
ALÍVIO - A aposentada Adalgisa de Lima assistiu à chegada do primeiro ônibus no Alto do Eucalipto
Alto da Bondade, Alto do Mandu, Alto Santa Terezinha, Alto José Bonifácio, Morro da Conceição... Dá para perder a conta da quantidade de comunidades no Recife que são batizadas com o prenome que remete à geografia de onde estão localizadas: os morros. Embora a cidade tenha a maior parte de suas moradias em áreas planas, o número de áreas elevadas é significativo. Nada menos que um terço (aproximadamente 72 quilômetros quadrados) da capital pernambucana é constituído por "altos" - a maioria de difícil acesso. Se para descer todo santo ajuda, chegar em casa diariamente pode ser uma tarefa das mais penosas. Com ruas marcadas pela falta de infraestrutura, com córregos e bueiros abarrotados de lixo, os moradores ainda têm que conviver com a dificuldade de usar o transporte público. Ora os ônibus e microônibus simplesmente não conseguem subir, devido à impossibilidade de acesso, ora não existem linhas que façam o percurso. Para os "abençoados" que moram em lugares onde o transporte público já chegou, houve uma verdadeira transformação.
Os tempos mais difíceis já fazem parte do passado para a aposentada Adalgisa Alves de Lima, que assistiu à chegada do primeiro ônibus no Alto do Eucalipto, no Vasco da Gama, Zona Norte do Recife. Com 37 dos seus 67 anos vividos no local, ela é viúva do ex-presidente da Associação dos Moradores José Luiz de Lima, homem que, segundo ela, conseguiu levar o transporte para o lugar. Dona Adalgisa lembra do alívio que foi a chegada dos coletivos. "Antes era só buraco, não tinha calçamento. Melhorou o mundo todo depois que o ônibus passou a subir no Alto. Sem ele, ninguém aqui é nada", afirma. Exageros à parte, o fato é que, há cerca de 20 anos, os moradores do Alto que pegam ônibus não precisam mais vencer as escadarias de mais de 100 degraus e esperar um coletivo no Córrego da Areia, em Nova Descoberta. O técnico de laboratório Marconi Coelho dos Santos, 30, faz uma média de cinco viagens em dia de trabalho e imagina como seria sua rotina sem o ônibus: "Se não tivesse essa linha, seria mais complicado para descer e subir todos os dias". E observa: "Principalmente as pessoas idosas".
"Toda viagem para o Alto do Burity é um desafio"
José Carlos, motorista
A dona de casa Severina Coelho dos Santos, 53, concorda com o filho: "Quando não tinha ônibus, era muito complicado. A gente fazia compras em Casa Amarela porque nem mercado tinha aqui direito e subia as ladeiras carregando as sacolas pesadas". Adalgisa, Marconi e Severina somam-se aos quase sete mil passageiros que utilizam, diariamente, as linhas Vasco da Gama/Cabugá e Vasco da Gama/João de Barros, cujo terminal é na Rua Alto do Eucalipto. Embora a via seja a principal do lugar, há trechos em que dois carros de passeio passam lado a lado com dificuldade. Nesse aperto, o ônibus fica obrigado a fazer o retorno no meio da rua. Outro inconveniente é a falta de garagem ou estacionamento no terminal. "Os vizinhos ficam revoltados com os ônibus parados em frente à casa deles. Já fizeram um abaixo-assinado para tirar o terminal daqui", revela Severina. Ao todo, 14 veículos circulam no local, onde habitam cerca de 8.500 pessoas.
O mesmo problema também atinge o Alto do Burity, cujo terminal já foi transferido para a Macaxeira por falta de estrutura. O antigo terminal ficava na Praça Luiz Guilhardini, localizada no meio de um giradouro. Tomada por lixo e metralhas, hoje a praça serve apenas de local de retorno dos veículos, que há 12 anos fazem essa linha. A chegada da linha Alto do Burity/Macaxeira foi um alívio para a comunidade, como afirma a pensionista Maria da Conceição Silva Carvalho, 39: "Antes era preciso descer três escadarias e ir para a Avenida Norte. Agora onde a gente quer ir, a gente pega o ônibus e vai".
Uma das primeiras moradoras do Alto do Burity, a comerciante Francisca Vieira do Rego, 59, conhecida como China, também experimentou as duas situações - antes e depois do coletivo no Alto -, mas confessa que dificilmente o utiliza. "Para ir para a cidade a gente tem que ir pro Terminal da Macaxeira para depois voltar tudo. É um arrodeio muito grande, perdemos muito tempo", lamenta, acrescentando que prefere andar mais a pegar o coletivo. Já Jeferson Ribeiro de Santana, 25, acha melhor aguardar o ônibus que descer as ladeiras. "Pelo menos tem ônibus aqui em cima, pior se não tivesse nenhum", avalia.
A linha Alto do Burity/Macaxeira ainda circula por mais quatro altos - do Formoso, Santa Luzia, do Pitu e Jardim Progresso. A diarista Edite Vicente da Conceição, 54, conhece bem esse itinerário, usado para chegar ao trabalho em Casa Amarela e na Torre. Ela afirma que o ônibus é importante para a comunidade, mas reclama que o coletivo às vezes não sobe, devido aos buracos ou acúmulo de lixo. "O motorista poderia ter uma responsabilidade maior. Quantas vezes eu já fiquei lá embaixo, cansada."
O motorista José Carlos de Abreu confirma que há viagens em que o ônibus não sobe, mas justifica: "Se a gente vai e o percurso está bloqueado, damos ré, mas não é porque a gente quer. É muito mais perigoso ter que voltar de ré", observa. José Carlos reforça que, além de lixo e buracos, os motoristas têm que enfrentar a violência, acidentes e crianças penduradas no carro. "Toda viagem para o Alto do Burity é um desafio", desabafa.