A carroça do ex-árbitro de futebol Edson Bernardo Pereira, 47 anos, é cheia. Em vez de frutas, verduras, móveis ou até mesmo entulho, o lugar é ocupado por telas de pinturas. Obras assinadas por Ed´Bernardo, como o ex-árbitro é conhecido desde que abandonou a profissão em 2005 e passou a se dedicar exclusivamente às artes plásticas, aprendendo sozinho novos traços e amadurecendo as idéias do projeto Carroçarte. Hoje, ele já percorreu de forma independente 2.100 km, divulgando sua arte em 115 cidades do Nordeste.
O avô de Ed'Bernardo era mascate e esse sangue meio nômade está nas veias do pintor, que partiu em janeiro de 2006 do Marco Zero, no Recife - cidade onde nasceu -, com o intuito de divulgar sua arte e, ao mesmo tempo, fotografar e filmar os lugares por onde passa. "Quando chego em um município, armo a carroça num ponto de uma praça pública e monto minhas telas. Fica um ateliê a céu aberto", afirma o pintor-andante, sempre na companhia de Matuto, seu fiel cavalo.
Os quadros, com dimensões médias de 1,10 m x 0,70 cm, são produzidos em acrílico sobre tela com acabamento em verniz, sempre com temas voltados para a vida no Sertão. Enquanto uma galeria de arte contemporânea no Recife vende uma quadro de um pintor iniciante - nas mesmas dimensões - por R$ 3 mil, os de Ed'Bernardo podem ser adquiridos por a partir de R$ 150. A obra mais cara em exposição na mesma galeria pode chegar a R$ 70 mil - na comparação, valor da tela mais cara já vendida pelo viajante foi R$ 1 mil. Segundo ele, a venda é relativa: "Fiquei seis meses em Pipa (RN) e vendi vários quadros para pessoas dos Estados Unidos, Alemanha, França, Argentina, Portugal, além de estados do Brasil, mas já estou no Juazeiro do Norte (CE) há três meses e não vendi nenhum". Nesses três anos, o carroceiro-artista já pintou mais de 250 telas.
O tempo que Edson fica em cada cidade depende da aceitação do público e das condições climáticas. De Juazeiro do Norte, ele seguirá para Teresina (PI), mas a viagem está sendo adiada em virtude das fortes chuvas. Pai de duas filhas, uma com 24 e outra com 25 anos, e separado desde 1998, Ed'Bernardo aproveita a itinerância do projeto para "aventurar-se pelo mundo", conhecendo novas pessoas, culturas e costumes. Além das pinturas, ele possui um arquivo com mais de 5 mil fotos, várias horas de filmagens e textos sobre os lugares visitados. "Importante é a viagem e não o destino", afirma Edson, cuja sensibilidade conquista as pessoas já nos primeiros minutos de conversa. A característica de falar muito e muito rápido rendeu-lhe o apelido de "Fala pouquim".
O projeto Carroçarte não recebeu incentivos públicos e parece que Edson não está muito preocupado com isso. "Eu estou fora do Recife e não sei como anda o incentivo às artes plásticas", diz, acrescentando que inscreveu o projeto na Prefeitura do Recife, mas que será necessário aperfeiçoar mais, com especificações das obras e respectivos valores. "Eu vivo bem, pois o viver bem não está tão ligado a dinheiro. Meu intuito é permanecer liberto, sem amarras, e ancorar minha carroça onde eu possa viver", ressalta. O Carroçarte conta com apoio publicitário da Publikimagem e do Grupo Sá Irmãos, que investe R$ 3 mil por ano. As principais despesas de Ed'Bernardo são com o cavalo, os pneus da carroça e o material de pintura, além de alimentação e hospedagem.
Caso tivesse o projeto aprovado por algum incentivo público no Estado, Ed'Bernardo poderia receber até R$ 70 mil, que é o teto da ajuda dada para concepção e montagem de exposição com edição de catálogo. Hoje no Recife há 76 produtores (pessoa física ou jurídica) inscritos em artes visuais no Cadastro Cultural da cidade. A inscrição é necessária para tentar apoio do Fundo Pernambucano de Incentivo à Cultura (Funcultura), do Governo do Estado. O programa destinou no ano passado R$ 523.696,06 para as artes plásticas - 8,82% dos R$ 6 milhões do programa.
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