A busca por atendimento na capital

Em uma manhã fria, Maria Joelma Araújo, de 27 anos, aguarda na fila de hospital para mais uma consulta com a médica ginecologista. A estudante, que mora em Pesqueira, a 215 km de Recife, chegou desde a madrugada ao Hospital das Clínicas (HC) para aguardar o atendimento que começa por volta das 7h. Para garantir lugar na fila, Maria Joelma saiu de Pesqueira por volta de 1h30 no ônibus mantido pela prefeitura do município que traz pacientes da região para serem atendidos em diversas unidades de saúde da capital.

Maria Joelma viajou 215 km para uma consulta com a ginecologista

Já a dona de casa Alda Costa, 38, que mora em Carpina há 13 anos, é acompanhada em consultas de rotina por um gastroenterologista e um ginecologista do mesmo hospital. Depois de operada de vesícula e passado por complicações - a cirurgia foi reaberta três vezes -, Alda decidiu procurar o HC por conta própria.

As precárias condições de atendimento no município onde vive faz com que até hoje a dona de casa prefira viajar mais de 60 km em busca de atendimento médico. “Em Carpina até tem atendimento, que antes não tinha, mas é mais demorado do que aqui no Recife. Lá é superlotado. Para conseguir uma vaga, são de dois a três meses pra ser atendido. Se for fazer uma prevenção, por exemplo, eu vou receber o resultado só no ano que vem”, desabafa Alda.

Assim como Maria Joelma e Alda Costa, centenas de outras pessoas deixam diariamente

seus municípios em busca de consultas nas principais unidades de saúde da Região Metropolitana. O Hospital das Clínicas, um dos centros de referência mais procurados, só no ano passado recebeu mais de 7,5 mil pessoas que vieram de diversos municípios do interior para atendimento em várias especialidades.

Há 13 anos a dona de casa Alda Costa vem de Carpina para se tratar no Hospital das Clínicas
Foto de Alda Costa

Na teoria, os pacientes só deveriam ser encaminhados a outras localidades em casos de média e alta complexidade. Conforme o manual do Tratamento Fora de Domicílio (TFD) de Pernambuco, o benefício “consiste em atendimento médico a ser prestado a qualquer cidadão residente no Estado de Pernambuco, quando esgotados todos os meios de tratamento na localidade de residência do mesmo e desde que haja possibilidade de cura total ou parcial, limitado ao período estritamente necessário a esse tratamento”.

Mas essa não é a realidade. Na prática, a falta de médicos para atender especialidades básicas, que deveriam ser oferecidas nas unidades do interior, faz com que muitos pacientes desses municípios procurem hospitais, principalmente no Recife.

De acordo com a Secretaria de Saúde de Pernambuco, no ano de 2009, mais de 58 mil pacientes precisaram sair de seus municípios de origem e foram internados em unidades de saúde localizadas na Região Metropolitana de Recife. Mais de 90% desses pacientes estiveram em hospitais e clínicas da capital.

Foto de pacientes esperando atendimento no Hospital das Clínicas
O Hospital das Clínicas,  só no ano passado, recebeu mais de 7.500 pessoas que vieram de diversos municípios do interior

Vitória de Santo Antão, a 55 km do Recife, foi o município que mais solicitou internações nas unidades da Região Metropolitana no ano passado: 2.877. Em segundo lugar ficou Caruaru, no Agreste do Estado, com 1.836 solicitações de internamentos.

Além dos casos de emergência, as principais unidades da capital ainda receberam, em 2009, quase 4,89 milhões de pessoas em consultas ambulatoriais ou realizaram exames de rotina, atendimentos que deveriam ser de responsabilidade dos municípios.

Fernanda Soares de Lima, 53, é professora e mora em Goiana. Há cerca de três anos, teve uma crise renal e procurou a Unidade Mista de Tejucupapo, onde foi atendida por uma obstetra, a única profissional que estava no local. Por falta de estrutura para cuidar do caso na própria cidade, Fernanda Soares foi encaminhada ao Hospital das Clínicas, onde desde então vem sendo acompanhada por um nefrologista.

A cada três meses, a professora vem a Recife no ônibus da prefeitura. Sobre as condições do veículo, desabafa: “É carente demais. O ônibus quebra quase todo dia. Uma vez, quando eu estava voltando, ele quebrou e eu vim chegar em casa às 10h da noite”, conta.

Fernanda Soares reclama do ônibus, mas defende que é obrigação da prefeitura transportar os pacientes

Devido às poucas condições financeiras, a paciente é obrigada a utilizar o transporte oferecido pelo município. Além disso, entende que o serviço é um direito que deve ser garantido pelos gestores públicos. “A gente não paga nossos impostos?! Eu sei que eu tenho os meus direitos”.