Aterro ou Lixão?

Paulo Padilha monitora o chorume

A poucos metros da portaria, a placa avisa: Aterro de Resíduos Sólidos da Muribeca. Mas, tanto para ambientalistas quanto para os servidores públicos, o local, a um ano de alcançar a maioridade, não passa de um lixão. Um lixão controlado. Por que controlado? "Aqui existe projeto concluído e em andamento", informa o chefe da Divisão de Operação do Aterro, Adaulto Lins. "Se o lixo não for tratado de forma adequada, o chorume pode contaminar o solo e as águas; a emissão de gás pode provocar presença de insetos, odores", resume Eduardo Maia, engenheiro que trabalha no monitoramente do Lixão da Muribeca.

A principal crítica dos ambientalistas é a ausência de impermeabilização do aterro - que tem a base em contato direto com rochas. "É esconder o lixo embaixo do tapete. É até melhor um lixão porque não se esconde", alfineta Bertrand Sampaio de Alencar, consultor em resíduos sólidos e um dos fundadores da Associação Pernambucana de Defesa da Natureza (Aspan). Segundo ele, uma área degradada por um lixão precisaria de 30 a 50 anos para se recuperar.

Outra crítica é o sistema de tratamento do chorume (líquido que se forma a partir da degradação de materiais orgânicos). "Foi subdimensionado", afirma Bertrand Sampaio. Engenheiro responsável pelo tratamento do chorume do local, Paulo Padilha admite que o sistema não é de todo eficaz - contempla sete lagoas de estabilização e que desemboca, por meio de tubulação, no Rio Jaboatão, a cerca de 700 metros dali. "Em alguns momentos, atingimos o grau de eficiência do tratamento do chorume, mas, no geral, não chegamos aos 90% que determina a norma", diz Padilha.

GRAU DE POLUIÇÃO DE UM CHORUME 
Esgoto doméstico 300 mg de poluentes / litro
Chorume do Lixão
da Muribeca
15.000 mg de poluentes / litro

De certa forma, o resultado não foi alcançado em grande parte porque o aterro nasceu de um lixão, não sendo planejado. Desde 1985, a área era um despejo a céu aberto. E foi assim até meados de 90, quando a Prefeitura do Recife iniciou um trabalho de recuperação, num convênio com a Associação Tecnológica de Pernambuco (Atepe). No caso do chorume, por exemplo, a estação de tratamento só começou a funcionar há três anos. Até então, o líquido escorria, poluindo os riachos Muribequinha e Zumbi. Segundo o ambientalista Bertrand Sampaio, um lixão - mesmo desativado - pode passar até duas décadas gerando chorume.

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