Os caminhos são diferentes, mas o trabalho começa sempre entre as 2h e 3h. Já faz parte da jornada de quem transporta pacientes do interior para a capital o céu escuro do meio da madrugada. O esforço é para garantir que todos vão chegar a tempo para as consultas. Algumas marcadas para começar já às 5h.
Normalmente, as viagens são de segunda a sexta-feira. Em alguns casos, dependendo da distância e dificuldades do trajeto, motoristas e passageiros vêm no início da semana e se acomodam, até a quarta ou quinta-feira, em casas de apoio. Nas viagens, também integra a rotina o caminho de volta no início e às vezes final da noite.
Chegando ao Recife, o motorista distribui os pacientes nas principais unidades públicas de saúde: Hospital das Clínicas, Hospital da Restauração, Instituto de Medicina Integral Professor Fernando Figueira (Imip), Hospital de Câncer, Hospital Oswaldo Cruz, Fundação Altino Ventura...
A quantidade de pacientes e o horário de atendimento é que ditam o comportamento do condutor. “É difícil porque a pessoa arrisca a vida deles e mete o pé no acelerador porque tem médico que não espera”, observa Clecio Francisco Umbelino, 29 anos, que traz moradores de Correntes, a 281 km do Recife.
Para vir duas vezes na semana, Clecio dorme às 22h e acorda à 1h45 para sair às 2h em uma van com 15 pessoas. Recebe R$ 460, que, somado ao adicional noturno e às diárias de R$ 50, totaliza R$ 838 mensais, para sustentar ele, a esposa e uma filha. “É pouquíssimo para quem arrisca a vida”, diz. Clecio e outros motoristas do município entraram num acordo de não trabalhar sem as diárias. Situação oposta a de Edvaldo Almeida Filho, de 42 anos e 23 dirigindo para a Prefeitura de Venturosa, distante 249 km da capital pernambucana. “Interior já tá dizendo, né? A gente sai sem diária, que só pagam 30, 40 dias depois. É R$ 25 para passar o dia todinho”, afirma.
Sensibilizado com as dificuldades dos passageiros, o condutor faz o dinheiro se multiplicar, dividindo a refeição com alguns pacientes. “Tem o pessoal que vem da zona rural e num tem condições... Aí, a gente num vai sentar numa mesa e deixar o paciente olhando, né?”.
A falta de formação qualificada, problema frequente, favorece o descumprimento de normas. “No interior não existe nenhum motorista preparado, completamente preparado. Só para pegar o volante, levar para onde tiver que levar. Mas, para prestar um socorro? Nada, nada”, admite Almeida Filho.
Um motorista de um município no Agreste do Estado, de identidade não revelada, admitiu não portar carteira de habilitação no momento da entrevista. “Não estou com ela (CNH) agora porque daqui a três dias vou pegar a nova com a categoria exigida”, afirmou o condutor que dirigiu ambulâncias com habilitação do tipo B por quase 20 anos, justificando que antes, segundo ele, o documento não era cobrado.