Microdrédito: um Nordeste longe da Crise

foto:Sidclei Sobral PÃO NOSSO DE CADA DIA - Manoel Francisco da Silva abriu uma barraquinha no Ibura com auxílio do Crediamigo

NORDESTE

Um gigante mercado de nanicos

Empréstimos a minúsculos empreendedores, a maioria nordestinos, somaram R$ 1,8 bilhão ano passado. Mesmo com o mundo em turbulência, financiamentos já têm forte crescimento em 2009
por Giovanni Sandes

São vários pequenos empréstimos, repetidas vezes. Um minúsculo financiamento paga camisetas e roupas íntimas para revenda em um box no mercado. Outro pequeno crédito banca o arroz e açúcar para ganhar a clientela do bairro. A soma desses milhares de pequenos empréstimos, um mercado conhecido como microcrédito, sustenta números gigantes: só ano passado, movimentaram R$ 1,8 bilhão. Foram 1,274 milhão de contratos em todo o Brasil. A maioria absoluta desse dinheiro, 81%, circulou no Nordeste, onde estavam 88,4% dos tomadores dos empréstimos. Para 2009, mesmo com o mundo em crise, o microcrédito já experimenta forte crescimento e projeta fechar o ano com um avanço de dois dígitos.

A mecânica desse mercado explica as previsões otimistas contra uma perspectiva geral de desaceleração da economia brasileira. O maior cliente do microcrédito (96,37% do total, em 2008) é o informal, que, se não empreender, não tem mais como ganhar dinheiro. Embora haja divergência sobre quantos informais no Brasil querem os pequenos empréstimos, a lógica do setor é que eles estão aí, aos milhões. Falta apenas o crédito chegar a eles.

"Podem deixar de comprar jeans de marca, mas precisam de roupa." por Stélio Gama

Manoel Francisco da Silva, 60 anos, vende verduras e outros produtos básicos no Ibura, bairro da Zona Sul do Recife. "Minha profissão mesmo é pintor. Mas não tive mais condição de trabalhar porque estava doente, problema da coluna, hérnia de disco. Vendo uma verdurinha para ganhar o pão nosso de cada dia porque não tenho mais condição de trabalhar: não tem mais emprego", afirma.

Além de pintor, Manoel já foi feirante. Mas acumulou dívidas, vendeu tudo e, com o que sobrou, montou sua barraquinha, como faz questão de chamar seu negócio. Usa os pequenos empréstimos do microcrédito, geralmente de R$ 1 mil, como capital de giro para ganhar descontos na hora de renovar o estoque. "Tiro daqui dinheiro para aluguel, uns R$ 180 pelo ponto. Dá para tirar a 'bolacha' para comer, uns quatrocentos ou quinhentos contos", relata.

Diferentemente de empréstimos convencionais, o microcrédito é produtivo e orientado - oferecido para quem vai aplicar o dinheiro em um negócio. O financiamento vem com uma assessoria técnica, em que um assessor ou agente de crédito dá orientações ao pequeno empreendedor, como noções de administração. Apesar de ter ficado famoso com o "banqueiro dos pobres" Muhammad Yunus , o microcrédito não tem nada de caridade. É um negócio que gera ganho para todos.

O Real Microcrédito, do Santander, em 2007 emprestou R$ 59 milhões. Projeta desembolsar este ano R$ 200 milhões. "2008 foi um ano excepcional. Crescemos 26% na nossa carteira de crédito. Prevemos para 2009 um crescimento expressivo também, de 20% a 22%", explica o diretor do Real Microcrédito, Jerônimo Ramos.

O peso nordestino no microcrédito
Região Número de empréstimos Participação nos contratos (em %) Valor emprestado Participação nos recursos (em %)
Nordeste 1,126 milhão 88,4% R$ 1,471 bilhão 81,44%
Sul 59,6 mil 4,68% R$ 163,0 milhões 9,02%
Sudeste 72,5 mil 5,7% R$ 148,5 milhões 8,22%
Centro-Oeste 14,1 mil 1,11% R$ 19,8 milhões 1,1%
Norte 1.446 0,11% R$ 4 milhões 0,22%
Total 1,274 milhão   R$ 1,807 bilhão  
Fonte: Ministério do Trabalho e Emprego (2008)

O Banco do Nordeste (BNB) estima que há 2,8 milhões de potenciais clientes dos empréstimos nanicos e quer ampliar sua participação de 15% para 18,4% desse mercado. "Estamos na base da pirâmide da economia. Mesmo com demissões (por causa da crise), as pessoas continuarão consumindo. Podem deixar de comprar jeans de marca, mas precisam de roupa. Aí entra Toritama (Polo de Confecções, no Agreste pernambucano)", argumenta o superintendente de Microfinanças e Projetos Especiais do BNB, Stélio Gama.

O Banco do Nordeste é líder nacional em microcrédito e prevê fechar 2009 com R$ 457 milhões em empréstimos, contra R$ 305 milhões em 2008. Isso significa encerrar o ano com mais de meio milhão de clientes. "Já estamos fazendo 4.100 empréstimos por dia. Na mesma época, em 2008, eram 3.900 por dia. A média desses empréstimos, que era de R$ 800, R$ 900, já está em R$ 1.130", detalha Gama.

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Publicado em 07.04.09 - Copyright © 1997- 2009, JC OnLine - Recife - PE - Brasil.