
Se todos os assessores de crédito fossem como Carl Allen, personagem interpretado por Jim Carrey na comédia Sim Senhor, em que ele assume o compromisso de dizer "sim" a tudo na vida, os microempreendedores estariam realizados em seus audaciosos pedidos de empréstimo. Entretanto, na vida real, a análise do microcrédito passa por critérios muito mais sérios do que uma simples promessa de autoajuda. As agentes de crédito Edjane Araújo Ferreira e Silvete Maria Benício Barbosa que o digam - elas sabem bem como o processo é delicado e afirmam que seu papel é facilitar o empréstimo, porém de forma produtiva e orientada. E sempre bem perto do cliente - seja a pedido do interessado no empréstimo, que vai até a agência de crédito; ou com a obrigação de atingir a cota da empresa, na velha visita porta a porta.
Há dois anos Edjane trabalha no Crediamigo, programa de microcrédito do Banco do Nordeste, atuando na Zona Norte do Recife. No bairro do Vasco da Gama, ela possui dezenas de clientes e trabalha para atingir a meta mensal de 18 novas operações. Em visita realizada no final de março deste ano, a assessora avaliou o negócio do cabeleireiro Josivan Thomé da Silva, de 39 anos, que pretende montar um grupo solidário juntamente com a vendedora de picolé Rosilda Nascimento Alves, 51, e a também cabeleireira Silvana Maria da Silva, 30. Edjane explica que, caso seja aprovado, cada um terá o crédito proporcional às suas necessidades. "Nosso papel é considerar a capacidade de pagamento de cada um, verificando que valor de prestação podem assumir", esclarece ela, que trabalha oferecendo empréstimo a juros a partir de 1,32% ao mês.
| ANDE | de 2,5% a 4,99% |
| CEAPE | 3,2%, sem taxa de abertura |
| CREDIAMIGO | a partir de 1,32% ao mês |
| FINSOL | a partir de 4,5% ao mês |
O próximo encontro será para fazer um levantamento do fluxo de caixa dos integrantes, a fim de determinar o valor para cada um. De acordo com a agente, "quando um microempreendedor pede um valor muito alto, eu deixo ele (sic) ciente do prejuízo futuro, coloco seu pé no chão. Ele deve ter noção do risco que tem pedindo um valor alto". O cabeleireiro Josivan Thomé já tem essa consciência: "Tudo que eu tenho aqui (no salão) eu comprei sem dever nada a ninguém. Comprei a cadeira, paguei; depois comprei o lavatório e paguei", afirma, já com a xerox do RG, do CPF e do comprovante de residência na mão para se candidatar ao microcrédito.
Além do grupo solidário, o agente também pode oferecer outros tipos de linha de crédito. Silvete Maria representa a Agência Nacional de Desenvolvimento Empresarial (Ande) em comunidades da periferia da cidade como Nova Descoberta, Bomba do Hemetério e Alto Santa Terezinha - lugares que ela percorre de ônibus. No Córrego do Jenipapo, ela orienta um banco comunitário formado por 10 pessoas, entre fabricantes de bolsas, vendedores de picolé, representantes de cosméticos, costureiras e comerciantes de bijuterias.
O grupo existe há três anos e começou tomando empréstimo no Banco Finsol, que já não atende a área há um ano, segundo o presidente do banco solidário, Marcos Antônio Silva Santos, 34. Depois de sair do Finsol, o grupo procurou a Ande e, em janeiro deste ano, tirou o primeiro microcrédito, de R$ 6 mil. Segundo ele, a grande vantagem é que não há restrição de cadastro. (I.F.)