Periferia da Arte

Música

Quando o palco é o corredor de um ônibus

Há 15 anos o cantor Fábio Santinni se apresenta nos ônibus do Grande Recife, interpretando sucessos de Zezé Di Camargo & Luciano, Leonardo, Fábio Jr., Bruno e Marrone e, inclusive, Elton John, seu ídolo. Ele já gravou cinco CDs graças às doações dos passageiros.

por ISABELLE FIGUEIRÔA
do JC ONLINE

"O show vai começar". É assim que há 15 anos o músico Fábio Santinni, 27, começa suas apresentações dentro dos ônibus da Região Metropolitana do Recife. Sem nunca haver estudado música ou freqüentado aulas de violão, ele aprendeu a cantar ouvindo rádio e a tocar lendo partituras. Hoje Fábio já tem cinco CDs gravados exclusivamente por meio das doações que recebe dos passageiros. O jovem artista é um entre tantos talentos recifenses que não têm incentivo público ou de empresa privada para divulgar seu trabalho.

De família pobre, Fábio começou a trabalhar aos 10 anos carregando compras no Hiper Bompreço de Afogados, na Zona Oeste do Recife, para ajudar no sustento dos quatro irmãos mais novos. Cerca de dois anos depois, ele subiu em um ônibus e encontrou um menino tocando triângulo, que mais tarde o convidou para cantar com ele. "Na primeira vez, eu travei. O garoto ficava na frente e eu atrás, mas não tinha coragem de cantar", lembrou Fábio. Até que um dia ele pediu ao colega para ficar na frente e soltou a voz. Foi num ônibus da linha Zumbi do Pacheco, por volta das 19h, que Fábio Santinni começou seu "show sobre rodas" com a canção Pense em mim, sucesso de Leandro & Leonardo.

"Recebi muitos elogios e o dinheiro cantando nos ônibus era muito mais do que o que eu recebia no mercado", lembra o músico, que passou a se apresentar, diariamente, nos coletivos interpretando canções de Zezé Di Camargo & Luciano, Leonardo, Fábio Jr., Bruno e Marrone e, inclusive, Elton John, seu ídolo. (Os passageiros nem percebem as falhas no inglês.) Naquela época, Fábio ainda não sabia tocar violão - só aprendeu aos 23 anos, sozinho. Mensalmente, Santinni arrecada entre R$ 800 e R$ 1.200, cobrando de R$ 7 por cada CD. "Dá para cobrir todos os meus gastos no momento", diz Fábio, que trabalha das 9h às 13h, de segunda a sexta, em ônibus da Zona Sul do Recife.

O Funcultura destina até R$ 40 mil para projetos na área de música. Em 2007, foram R$ 6 milhões para projetos independentes nas diversas linguagens culturais - 20,62% para a música, o que representa R$ 1.224.368,69.

A recepção dos passageiros nem sempre foi positiva; no início, muitas vezes, achavam que o então garoto ia pegar o dinheiro para cheirar cola. Apesar de muitos ainda julgarem mal a atitude de Fábio, grande parte dos passageiros aprova o show. "Eu acho que, quando a pessoa quer conseguir alguma coisa, tem que batalhar. Não me incomodo; muito pelo contrário, torna a viagem mais agradável", afirma a dona-de-casa Dalvina Leandro.

O primeiro CD foi gravado em 2004 e, segundo Fábio, custou R$ 2.800. "Consegui todo o dinheiro através do ônibus", afirma, lembrando que hoje um álbum pode ser gravado por R$ 1.200. O diretor da Pinga Promoções, José Carlos Mendonça, concorda com o músico no que diz respeito à facilidade de gravar um CD nos dias atuais. "Em qualquer computador se grava. Existem para mais de 500 bandas com CD gravado". No entanto Pinga alerta: "Se espremer, sobram cinco ou seis com qualidade". De acordo com a gerente de Música da Prefeitura da Cidade do Recife (PCR), Débora Nascimento, apesar de não haver um levantamento dos músicos da cidade, há um projeto para um cadastro geral, que deverá ser implantado ainda no primeiro semestre deste ano.

A maior dificuldade para Fábio é divulgar o seu trabalho na mídia. Apesar de saber que os meios de comunicação encurtam a distância entre o público e o artista, o músico tenta minimizar sua ausência da mídia. "A mídia não quer dizer nada. Quanto mais se tem, mais se gasta, mais é exigido do artista". Ele já participou de alguns programas musicais na TV nacional, como o de Raul Gil, na Band. Mesmo longe dos holofotes, Fábio se orgulha do que faz: "Se eu cantasse em barzinho, iria ser mais um. No ônibus não, sou único. Eu sou divulgado para mais de mil pessoas por dia".

Atualmente, o custo para fazer um CD com 15 faixas fica em torno de R$ 1,05 acima de 20 mil cópias.

Além das apresentações nos ônibus, o músico faz shows em espaços públicos, festas de 15 anos e confraternizações. "Os órgãos públicos oferecem esmola para o artista iniciante. Para ganhar pouco fazendo show na rua, eu prefiro me apresentar nos ônibus", alfineta. O cantor lembra que a PCR desembolsou mais de R$ 400 mil em 2004 para trazer Sandy e Júnior e calcula: "Dava para contratar 100 artistas ao preço de R$ 4 mil o show. Será que não tem ninguém na cidade que cante igual ou melhor do que a dupla?".

PROJETOS

O orçamento direcionado para a Gerência de Música do Recife, anualmente, é em média R$ 150 mil para contemplar artistas iniciantes e iniciados. Com a verba, o setor informa que realiza projetos como o Estação Arte, Encontro de Caboclinhos, Jornada das Orquestras, além de seminários, oficinas, eventos de música clássica, reggae e choro. Os músicos interessados em se apresentar nas festas promovidas pela prefeitura devem "entregar uma proposta de show à Fundação de Cultura Cidade do Recife, com release, histórico da banda ou artista solo, integrantes, gênero musical, contatos e valor do cachê. Se possível, anexar um CD com músicas".

  • Discografia
  • 2008 - Show sobre rodas (17 faixas)
  • 2007 - Dos ônibus para o mundo (16 faixas)
  • 2006 - Em seus lábios (13 faixas)
  • 2005 - Sacrifício (19 faixas)
  • 2004 - Fábio Santinni (12 faixas)
Copyright © 1997- 2008 , JC OnLine - Recife - PE - Brasil - Publicado em 22.04.08