Ônibus no morro

Escadaria

Sem ônibus para descer nem subir

por Inês Calado
DUREZA - Para pegar um ônibus, os moradores de Três Carneiros de Baixo precisam subir 182 degraus

A chuva pode ser o principal, mas não o único transtorno para as 470 mil famílias que moram em áreas de morro no Recife. O acesso a esses lugares íngremes, cheios de ladeiras e escadarias, também pode ser considerado de alto risco. Se é perigoso para ônibus, vans ou qualquer outro tipo de transporte que disputam espaço com lixo e esgotos a céu aberto em ruas apertadas, imagine a dificuldade que não é para uma pessoa subir e descer 232 degraus, que mal acomodam um pé, de uma escadaria sem corrimão ou qualquer apoio lateral. No Alto da Brasileira, onde moram cerca de três mil pessoas, 10% delas idosas, a reclamação não é com o número insuficiente de coletivos ou o tempo de espera nas paradas. Lá, o transporte público simplesmente não existe. Localizado no bairro de Nova Descoberta, na Zona Norte do Recife, o lugar é completamente desassistido. Até táxi, para subir o morro com o passageiro, cobra R$ 7.

Os 12 anos de ensino na Escola Professor Mauro Mota, a única instituição do Alto da Brasileira, não renderam à professora Glória de Santana Lima apenas cabelos brancos. Subir e descer as escadarias para chegar ao trabalho causou sérios problemas em seus joelhos. "Quem tem saúde acaba a saúde, como eu, que fiz cirurgia num joelho e vou ter que fazer no outro", relata. Segundo Glória, o difícil acesso afasta os docentes. São apenas quatro professores e 16 estagiários para atender a cerca de 500 crianças. "Os professores não querem ficar aqui por conta da escadaria. Quem tem carro também não quer gastar subindo uma ladeira dessa", diz.

"Não tenho saúde de tanto subir e descer essa escada." Maria Aparecida, 61 anos

Quem nasceu e vive até hoje no lugar, como a doméstica Elizabeth Gomes da Silva, 53, já teve dias piores. "Não tinha calçamento, era tudo barro, alagava tudo. Quando chovia, a gente ficava esperando a água baixar pra poder passar. Um pegava na mão do outro", lembra. Há dois anos, Elizabeth perdeu um filho de 25 anos que, quando voltava do trabalho, se desequilibrou e acabou caindo da escadaria. Apesar da tragédia, ela não pensa em sair do local. "Fui nascida e criada aqui em cima, já me acostumei. Sair pra onde? Pra onde a gente vai sempre tem dificuldade."

O presidente da Liga dos Moradores do Alto da Brasileira, Jairo Albuquerque, reconhece que o local não tem condições de ter ônibus. "Mas não significa que não podemos ter transporte alternativo. O que não pode é ficarmos assim, sem nada", reclama. Para Jairo, a solução seria o uso de transporte complementar. De acordo com a Companhia de Trânsito e Transporte Urbano do Recife (CTTU), a comunidade é atendida pelo Sistema Complementar através da linha Alto do Refúgio/Alto do Reservatório, que faz o trajeto até o Largo do Alto da Brasileira. No entanto a subida até a área de cima da localidade foi considerada inviável após estudo técnico do setor de engenharia. Foi constatado que a ladeira é muito íngreme e estreita, o que impossibilita a realização das manobras.

A comunidade entrou com uma ação em 2007 no Ministério Público de Pernambuco solicitando a criação de linhas desse tipo. Segundo o promotor Humberto Graça, os engenheiros do MPPE fizeram perícia e identificaram que não há possibilidade de circular nem microônibus no local. "Mas excepcionalmente iremos solicitar à CTTU que autorize o uso de vans (cadastradas no Sistema de Transporte Complementar de Passageiros). A própria van do Ministério Público esteve no local e vimos que é possível que esse tipo de transporte opere na Rua Alto da Brasileira", explicou o promotor. Humberto Graça garantiu que, até o dia 15 de janeiro, irá acionar a Prefeitura do Recife para que apresente uma alternativa. [Download de documentos do MP]

TÃO PERTO, TÃO LONGE

LINHAS DE TRÊS CARNEIROS E ALTO DA BRASILEIRA
133 - Três Carneiros
Empresa: Expresso Vera Cruz Ltda.
Tarifa: "A" - R$ 1,75
Carros:9 (dia útil), 7 (sábado) e 5 (domingo)
Horário: 4h às 23h50 (segunda a sexta), 4h às 23h30 (sábado), 4h ás 23h20 (domingo e feriado)
Informações: (81) 2101.9000

132 - UR-2/Ibura
Empresa: Expresso Vera Cruz Ltda.
Tarifa: "A" - R$ 1,75
Carros: 15 (dia útil), 9 (sábado) e 6 (domingo)
Horário: 4h20 às 22h40 (segunda a sexta), 4h20 às 22h30 (sábado), 4h20 às 22h30 (domingo e feriado)
Informações: (81) 2101.9000

110 - Ibura/Boa Viagem
Empresa: Borborema Imperial Transportes Ltda.
Tarifa: "D" R$ 2,10
Carros: 9 (dia útil), 6 (sábado) e 6 (domingo)
Horário: 4h30 às 23h (segunda a sexta), 4h10 às 22h30 (sábado), 4h10 às 22h30 (domingo e feriado)
Informações: ((81) 2127.4870

170 - Três Carneiros/Ceasa
Empresa: Expresso Vera Cruz Ltda.
Tarifa: "A" - R$ 1,75
Carros: 1 (sábado, visando atender à feira)
Horário:funciona exclusivamente aos sábados das 4h30 às 11h
Informações: (81) 2101.9000

123 - Três Carneiros de Baixo (Monte Verde)
Empresa: Expresso Vera Cruz Ltda.
Tarifa: "A" - R$ 1,75
Carros: 7 (dia útil), 6 (sábado) e 5 (domingo e feriado)
Horário: 5h às 22h10 (segunda a sexta), 5h às 22h10 (sábado), 5h às 22h05 (domingo e feriado)
Informações: (81) 2101.9000

Do outro lado do Recife, na Zona Sul da cidade, o problema não é a total falta de ônibus, mas a escassez de veículos. Em Três Carneiros de Baixo, só existe uma linha para atender à população, com destino para a Avenida Conde da Boa Vista, no Centro. Se precisar ir para outro lugar, o jeito é subir uma escadaria de 182 degraus, mesmo que o destino seja logo acima, em Três Carneiros Alto. Pelo menos uma vez por semana, às quartas-feiras, a aposentada Marlene de Souza Machado, 73, pega um atalho aqui, outro ali, para evitar as escadas, com o objetivo de ir às reuniões do Clube de Idosos da comunidade. "Ainda melhoraram, colocando corrimão", fala Marlene, que mora na Rua Ibiaporã há mais de 30 anos.

Tão perto e, ao mesmo tempo, tão longe. Para "subir", Maria Aparecida de Santana, 61, usa dois ônibus."Pego Três Carneiros Baixo, desço na Compesa e pego Três Carneiros Alto, mas porque não pago passagem", diz. Antes, quando não possuía o benefício, tinha que subir a escadaria. "Sofro de artrose. Não tenho saúde de tanto subir e descer essa escada. Quem tem carro é bom, quem tem moto melhor ainda, e quem não tem, pobre como a gente?", questiona Maria. Em lugares como Três Carneiros de Baixo, acessibilidade é uma condição que não existe. Com deficiência física, a jovem Gilmara de Oliveira Costa, 29, raramente vai pra rua. Quando precisa, o médico a atende em casa. Nunca foi à escola. Aprendeu a ler e a escrever com a irmã mais velha. "É triste, né?! Se morasse em outro lugar, seria mais fácil", lamenta.

A gerente de programação da Grande Recife Consórcio de Transporte (antiga EMTU), Taciana Ferreira, não promete mais linhas para o bairro, mas uma solução poderá ser a construção de terminais de integração, especialmente o Tancredo Neves, previsto para 2009. "Hoje a população de Três Carneiros de Baixo conta com um ônibus que vai para a Conde da Boa Vista, mas, com a linha integrada, poderá dispor de diversos destinos, pagando apenas uma tarifa", promete. Porém, para subir para o Clube dos Idosos, logo ali em cima, dona Marlene terá que continuar pegando seus atalhos. Coisa de quem mora no morro.

Expediente
Publicado em 04.01.09 - Copyright © 1997- 2009, JC OnLine - Recife - PE - Brasil.