A montagem de um espetáculo teatral não é nada simples até mesmo para as grandes companhias. Que dirá, então, para os grupos e iniciantes sem integrantes renomados nem experiência em elaborar projetos para concorrer a patrocínio cultural? Esta é a realidade da 2 em Cena Companhia Cênica, criada a partir da vontade de dois amigos de fazer da paixão pelo teatro o próprio meio de vida.
O grupo nasceu há dois anos, quando o arte-educador Alexsandro Silva, 22 anos, e o bailarino Arnaldo Rodrigues, 25, juntaram-se para fazer uma pesquisa de leitura e visual, com visitas a diversos circos no Recife. Alex, como é conhecido, começou a fazer teatro aos oito anos no grupo jovem de uma igreja. Nascido em Araripina, no Sertão pernambucano, ele veio para o Recife com 17 anos para tentar fazer artes cênicas.
Quando conheceu Arnaldo, recém-chegado de Petrolina, eles decidiram montar a 2 em Cena. O resultado do trabalho foi o espetáculo Palhaçadas - história de um circo sem lona, montagem infantil que resgata a figura do palhaço, relembrando tradicionais reprises da arte circense. "Foram nove meses para criarmos o projeto. Gastamos R$ 4 mil com figurino, adereços, cenário, maquiagem e aluguel de sala para ensaios", disse Alexsandro Silva, que interpreta o palhaço Risadinha.
Além das próprias economias, os artistas contaram com o apoio dos amigos. "Recebemos ajuda de várias pessoas, na arte gráfica, direção, cenário, figurino e costura", revelou o arte-educador. Para integrar a companhia, Alexsandro e Arnaldo convidaram Paula de Tássia e Gerlane Silva, ambas com 25, que assinam a produção, e o músico Lupércio Kalaba, 23. Todos eles - a maioria vinda do interior - moram juntos em um edifício na Boa Vista, dividindo alegrias e despesas. Palhaçadas cumpriu temporada de quatro meses no Teatro Joaquim Cardozo, além de apresentações em cidades do interior como Limoeiro, Catende e Palmares. Para a circulação maior da peça, os artistas acreditam que seriam necessários R$ 30 mil - verba que, acreditam, só conseguiriam via algum fundo. Atualmente, eles estão montando a peça infantil Zé Vagão da roda fina e sua mãe Leopoldina, com direção de José Manuel Sobrinho.
No ano passado, o Sistema Municipal de Incentivo à Cultura (SIC Recife) - que destinou R$ 1,3 milhão para projetos nas diversas linguagens culturais - aprovou nove na área de artes cênicas. Atualmente aenas 130 artistas cênicos estão inscritos no Cadastro Cultural do Recife, um dos critérios fundamentais para a inscrição de projetos no SIC e a participação de discussão nos Fóruns Permanentes de Cultura do Município. (Leia mais sobre o Cadastro Cultural do Recife).
Uma melhoria nos incentivos públicos para o teatro no Recife é vista pelo grupo, apesar de ainda não ter recebido nenhum. "O espetáculo sobrevive por ele mesmo. É auto-sustentável", minimiza Paula de Tássia. A temporada no Joaquim Cardoso - que possui 50 lugares com ingressos a R$ 5 - rendeu apenas R$ 65 por dia nas primeiras apresentações de Palhaçadas. Já em fevereiro deste ano, a arrecadação diária ficou em R$ 250. Do total arrecadado na temporada, o grupo somou apenas uma média de R$ 1.200. Para Paula, uma temporada não se faz para ganhar dinheiro, mas para amadurecer o espetáculo e divulgar o trabalho. "Temporada é uma vitrine; se ganha dinheiro é com projeto", acredita.
Passar o chapéu durante o espetáculo foi uma estratégia do grupo para conseguir mais dinheiro e manter a peça em circulação. "O grande problema do teatro é a formação de platéia. Se não tem quem assista, não tem como manter o espetáculo", desabafou Paula, acrescentando que "incentivo é política e política são números. Se o poder público perceber a necessidade de produzir, vai investir".
Assim como a flor que representa a esperança na reconstrução do circo em Palhaçadas, o sonho dos integrantes da 2 em Cena é viver da companhia. Isso por enquanto não é possível, mas eles sabem muito bem o que devem fazer: "Precisamos de organização e capacitação, visão menos mambembe e mais profissional e empreendedora, porém sem perder a qualidade artística", afirmou Alexsandro. Mesmo assim, os jovens acreditam que terão dificuldades em ser contemplados com algum projeto. "O Funcultura (do Governo Estadual) se volta muito para quem já está em alta. O que é novo sofre para aparecer", denuncia.