Microdrédito: um Nordeste longe da Crise

foto:Sidclei Sobral VALOR MÁXIMO - Sérgio Henrique, que possui uma loja na Feira de Artesanato de Caruaru, já pegou um empréstimo de R$ 10 mil no Ceape

RMR e interior

Microcrédito tem campo fértil no Nordeste

Conheça histórias de nordestinos que conseguiram lançar e até ampliar seus negócios graças ao microcrédito
por Isabelle Figueirôa

Manuel Claudino Cordeiro mora no Cabo de Santo Agostinho, na Região Metropolitana do Recife. Sérgio Henrique da Silva vive em Caruaru, no Agreste de Penambuco. Distantes cerca de 170 km, os dois integram o universo de 640 mil clientes ativos que receberam microcrédito em 2008 no Brasil. Mesmo com a atual crise econômico-financeira mundial, no ano passado, foram destinados a esses microempreendedores R$ 1,8 bilhão - só para o Nordeste o valor chegou a quase R$ 1,5 bilhão, 200% a mais do valor concedido em 2005, conforme dados do Programa Nacional de Microcrédito Produtivo Orientado (PNMPO), do Ministério do Trabalho. Embora os números sejam otimistas, o microcrédito na região ainda tem muito campo para expandir.

Nascido em uma família pobre do município agrestino de Panelas, Manuel Claudino Cordeiro, 59 anos, trabalhou na agricultura dos 5 aos 15 e não teve oportunidade de estudar. Veio, então, "tentar a sorte" na capital, quando passou a morar com a irmã e a trabalhar num bar no Centro do Recife. Há 10 anos, mudou-se para o Cabo de Santo Agostinho e continuou no ramo de bebidas até que adquiriu um box para venda de variedades no Mercadão. "Comecei comprando fiado, depois quis expandir e tomei um empréstimo de R$ 1,5 mil na Ande (Agência Nacional de Desenvolvimento Empresarial)", disse. Atualmente Seu Manuel, que é casado e tem 10 filhos, duas das quais já formadas, possui seis boxes no local, mais um no novo Mercado de Prazeres e pode tirar um empréstimo na agência de até R$ 9 mil. "Com o dinheiro na mão, eu tenho a vantagem de pesquisar preço mais em conta", disse, mostrando com orgulho o carnê pago antecipado.

Essa vantagem também é confirmada por Sérgio Henrique da Silva, 33, que há 15 anos assumiu a loja do pai na Feira de Artesanato de Caruaru, no Parque 18 de março."O bom do microcrédito é que podemos negociar com os fabricantes com dinheiro à vista e encontrar um preço mais acessível", afirmou. Dois meses atrás, ele pegou um empréstimo de R$ 10 mil no Centro de Apoio aos Pequenos Empreendimentos (Ceape), o valor máximo que a instituição - uma das 278 do País - oferece. Assim como Manuel Claudino, que começou com bebidas e mudou para o ramo de bolsas, cintos e carteiras, Sérgio usou o crédito para variar o estoque - no início, o comércio era apenas de produtos em madeira e barro e hoje vende redes, mantas, tapetes e bolsas.

Os dois comerciantes tiraram o microcrédito em grupo. Seu Manuel divide os pagamentos com o irmão e um vizinho; já Sérgio optou por fazer em dupla com um amigo. Nenhum deles teve problemas na hora de quitar os débitos. A principal característica desse tipo de empréstimo é a chamada garantia solidária, ou seja, se uma pessoa do grupo não cumpre seus compromissos, as outras são solidariamente responsáveis, gerando uma espécie de constrangimento que dificulta a inadimplência. Um modelo nem sempre aprovado por todos. "Não gosto do microcrédito porque você tem que fazer o empréstimo coletivo e nem sempre a gente pode confiar nas pessoas", confessa Antônio Carlos da Silva, 49, proprietário de dois boxes de confecções no Pátio das Feiras, em Toritama, no Agreste pernambucano.

Em Toritama - um dos maiores pólos de confecções do Estado -, aliás, o tema microcrédito ainda é pouco explorado. Quase todos os proprietários abordados pela reportagem nunca ouviram falar ou não sabem o que significa. Esse é o caso de Marisete Maria da Costa, 58, proprietária de um box no Pátio das Feiras, que solicitou empréstimo de R$ 3 mil em banco privado na linha de crédito normal com taxa de juros de 6,5%. "Pedi o dinheiro emprestado para manter meus compromissos em dia e comprar mercadorias", esclarece. Caso ela recorresse ao microcrédito nas agências mencionadas ou no Banco Nordeste, por meio do Crediamigo, essa taxa poderia ser encontrada a partir de 1,32%. (www.bnb.gov.br)

Segundo o gerente da Associação Industrial e Comercial de Toritama, Cléber Barbosa, o problema dessa falta de conhecimento é responsabilidade tanto dos comerciantes quanto das agências. "Os comerciantes não se interessam em assistir às palestras sobre microcrédito que oferecemos e as agências se limitam a ministrar essas palestras, mas não divulgam fora dos estandes, nem procuram as pessoas para esclarecê-las", alertou.

Expediente
Publicado em 07.04.09 - Copyright © 1997- 2009, JC OnLine - Recife - PE - Brasil.