Ônibus que eu quero

Depredação

Nos jogos de futebol e Carnaval, quem sofre são os ônibus. Apenas no Campeonato Brasileiro, de julho até novembro, 835 coletivos foram alvo de depredações no Grande Recife, totalizando 1.783 itens. Durante os quatro dias da festa de Momo, foram depredados 295 coletivos na Região Metropolitana do Recife.

Fonte: EMTU

Assalto


O vídeo mostra um assalto ao ônibus da linha Maranguape I, no trecho na Pan-Nordestina, em Olinda. Eram 20h40, de uma quarta-feira, 12 de dezembro de 2007. Dois assaltantes passam na catraca, e outros dois permanecem na área para idosos e deficientes. Pelo menos um deles está armado. Passageiros, cobrador e motorista são rendidos.

Fonte: cidade alta transportes e turismo

Novas tecnologias

O Centro de Estudos e Sistemas Avançados do Recife (Cesar) desenvolveu um sistema de transmissão de dados sem fio que permite o rastreamento de ônibus. Através de uma sala de monitoramento, as empresas poderão acompanhar os coletivos em tempo real, e, dessa forma, acionar a polícia em caso de assalto. O projeto está sendo negociado com empresas de transporte.

Fonte: CESAR

Câmeras, uma obrigação

Um acordo entre o Setrans e EMTU propõe que todas as empresas implantem câmeras filmadoras nos coletivos. A empresa que não cumprir a medida, está sujeita a sanções administrativas por parte do órgão sindical.

Fonte: EMTU

SEGURANÇA

De passageiros a reféns do medo

por CAROL CARVALHO

Não dá para fugir. São três homens, dois deles apontando revólveres, dezenas de pessoas entregando seus pertences. É um assalto, e o espaço é pequeno para o pavor que acomete os passageiros. A ameaça deixa de ser a arma de fogo por si só: o balanço do ônibus, que segue destino, relembra que não há como escapar. O mecânico Welton Rodrigues da Silva, 23 anos, estava lá. Teve o celular, carteira, mochila e aliança de casamento levados. Ele foi "depenado", assim como cerca de 40 passageiros que retornavam às suas residências por volta das 18h de uma sexta-feira. Passado um ano do episódio, o medo de usar o ônibus persiste. Welton não pode olhar ninguém fazendo movimento brusco, seja idoso, criança ou mulher, que fica acoado. "Se falar que não tive medo de morrer, estaria mentindo", diz. Angústia essa compartilhada por todos que percorriam naquele dia o trecho entre o Shopping Tacaruna e o giradouro em Olinda, no ônibus da linha Rio Doce/Príncipe, e por passageiros que são diariamente vítimas de assalto em coletivos na Região Metropolitana do Recife.

De acordo com a Secretaria de Defesa Social de Pernambuco (SDS), o número de assaltos a coletivos na RMR, de janeiro a outubro de 2007, chegou a 1.841. Esses são os dados oficiais, flagrados pelas câmeras instaladas nos ônibus e contabilizados pela SDS e Empresa Metropolitana de Transportes Urbanos (EMTU). Porém, nem todos os veículos são equipados. Dos 2,7 mil ônibus que circulam no Grande Recife, cerca de 1.382 ainda não possuem câmera, segundo levantamento atualizado da EMTU. Em junho de 2006, a quantidade era ainda menor, a exemplo do coletivo em que estava o mecânico. Ele se dirigia para a empresa de transporte Cidade Alta, em Rio Doce, da qual era funcionário e que só passou a contar com 100% da frota equipada com câmeras em agosto de 2007. "A filmagem serve para coibir cobradores de cometer irregularidades, não acho que ajude na segurança", opina Welton. Os números, no entanto, revelam o contrário. Segundo estatísticas da própria Cidade Alta, a investida dos bandidos diminuiu cerca de 61% do começo do ano até novembro.

"Apesar do investimento de US$ 210 mil, a empresa teve aumento de receita com a implantação das câmeras. Não só os passageiros, como também os motoristas e cobradores estão mais confiantes. Vários funcionários da Cidade Alta andavam aterrorizados a ponto de não conseguir trabalhar, principalmente os que foram vítimas de ameaças e agressões", conta o diretor-executivo da Cidade Alta, Almir Buonora. O empresário comemora a diminuição dos assaltos, no entanto reconhece que a filmagem não é o meio mais eficaz. "A polícia tem acesso às fitas apenas um dia depois do ocorrido. E já percebemos que os bandidos estão se mostrando prevenidos e evitam as câmeras", afirma. O próximo passo da Cidade Alta, segundo o diretor-executivo, é investir em tecnologia que una o rastreamento e monitoramento dos coletivos em tempo real, via GPRS, possibilitando interação com a Polícia no momento exato do crime.

Enquanto iniciativas desse porte ainda estão em fase de negociação, os passageiros, motoristas e cobradores continuam reféns do medo. Dependentes do transporte público, a exemplo do jovem mecânico Welton Silva, milhares de pessoas se vêem de mãos atadas, cientes do risco que envolve um simples e rotineiro trajeto dentro do ônibus. O sentimento de desamparo fica ainda mais evidente quando as forças policiais pouco ou nada podem fazer após um assalto. "Assim que os bandidos deixaram o ônibus, o motorista seguiu direto para a Delegacia de Olinda, que fazia parte do itinerário do veículo. Todos os passageiros prestaram queixa, e ninguém teve qualquer retorno", conta o mecânico. O caso não é isolado e, de acordo com o Sindicato das Empresas de Transporte de Passageiros de Pernambuco (Setrans/PE), trata-se de um problema de segurança pública, em que não cabe direito a ressarcimento. A recuperação dos pertences também é remota, segundo o órgão. Aos lesados, resta prestar queixa na Delegacia mais próxima ou pela internet, na Delegacia Interativa.

sem escapatória

Diante de um indivíduo com atitude suspeita, o traseunte ou motorista de um carro pode tentar desviar o caminho e talvez escapar de um possível assalto. O passageiro de ônibus, no entanto, fica à mercê da sorte. Para Welton Silva, que ganha a vida como mecânico e às vezes precisa se deslocar pela cidade com as roupas sujas de graxa, a aparência pode ser determinante. "Já estou acostumado a ser parado pela polícia", relata. No dia em que foi assaltado no coletivo, a história se inverteu. "Os três assaltantes eram jovens e estavam arrumados, de calça comprida, ninguém nunca iria desconfiar", diz. Quem estende a mão e entra em um ônibus no Grande Recife deve estar preparado, que o passeio é sempre com emoção.

 

Copyright © 2007 JC ONLINE | Sistema Jornal do Commercio de Comunicação - Publicado em 27.12.07