são essenciais para casos como o de Vanise. Ela buscou ajuda no Psai, voltado para a qualificação de pessoas com necessidades especiais. “Nos comovemos com o exemplo dela e procuramos, através do nosso banco de dados, encaixá-la em alguma empresa”, explica a assistente social do programa, Rosângela Alves. Todos os alunos que passam pelo Psai preenchem uma ficha que será encaminhada para o mercado. “As empresas sempre estão aflitas para preencher as cotas. Geralmente enviamos um número maior que a necessidade real, para que elas façam a seleção”. A assistente ressalta que, diante da necessidade, algumas pessoas são encaminhadas mesmo sem haver passado pelos cursos de qualificação.
Embora reconheça que as ações ainda são pontuais, o governo do Estado deu um importante passo ao criar o Conselho Estadual da Pessoa com Deficiência, implantado em abril deste ano. Composto por 20 integrantes, divididos entre poder público e sociedade civil, o Conselho tem a missão de formular políticas públicas que atendam às pessoas com necessidades especiais. “Mas ainda estamos engatinhando”, reconhece o secretário de Direitos Humanos, Sálvio Dino. Através de uma parceria com o Instituto de Cidadania Empresarial (ICE), o órgão está levantando qual a real necessidade das companhias. “Estamos discutindo com o empresariado e entidades que trabalham com deficientes para identificar o que o mercado está querendo, assim, poderemos direcionar a capacitação para essa demanda real”. Atualmente, a Secretaria de Trabalho do Maranhão disponibiliza um banco de dados com cerca de 1.100 deficientes, porém o aproveitamento desse cadastro ainda é inferior às expectativas.
“O desafio maior é sensibilizar o empresariado para que ele não apenas cumpra a cota. Não seria uma obrigação por obrigação, seria uma oportunidade que ele dá para uma mão-de-obra normalmente especializada, mas que tem alguma deficiência. São pessoas que precisam e buscam essas oportunidades para superar seus problemas”, destaca Elito Hora, diretor do Senai Maranhão.
FORMAÇÃO - Está na formação profissional o poder de confrontar os números negativos. Heider Pinheiro, que perdeu totalmente a visão aos 28 anos, poderia ser mais um dependente do benefício. Mas nunca ficou desempregado. Diante da notícia de que ficaria cego, aos 22, procurou identificar que profissões poderia desenvolver. Foi quando ouviu, no programa Voz do Brasil, que existia uma escola de informática para cegos no Rio de Janeiro. Não pensou duas vezes. Comprou a passagem só de ida e foi arriscar a sorte na escola Benjamin Constant. “Foi quando eu vi pela primeira vez computador para cego”, brinca. Quando terminou, Heider voltou para o Maranhão e se matriculou em um curso de informática, apenas como ouvinte. “Nem tocava no teclado, mas eu queria aquilo, até que um dia apareceu a oportunidade de um estágio no Ministério da Fazenda. E eu entrei”, relembra. Há sete anos, Heider é instrutor de informática do Senai para turmas regulares e pontuais (exclusivas para deficientes). Formou-se em administração e análise de sistemas, faz pós-graduação em planejamento e implementação de redes e já tem um novo desafio. Quer ser programador.
Em suas aulas para turmas pontuais, Heider tem a ajuda de um intérprete. “Nos dois primeiros anos que trabalhei no Senai, dava mais aulas para deficientes visuais, até que me colocaram em turmas que tinham pessoas com todo tipo de deficiência”, lembra. Para se comunicar com alunos surdos, o professor utiliza alguns símbolos da Linguagem Brasileira de Sinais (Libras). “Peço que eles façam os sinais no meu braço, para que eu possa entender”, explica. Heider sabe de suas limitações, no entanto não permite que sejam obstáculos. “Já escutei muitas vezes de alunos em turmas regulares que ‘não posso, que não sou capaz’. Tento não dar uma resposta e mostrar na prática que pode ser diferente.”
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