Pelé, o homem que reinventou o futebol
Edison - em homenagem ao inventor da lâmpada - Arantes do Nascimento completa 70 anos neste sábado (23). Só ele. Porque Pelé, o jogador de futebol e hoje uma espécie de alterego de Édson, esse não tem idade. Parou no tempo, assim como parava para dar uma cabeçada ou o famoso soco no ar, marca registrada ao fazer um de seus mil e tantos gols. Ao longo da carreira, o mito solidificou-se e suplantou o homem Édson - é assim que prefere ser chamado. Quando a bola parou de rolar, o próprio homem tratou de alimentar o mito, referindo-se a si mesmo como outra pessoa. Talvez seja por isso e, obviamente, por tudo o mais, que resolveram chamá-lo de rei.
Mas, ao contrário de reinados anteriores, Pelé não representa nenhuma dinastia, embora seu pai, João Ramos do Nascimento, apelidado de Dondinho e um jogador promissor no interior de Minas Gerais, tenha lhe doado a paixão pela bola. A carreira do pré-Pelé encerrou-se devido a uma lesão grave de joelho. Mas o filho iria cobrar a dívida com juros, aliás vaticinado pelo próprio genitor ao vê-lo nos braços de Dona Celeste Arantes. "Olha os cambitinhos dele, Celeste! Vai ser bom de bola!"
O apelido Pelé surgiu bem cedo, na infância do jogador. Dondinho defendia o time do São Lourenço, mas, por ironia, quem mais chamava a atenção do garoto, então com três anos, seria aquele que um pouco mais tarde seria sua maior vítima: o goleiro. Ele berrava: "Defende, Bilé! Defende, Bilé!" Os mais próximos começaram a chamá-lo também de Bilé. Porém algumas crianças tinham dificuldade em pronunciar a letra B e terminaram trocando por Pelé.
Outra frase, essa do próprio Pelé, também soou como profecia. No dia 16 de julho de 1950, seu pai e um amigo ouviam pelo rádio a final da Copa do Mundo entre Brasil e Uruguai, no Maracanã. Criança, na época, ainda não se ligava muito em copa, mas ficou tocado pelo choro do pai ao fim da partida em que o time nacional perdeu por 2x1. "Chora, não, Dondinho. Eu vou ganhar uma Copa para o senhor". Foram logo três...
O amor pelo futebol chegou a competir por um tempo com o dos aviões. Sim, Pelé chegou asonhar em virar piloto. Para sorte dos amantes do esporte - e dele mesmo -, decidiu seguir a carreira com a bola nos pés. Jogou no Canto do Rio e em seu próprio time, o Sete de Setembro, cujos garotos muitas vezes eram obrigados a furtar bolas e uniformes dos vagões da Estrada de Ferro Sorocabana. Por último, ingressou no juvenil do Bauru Atlético Clube, conhecido como Baquinho, diminutivo do apelido BAC, da equipe principal.
Pelé marcou seu primeiro gol pela seleção brasileira aos 16 anos.
Foi nessa equipe que a história realmente ganhou uma guinada. O segundo treinador do então promissor jogador era Valdomiro de Brito, craque do passado. Na primeira tentativa, Dona Celeste bateu o pé e não deixou seu filho ainda de calças curtas ir embora de Bauru. Era 1955. Porém, um ano depois, ela não teve como negar e o jeito foi costurar os primeiros ternos de Dico (apelido familiar) para ele chegar de forma apresentável no Santos.
O teste foi contra um time da cidade de Cubatão. O Peixe era formado por profissionais e jogadores dos juvenis. Foi 6x1, com quatro do futuro Rei. No profissional, estreou sem grande alarde e num uniforme ainda folgado para seus pouco mais de 50 quilos. "Não fica nervoso, garoto", disse o ponta-esquerda Pepe, futuro companheiro de ataque. Pelé não fez gol, mas chamou a atenção do técnico Lula. Porém antes teria que treinar nas categorias menores e aprimorar o físico para aguentar uma partida para valer. Nesse primeiro momento, ele ainda atendia pelo apelido de Gasolina.
A estreia oficial veio no dia 7 de setembro de 1956 contra o Corinthians de Santo André, num amistoso. Pelé entrou no lugar de Del Vecchio e marcou o sexto gol da goleada por 7x1. Além do garoto-prodígio, o Santos já preparava uma geração que iria dominar o futebol brasileiro durante toda década de 1960. O famoso ataque com Dorval, Mengálvio, Coutinho, Pelé e Pepe ainda era reserva.
"Só que a gente não perdia uma partida no treino. A Vila Belmiro ficava cheia às quartas e quintas para ver a gente treinar. E todos foram ganhando confiança nas partidas de aspirantes, que eram as preliminares dos jogos principais."
No dia 7 de julho do ano seguinte, a primeira convocação para a seleção brasileira para um jogo contra a Argentina, no Maracanã, pela Copa Roca. Em pleno Maracanã, os eternos rivais do Brasil abriram 2x0 quando o técnico Sylvio Pirillo lançou Pelé no lugar de Del Vecchio. Ele não se intimidou e marcou o gol de honra da Canarinha, o primeiro de seus 95 com a camisa que ele ajudaria e transformar na mais temida do futebol.
O jogo seguinte foi no Pacaembu e lá estava Pelé marcando novamente na vitória por 2x0 que deu o título ao Brasil. Pouca gente pode ter imaginado, mas ali começava uma época de ouro para o futebol brasileiro. Seriam três copas do mundo vitoriosas. Os bons desempenhos fizeram com que o novo técnico da seleção, Vicente Feola, convocasse Pelé para o Mundial da Suécia, em 1958.
No entanto o comandante preferia o estilo de Dida, do Flamengo, da mesma forma que achava Joel melhor que Garrincha. Nos dois primeiros jogos, o Brasil venceu Áustria (3x0) e empatou por 0x0 com a Inglaterra, primeira partida em branco da história da Copa do Mundo. Os líderes do elenco pressionaram e Pelé, Garrincha e Vavá ganharam uma vaga contra a temida União Soviética. O Brasil não tomou conhecimento e venceu por 2x0.
Nas quartas de final, o adversário seria o País de Gales e sua sólida defesa. Mas, aos 21 minutos do segundo tempo, um semi-lençol de um menino de 17 anos, "ainda sem idade para assistir aos filmes de Brigite Bardot", como disseram os cronistas da época, terminou com a bola nas redes. A retranca estava furada e o Brasil iria enfrentar a França e seu temido ataque - comandado pelo artilheiro Just Fontaine - na semifinal.
Mas o garoto de ouro que, por um acaso (ou o encontro já estaria marcado?), ganhou a camisa 10 estava ainda mais inspirado. Marcou três vezes na goleada por 5x2 e garantiu o Brasil na decisão contra os donos da casa. Na final, mesmo com a Suécia abrindo o placar, a seleção brasileira era bem superior e já virou o primeiro tempo na frente. No final, novamente um 5x2 com direito a mais dois de Pelé, vice-artilheiro do Mundial, com seis gols - Fontaine fez 13.
1962 - Na Copa seguinte, o Brasil era franco favorito. A base do time era a mesma da Copa anterior e o início provou isso. O Brasil bateu o México por 2x0, com um gol em que Pelé passou por quase todo o time adversário. Porém, o susto veio no segundo confronto, diante da Checoslováquia. O Rei sofreu uma lesão muscular que o tirou de todo o resto do Mundial. Felizmente, Garrincha jogou pelos dois e garantiu o bicampeonato.
1966 - A bagunça generalizada promovida pela Comissão Brasileira de Desportos (CBD) acabou com qualquer chance de o Brasil vencer sua terceira copa de forma consecutiva. Foram frequentes trocas de técnicos e dezenas de jogadores testados às vésperas do Mundial. Para completar, houve uma "Caça ao Pelé", que começou na estreia diante da Bulgária. Esse jogo marcou a última vez em que a dupla Pelé e Garrincha jogou pela seleção. E foi a única vitória brasileira no torneio, com um gol de cada um. O Brasil caiu diante de Portugal e Hungria, acabando com o sonho do tri.
RECUPERAÇÃO E COPA DE 70 - O fiasco no Mundial da Inglaterra abalou o prestígio da seleção brasileira no cenário internacional. E a cobrança era tão grande sobre o Rei que ele chegou a anunciar que não jogaria mais pela seleção brasileira. "Cheguei a pensar em parar com o futebol", disse, após encerrar a carreira. Porém o tempo foi passando ele decidiu voltar, pois sabia que o Mundial do México seria a última oportunidade de jogar uma copa completa.
Além disso, faltava uma copa para Pelé chamar de sua. Didi foi eleito o melhor de 1958 e Garrincha demoliu as defesas em 1962. A preparação foi tão boa que o Rei, aos 29 anos, pôde desfilar toda sua majestade nos campos do México. Afinal, quem deixaria para sempre gravado no imaginário popular até os gols que não fez? Pois foi isso que ele fez três vezes, contra Checoslováquia, Inglaterra e Uruguai. Na final, contra a Itália, tornou-se o segundo jogador a marcar em duas finais de Copa do Mundo ao anotar o primeiro gol na goleada por 4x1. Foi eleito, com justiça, o melhor da competição.
GOL MIL - Um ano antes de brilhar na Copa, Pelé alcançou uma marca histórica: o gol mil. Foi no dia 19 de novembro de 1969, contra o Vasco, no Maracanã. Confessou ter tremido e chegou a pedir para não bater o pênalti. Emocionado, pegou a bola e ofereceu o feito à infância desamparada.
FIM DE CARREIRA - No ano seguinte ao tri, Pelé começou a ensaiar sua despedida dos gramados. O primeiro adeus foi à seleção brasileira, no dia 18 de julho de 1971, num empate por 2x2 com a Iugoslávia. O Maracanã lotado rugia em uníssono: "Fica! Fica", enquanto o craque dava uma volta olímpica com a camisa nas mãos.
Ainda jogaria mais três anos pelo Santos, período em que tentou, mas não conseguiu vencer o Campeonato Brasileiro - criado em 1971. O dia 2 de outubro marcou a despedida do Peixe na mesma Vila Belmiro onde aportara 18 anos antes como um menino magricela e assustado e agora era o maior jogador de futebol que o mundo já conheceu.
Um ano depois de dar adeus ao Santos, Pelé assumiu o compromisso de fazer o "soccer" ganhar popularidade nos Estados Unidos. Junto com Carlos Alberto Torres e Franz Beckenbauer, o brasileiro vestia a camisa 10 no New York Cosmos. Lá ficou por três anos até que, em 1977, aos 37 anos, sentiu que já havia dado sua contribuição e parou definitivamente. Ele só voltaria a vestir a camisa Canarinha em 1990, quando o Brasil disputou um amistoso contra uma seleção formada por estrelas mundiais em Milão.
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